Livros Espíritas
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Não se poderia ver, assim, nenhuma causa provocadora. Os fenômenos materiais praticamente cessaram ou, pelo menos, são hoje muito mais raros; mas o estado moral é o mesmo, o que é tanto mais deplorável para os pais, que vivem do trabalho. Sabe-se da influência da prece em tais casos; mas como nada se pode esperar do rapaz em questão, seria necessário o concurso dos pais; estes estão convencidos de que o filho encontra-se sob má influência oculta, mas sua crença não vai além e sua fé religiosa é das mais fracas. Dissemos ao pai que era preciso orar, mas seriamente e com fervor. “É o que já me disseram”, respondeu ele; “Orei algumas vezes, mas sem resultado; se soubesse que orando uma porção de vezes durante vinte e quatro horas isto acabasse, eu o faria agora.” Por aí se vê de que maneira, nesta circunstância, podemos ser secundados por aqueles que são os maiores interessados. Eis a contrapartida do caso e uma prova da eficácia da prece, quando feita com o coração e não com os lábios: Contrariada em suas inclinações, uma mocinha se casara com um homem a quem não simpatizava. A mágoa que isso gerou levou-a a um distúrbio mental; dominada por uma idéia fixa, perdeu a razão e viram-se obrigados a interná-la. Ela jamais ouvira falar de Espiritismo; se dele se tivesse ocupado, não teria faltado quem dissesse que os Espíritos lhe haviam transtornado a cabeça. O mal provinha, assim, de uma causa moral, acidental e toda pessoal, compreendendo-se que, em tais casos, os remédios normais não poderiam ter nenhuma valia. Como não havia nenhuma obsessão aparente, podia-se duvidar igualmente da eficácia da prece. Um membro da Sociedade Espírita de Paris, amigo da família, julgou dever interrogar um Espírito superior, que respondeu: “A idéia fixa dessa senhora, por sua própria causa, atrai à sua volta uma multidão de Espíritos maus, que a envolvem com seus fluidos e alimentam suas idéias, impedindo cheguem até ela as boas influências. Os Espíritos dessa natureza abundam sempre em meios semelhantes ao em que ela se encontra e, muitas vezes, constituem obstáculo à cura dos doentes. Contudo podereis curá-la; mas, para tanto, é necessário uma força moral capaz de vencer a resistência. E tal força não é dada a um só. Que cinco ou seis espíritas sinceros se reúnam todos os dias, durante alguns instantes e peçam com fervor a Deus e aos Espíritos bons que a assistam; que a vossa prece fervorosa seja, ao mesmo tempo, uma magnetização mental; para tanto, não tendes necessidade de estar junto a ela; ao contrário: pelo pensamento podeis levar-lhe uma salutar corrente fluídica, cuja força estará na razão de vossa intenção, aumentada pelo número. Por tal meio podereis neutralizar o mau fluido que a envolve. Fazei isto; tende fé e confiança em Deus e esperai.” Seis pessoas se dedicaram a essa obra de caridade e, durante um mês, não faltaram sequer um dia à missão que haviam aceitado. Ao cabo de alguns dias a doente estava sensivelmente mais calma; quinze dias mais tarde a melhora era manifesta e hoje esta mulher voltou para sua casa em estado perfeitamente normal, ignorando ainda, como o seu marido, de onde lhe adveio a cura. O modo de ação é aqui indicado claramente e nada teríamos a acrescentar de mais preciso à explicação dada pelo Espírito. Assim, a prece não tem apenas o efeito de levar ao paciente um socorro estranho, mas o de exercer uma ação magnética. O que não faria o magnetismo secundado pela prece! Infelizmente certos magnetizadores, a exemplo de muitos sábios, fazem abstração do elemento espiritual; vendo apenas a ação mecânica, privam-se, assim, de poderoso auxiliar. Esperamos que os verdadeiros espíritas vejam no fato uma prova a mais do bem que podem fazer em tal circunstância. Naturalmente aqui se apresenta uma questão de grande importância: O exercício da mediunidade pode provocar transtornos da saúde e das faculdades mentais? É de notar que, assim formulada, esta é a pergunta feita pela maioria dos antagonistas do Espiritismo ou, melhor dizendo, em vez