Livros Espíritas
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Escrevem-nos de V...: “Há algum tempo morreu um eclesiástico nas nossas vizinhanças. Era um adversário declarado do Espiritismo, mas não um desses adversários furibundos, como se vêem tantos, que suprem a falta de boas razões pela violência e pela injúria. Era um homem instruído, de inteligência superior. Combatia-o com talento, sem acrimônia e sem se afastar das conveniências. Infelizmente para ele, e a despeito de todo o seu saber e incontestável mérito, só lhe pôde opor os lugares-comuns ordinários e, para o derrubar, não encontrou nenhum desses argumentos que levam ao espírito das massas uma convicção irresistível. Sua idéia fixa, ou pelo menos a que buscava fazer prevalecer, era que o Espiritismo só teria um tempo; que sua rápida propagação não passava de um entusiasmo passageiro, e que cairia como todas as idéias utópicas. “Tivemos a idéia de o evocar em nosso pequeno círculo. Sua comunicação nos pareceu instrutiva, sob vários aspectos, razão por que nós vo-la remetemos. Em nossa opinião ela traz um selo incontestável de identidade. “Eis a comunicação: P. – [Ao guia do médium]. Teríeis a bondade de dizer se podemos fazer a evocação do Sr. abade D...? Resp. – Sim; ele virá. Mas, embora persuadido da realidade de vossos ensinos, de que a morte o convenceu, ainda tentará provar-vos a inutilidade dos vossos esforços para os espalhar de maneira séria. Ei-lo pronto a apoiar-se em dissensões momentâneas suscitadas por alguns irmãos que se extraviaram, para vos provar a insanidade de vossa doutrina. Escutai-o; sua linguagem vos fará conhecer a maneira por que lhe deveis falar. Evocação – Caro Espírito D..., esperamos que, com a ajuda de Deus e dos Espíritos bons, vos digneis comunicar-vos conosco. Como podeis ver, todo sentimento de curiosidade está longe de nosso pensamento. Provocando esta conversa, nosso objetivo é dela tirar uma instrução proveitosa para nós e, talvez, também para vós. Ser-vos-emos, pois, reconhecidos pelo que nos quiserdes dizer. Resp. – Tendes razão de me chamar, mas vos enganais supondo que eu pudesse recusar-me a vir até vós. Ficai certos de que meu título de adversário do Espiritismo não é motivo para que eu guarde silêncio; tenho boas razões para falar. Minha vinda é uma confissão, uma afirmação dos vossos ensinos. Eu o sei e o reconheço. Estou convencido da realidade das manifestações que hoje experimento, mas não é uma razão para que lhe reconheça a excelência, nem que admita como certo o objetivo a que vos propondes. Sim, os Espíritos se comunicam, e não apenas os demônios, como ensinamos, e por cálculo. É inútil que me estenda a respeito, pois conheceis tão bem quanto eu as razões que nos levam a agir assim. Certamente, os Espíritos de todas as espécies se comunicam; disto sou uma prova, porquanto, embora não tenha a veleidade de me crer um ser superior, quer por meus conhecimentos, quer por minha moralidade, tenho bastante consciência de meu valor para me estimar acima dessas categorias de Espíritos sujeitos à expiação das mais vis imperfeições. Não sou perfeito; como qualquer um, cometi faltas. Mas – reconheço com orgulho – se fui um homem de partido, fui, ao mesmo tempo, um homem de bem, no verdadeiro sentido da palavra. Escutai-me, pois. Os padres podem estar equivocados em vos combater. Não sei o que reserva o futuro e não entrarei em discussão se há ou não fundamento em sua oposição, verdadeiramente sistemática; mas, também, examinando com cuidado todas as conseqüências de uma aceitação, não podeis deixar de reconhecer que causaríeis a sua ruína social ou, pelo menos, uma transformação tão absoluta, que todo privilégio, toda separação dos outros homens a rigor seriam aniquiladas. Ora, não se renuncia com alegria no coração a uma realeza tão invejável, a um prestígio que eleva acima do comum, a riquezas que, por serem materiais, não são menos necessárias à satisfação do padre quanto à do homem comum. Pelo Espiritismo, não mais oligarquia clerical; o padre não é ninguém e é qualquer um; o padre é o homem de bem que ensina a verdade aos seus irmãos; é o operário caridoso que ergue seu companheiro caído. Vosso sacerdócio é a fé; vossa hierarquia, o mérito; vosso