Livros Espíritas
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Muitas vezes ouvimos certas pessoas, cuja existência foi penosa e eriçada de provações, dizerem: “Eu não queria renascer numa vida nova; não quero voltar à Terra.” Quando se sofreu muito, quando se foi violentamente sacudido pelas tempestades do mundo, é muito legítima a aspiração ao descanso. É compreensível que uma alma acabrunhada recue perante o pensamento de tornar a começar essa batalha da vida em que recebeu feridas que ainda sangram. Mas a lei é inexorável. Para subir um pouco na hierarquia dos mundos, é preciso ter deixado neste a embaraçosa bagagem dos gostos e dos apetites que nos prendem à Terra. Muitas vezes levamos conosco esses laços para o Além; e são eles que nos retêm nas baixas regiões. Às vezes julgamo-nos capazes e dignos de chegar às grandes altitudes e, sem o sabermos, mil cadeias acorrentam-nos ainda a este planeta inferior. Não compreendemos o amor em sua essência sublime, nem o sacrifício como é praticado nas humanidades purificadas, em que ninguém vive para si ou para alguns, mas para todos. Ora, só os que estão preparados para tal vida podem possuí-la. Para nos tornarmos dignos dela, será preciso desçamos de novo ao cadinho, à fornalha, onde se fundirão como cera as durezas do nosso coração. E quando tiverem sido rejeitadas, eliminadas as escórias de nossa alma, quando nossa essência estiver livre de liga, então Deus nos chamará para uma vida mais elevada, para uma tarefa mais bela. Acima de tudo, cumpre aquilatar em seu justo valor os cuidados e as tristezas deste mundo. Para nós são coisas muito cruéis; mas, como tudo isso se amesquinha e apaga, se for observado de longe, se o Espírito, elevando-se acima das miudezas da existência, abarcar com um só olhar as perspectivas de seu destino! Só este sabe pesar e medir as coisas que existem nos dois oceanos do espaço e do tempo: a imensidade e a eternidade, oceanos que o pensamento sonda sem se perturbar! Ó vós todos que vos queixais amargamente das decepções, das pequeninas misérias, das tribulações de que está semeada toda a existência e que vos sentis invadidos pelo cansaço e pelo desânimo: se quereis novamente achar a resolução e a coragem perdidas, se quereis aprender a afrontar alegremente a adversidade, a suportar resignados a sorte que vos toca, lançai um olhar atento em torno de vós! Considerai as dores tantas vezes ignoradas dos pequenos, dos deserdados, os sofrimentos de milhares de seres que são homens como vós; considerai essas aflições sem conta; cegos privados do raio que guia e conforta, paralíticos impotentes, corpos que a existência torceu, imobilizou, quebrou, que padecem de males hereditários! E os que carecem do necessário, sobre quem sopra, glacial, o inverno! Pensai em todas essas vidas tristes, obscuras, miseráveis; comparai vossos males muitas vezes imaginários com as torturas de vossos irmãos de dor, e julgar-vos-eis menos infelizes, ganhareis paciência e coragem e de vosso coração descerá sobre todos os peregrinos da vida, que se arrastam acabrunhados no caminho árido, o sentimento de uma piedade sem limites e de um amor imenso!
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