de uma pergunta, eles reduzem o princípio a um axioma, afirmando que a mediunidade conduz à loucura. Falamos da loucura real e não desta, mais burlesca que séria, com que gratificam os adeptos. Conceber-se-ia a pergunta da parte de quem acreditasse na existência dos Espíritos e na ação que eles pudessem exercer, porque, para eles, existe algo de real. Mas para os que não acreditam a pergunta é um disparate, porquanto, se nada existe, esse nada não poderá produzir algo. Sendo a tese insustentável, eles se estribam nos perigos da superexcitação cerebral que, em sua opinião, é suficiente para produzir a crença nos Espíritos. Já tratamos desse ponto e a ele não mais voltaremos; apenas perguntamos se já foi feito o cadastro de todos os cérebros transtornados pelo medo do diabo e dos terríveis quadros das torturas do inferno e da danação eterna, e se é mais prejudicial acreditarmos que temos ao nosso lado Espíritos bons e benevolentes, os pais, os amigos e o anjo-da-guarda, do que o demônio. Se for assim formulada, a pergunta se torna mais racional e mais séria, desde que se admita a existência e a ação dos Espíritos: O exercício da mediunidade pode provocar num indivíduo a invasão de Espíritos maus e suas conseqüências? Jamais dissimulamos os escolhos encontrados na mediunidade, razão por que, em O Livro dos Médiuns, multiplicamos as instruções a tal respeito, não tendo cessado de recomendar o seu estudo prévio, antes de se entregarem à prática. Assim, desde a publicação daquele livro, o número de obsidiados diminuiu sensível e notoriamente, porque poupa uma experiência que os noviços muitas vezes só adquirem à própria custa. Dizemo-lo ainda: sim, sem experiência a mediunidade tem inconvenientes, dos quais o menor seria ser mistificado pelos Espíritos enganadores e levianos. Fazer Espiritismo experimental sem estudo é querer fazer manipulações químicas sem saber Química. Os numerosos exemplos de pessoas obsidiadas e subjugadas da mais desagradável maneira, sem jamais terem ouvido falar de Espiritismo, provam exuberantemente que o exercício da mediunidade não tem o privilégio de atrair os Espíritos maus. Mais ainda: prova a experiência que é um meio de os afastar, permitindo reconhecê-los. Todavia, como muitas vezes alguns vagueiam em redor de nós, pode acontecer que, encontrando oportunidade para se manifestarem, aproveitam-na, caso encontrem no médium uma predisposição física ou moral, que o torne acessível à sua influência. Ora, tal predisposição se prende ao indivíduo e a causas pessoais anteriores, e não à mediunidade. Pode dizer-se que o exercício da faculdade é uma ocasião e não uma causa. Mas se alguns indivíduos estiverem neste caso, outros há que oferecem uma resistência insuperável aos Espíritos maus, e a eles estes últimos não se dirigem. Falamos de Espíritos realmente maus e perniciosos, na verdade os únicos perigosos, e não de Espíritos levianos e zombeteiros, que se insinuam por toda parte. A presunção de julgar-se invulnerável contra os Espíritos maus muitas vezes tem sido punida de maneira cruel, porque jamais são impunemente desafiados pelo orgulho. O orgulho é a porta que lhes dá mais fácil acesso, pois ninguém oferece menos resistência do que o orgulhoso, quando tomado pelo seu lado fraco. Antes de nos dirigirmos aos Espíritos, convém, pois, proteger-nos contra o ataque dos maus, como se marchássemos em terreno onde tememos picadas de serpentes. Isto se consegue, de início, pelo estudo prévio, que indica a rota e as precauções a tomar; depois, pela prece. Mas é necessário bem nos compenetrarmos da verdade de que o único preservativo está em nós, em nossa própria força, e nunca nas coisas exteriores, e que não há talismãs, nem amuletos, nem palavras sacramentais, nem fórmulas sagradas ou profanas que possam ter a menor eficácia se não tivermos em nós mesmos as qualidades necessárias. São essas qualidades, portanto, que nos devemos esforçar por adquirir.
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(1) Ver o número de dezembro de 1862.
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