Livros Espíritas
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Desde o martírio de Estevão, agravara -se em Jerusalém o movimento de perseguição a todos os discí pulos ou simpatizantes do “Caminho”. Como se fora tocado de verdadeira alucinação, ao substituir Gamaliel nas funções religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava -se fascinar por sugestões de fanatismo cruel. Impiedosas devassas foram ordenadas a respeito de todas as famílias que revelassem inclinação e sim patia pelas idéias do Messias Nazareno. A igreja modesta, onde a bondade de Pedro prosseguia socorrendo os mais desgraçados, era rigorosamente guardada por sol dados, com ordem de impedir as prédicas que represen tavam o brando consolo dos infelizes. Obcecado pela idéia de resguardar o patrimônio farisaico, o moço tarsense entregava-se aos maiores desmandos e tiranias. Homens de bem foram expulsos da cidade por meras suspeitas. Operários honestos e até mães de família eram interpelados em escandalosos processos públicos, que o per seguidor fazia questão de movimen tar. Iniciou-se um êxodo de grandes proporções, como Jerusalém de há muito não via. A cidade começou a despovoar-se de trabalhadores. O “Caminho” havia seduzido para as suas doces consolações a alma do povo, cansada na incom preensão e no sacrifício. Livre das prestigiosas adver tências de Gamaliel, que se retirara para o deserto, e sem a carinhosa assistência de Abigail, que lhe facultava generosas inspirações, o futuro rabino parecia um louco, em cujo peito o coração estivesse ressequido. Debalde, mulhere s indefesas suplicavam -lhe piedade; inutilmente, crianças misérrimas pediram complacência para os pais, abandonados como prisioneiros infelizes. O moço de Tarso parecia dominado por uma indi ferença criminosa. As rogativas mais sinceras encon travam no seu espírito um rochedo áspero. Incapaz de compreender as circunstâncias que lhe haviam modifi cado os planos e esperanças da vida, imputava o insucesso dos seus sonhos de mocidade àquele Cristo que não conseguira entender. Odiá -lo-ia enquanto vivesse. Não sendo possível encontrá-lo para uma vingança di reta, persegui-loia na pessoa dos seus caudatários, atra vés de todos os caminhos. A seu ver, era ele, o carpinteiro anônimo, o causador dos seus fracassos em relação ao amor de Abigail, agora envenenado no s eu coração impulsivo por sentimentos estranhos, que, dia a dia, ca vavam profundos abismos entre sua figura inolvidável e as lembranças que lhe eram mais carinhosas. Não mais voltara à casa de Zacarias, e, embora os amigos da estrada de Jope instassem por suas notícias, mantinha-se irredutível no círculo do seu egoísmo sufocante. De vez em quando, sentia-se premido por uma saudade singular. Experimentava imensa falta da ternura de Abigail, cuja lembrança nunca mais se lhe havia apartado da alma enrijecida e ansiosa. Mulher alguma poderia substitui -la no carinho do seu coração. Entre angústias extremas, recordava a agonia de Estevão, sua invejável paz de consciência, as palavras de amor e de perdão; em seguida, via a noiva genuflexa, implorando -lhe amparo com um clarão de generosidade nos olhos súplices. Jamais esqueceria aquela prece angustiada e comovedora, que ela fizera ao abraçar o irmão nos der radeiros instantes de vida. Não obstante a perseguição cruel que o transformara em mola -central de todas as atividades contra a igreja humilde do “Caminho”, Saulo sentia que as necessidades espirituais se multiplicavam no espírito sedento de consolação. Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de Estevão, quando o moço tarsense, capitulando ante a sa udade e o amor que lhe dominavam a alma, resolveu rever a paisagem florida da estrada de Jope, onde por certo reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os projetos de um futuro ditoso. Tomou o carro minúsculo com o coração opresso . Quantas hesitações não vencera para retornar à antiga situação, humilhando a vaidade de homem convencionalista e inflexível! A luz crepuscular enchia a Natureza de reflexos de ouro fulgurante. Aquele céu muito azul, a verdura agreste, as brisas caridosas da tarde, eram os mesmos. Sentia -se reviver. Sonhos e esperanças continuavam, também, intangíveis. E refletia na melhor maneira de reaver a dedicação da mulher escolhida, sem humilhação para sua vaidade. Contar -lheia sua desesperação, diria das suas in sônias, da continuidade do imenso amor que nenhuma circunstância conseguira destruir. Embora mantivesse firme o propósito de omitir toda e qualquer alusão ao carpinteiro de Nazaré, falaria a Abigail do remorso por não lhe haver estendido mãos amigas no ins tante em que todas as esperanças de sua alma feminina se haviam abalado, ante o imprevisto da morte dolorosa do irmão, em circunstâncias tão amargas. Esclareceria os detalhes de seus sentimentos. Havia de referir -se à recordação indelével da sua prece angu stiosa e ardente, quando Estevão penetrava os umbrais da morte. Atraí-la-ia ao coração que jamais a esquecera, beijar -lhe-ia os cabelos, formularia novos projetos de amor e felicidade. Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada, identifica ndo as roseiras em flor. O coração batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com grande surpresa. Um abraço demorado assi nalou o reencontro. Abigail foi objeto de sua primeira interrogação. Com estranheza notou que Zacarias en tristeceu. — Pensei que algum de teus amigos já te houvesse levado a desagradável notícia - começou dizendo, enquanto o jovem buscava ouvi -lo ansioso. — Abigail, há mais de quatro meses, adoeceu dos pulmões e, para falar com franqueza, não temos qualquer esperança. Saulo fizera-se lívido. — Logo depois que voltou precipitadamente de Je rusalém, esteve mais de um mês entre a vida e a morte. Em vão nos esforçamoS, eu e Ruth, para restituir-lhe o viço e as cores da juventude. A pobrezinha entrou a definhar e, em pouco tempo, acamou-se abatida. Solicitei tua presença, com ansiedade, a fim de resolvermos o possível em seu benefício, mas não apareceste. Pare ciame que um ambiente novo lhe proporcionaria o resta belecimento da saúde, mas, faltaram-me os recursos para uma iniciativa ma is ampla, tal como se impunha. — Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito? — perguntou Saulo, aflito. — De modo algum. Aliás, o regresso inesperado de Jerusalém, a enfermidade súbita e teu injustificável afastamento desta casa eram de molde a causar-nos dúvidas e receios; mas logo se verificaram melhoras positivas, após o período mais agudo da febre, e ela nos tranqüilizou a respeito. Explicou a necessidade da tua ausência, disse estar ciente dos teus muitos afazeres e encargos políticos; referiu -se com gratidão ao acolhi mento que lhe dispensaram teus parentes e, quando Ruth, para confortá -la, qualifica de ingrato o teu procedimento, Abigail é sempre a primeira a defender -te. Saulo quis dizer alguma coisa, enquanto Zacarias fazia uma pausa, mas nada lhe ocorreu à mente. A emoção que lhe causava a nobreza espiritual da noiva amada, paralisava-lhe as idéias. — Apesar do seu esforço para tranqüilizar -nos — continuava o marido de Ruth —, temos a impressão de que nossa filha adotiva se encontra dominada por desgostos profundos, que procura ocultar. Enquanto podia andar, visitava os pessegueiros, à mesma hora em que costumava fazê -lo contigo. A princípio, minha mulher surpreendeu -a chorando, nas sombras da noite; mas, em vão procuramos sondar a causa de seus í ntimos padecimentos. O único motivo que alegava era justamente o da enfermidade, que começava a minar -lhe o organismo. Mais tarde estagiou uma semana, por aqui, um pobre velho chamado Ananias. Deu -se então um fato estranho: Abigail encontrou -o em casa dos nossos rendeiros e, todas as tardes, detinha -se a ouvi-lo horas a fio, manifestando daí para cá muita fortaleza espiritual. Ao despedir -se, o pobre mendigo deu-lhe como lembrança alguns pergaminhos com os ensinamentos do famoso carpinteiro de Nazaré... — Do carpinteiro? — atalhou Saulo evidentemente contrariado. — E depois? — Tornou-se dedicada leitora do chamado Evan gelho dos galileus. Consideramos a conveniência de afastá -la de semelhante novidade espiritual, mas Ruth ponderou ser essa, agora, a sua ún ica distração. Com efeito, desde que começou a falar no discutido Jesus Nazareno, observamos que Abigail se enchera de profundas consolações. E o fato é que não mais a vimos chorar, embora se lhe não apagasse do semblante aba tido a dolorosa expressão de amargura e melancolia. Sua conversação, daí por diante, parece haver adquirido inspirações diferentes. A dor transformou -se-lhe em confortadora expressão de alegria íntima. E fala a teu respeito com um amor cada vez mais puro. Dá impres são de haver descoberto nos misteriosos escaninhos da alma, a energia de uma vida nova. Depois de um suspiro, Zacarias terminava: — E, contudo, a mudança não alterou a marcha da enfermidade que a. devora devagarinho. Dia a dia, vemo -la inclinar-se para o túmulo, como flor q ue tomba do hastil ao sopro do vento forte. Saulo experimentava indisfarçável angústia. Penosa emoção revolvia -lhe a alma generosa e sensível. Como definir -se? Esmagavam-lhe o espírito amargurosas interrogações. Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda parte? O interesse de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a vitória do carpinteiro nazareno a contrastar os próprios sonhos da sua mocidade. — Mas, Zacarias — perguntou irritadiço o doutor de Tarso —, por que não impediste semelhante contac to? Esses velhos feiticeiros percorrem as estradas disseminando a confusão. Surpreende -me essa condescendência, porqüanto nossa fidelidade à Lei não admite, ou, pelo menos, nunca deverá admitir transigências. O interpelado recebeu a recriminação com seren idade e acentuou: —Antes de tudo, importa considerar que pedi em vão o socorro da tua presença, para orientar-me. E, além do mais, quem teria coragem de sonegar o remédio ao doente amado?
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