salário, Deus! é grande! é belo! Mas, é preciso dizer, mais cedo ou mais tarde é a ruína, não do homem, que só pode ganhar com esses ensinos, mas da família clerical. Não se renuncia de boa vontade, repito, às honras, ao respeito que se está habituado a colher. Tendes razão, eu o quero! e, contudo, não posso desaprovar nossa atitude frente ao vosso ensino; digo nossa, porque ainda é minha, apesar de tudo o que vejo e de tudo o que podereis dizer-me. Admitamos vossa doutrina firmada; ei-la escutada, por toda parte estendendo suas ramificações, no seio do povo como nas classes ricas, no artesão como no literato. Este último é que vos prestará o concurso mais eficaz; mas que resultará de tudo isto? Em minha opinião, ei-lo: Já se operam divisões entre vós. Existem duas grandes seitas entre os espíritas: os espiritualistas da escola americana e os espíritas da escola francesa. Mas consideremos apenas esta última. É una? Não. Eis, de um lado, os puristas ou kardecistas, que não admitem nenhuma verdade senão depois de um exame atento e da concordância com todos os dados; é o núcleo principal, mas não é o único; diversos ramos, depois de se terem infiltrado nos grandes ensinamentos do centro, se separam da mãe comum para formar seitas particulares; outros, não inteiramente destacados do tronco, emitem opiniões subversivas. Cada chefe de oposição tem seus aliados; os campos ainda não estão delineados, mas se formam e logo rebentará a cisão. Eu vos digo, o Espiritismo, assim como as doutrinas filosóficas que o precederam, não poderia ter uma longa duração. Foi e cresceu, mas agora está no topo e já começa a descer. Sempre faz alguns adeptos, mas, como o são-simonismo, como o fourierismo, como os teósofos, cairá, talvez para ser substituído, mas cairá, creio firmemente. Contudo, seu princípio existe: os Espíritos; mas, também, não tem os seus perigos? Os Espíritos inferiores podem comunicar-se: é a sua perda. Os homens são, antes de tudo, dominados por suas paixões, e os Espíritos de que acabo de falar estão habituados a excitá-los. Como há mais imperfeições do que qualidades em nossa Humanidade, é evidente que o Espírito do mal triunfará, e que se o Espiritismo algo pode, certamente será a invasão de um flagelo terrível para todos. Dito isto, concluo que, bom em essência, é mau por seus próprios resultados e, então é prudente rejeitá-lo. O médium – Caro Espírito, se o Espiritismo fosse uma concepção humana, eu teria a mesma opinião que a vossa; mas se vos é impossível negar a existência dos Espíritos, também não podeis ignorar, no movimento dirigido pelos seres invisíveis, a mão poderosa da Divindade. Ora, a menos que negueis os vossos próprios ensinos, quando estáveis na Terra, não podereis admitir que a ação do homem possa ser um obstáculo à vontade de Deus, seu criador. De duas, uma: ou o Espiritismo é uma obra de invenção humana e, como toda obra humana, sujeita à ruína; ou é obra de Deus, a manifestação da sua vontade e, neste caso, nenhum obstáculo poderia impedi-lo e nem mesmo retardar o seu desenvolvimento. Se, pois, reconheceis que existem Espíritos, e que esses Espíritos se comunicam para nos instruir, isto não pode estar fora da vontade divina, porque, então, existiria ao lado de Deus um poder independente, que destruiria sua qualidade de todo-poderoso e, por conseguinte, de Deus. O Espiritismo não poderia ser arruinado pelo fato de algumas dissensões que os interesses humanos poderiam gerar em seu seio. Resp. – Talvez tendes razão, meu jovem amigo (o médium era um rapaz), mas mantenho o que disse. Cesso toda discussão a respeito. Estou à vossa disposição para qualquer pergunta que queirais fazer, isto à parte. O médium – Pois bem! já que o permitis, sem insistir sobre um assunto que talvez vos fosse penoso prosseguir no momento, rogaríamos que nos descrevêsseis vossa passagem desta para a vida em que estais, dizer se ficastes perturbado e se, na vossa posição atual, vos podemos ser úteis. Resp. – Mau grado meu, não posso deixar de reconhecer a excelência desses princípios que ensinam ao homem o que é a morte e que lhe fazem ter afeição por seres que lhe são totalmente desconhecidos. Mas... enfim, meu caro jovem, vou responder à vossa pergunta. Não quero abusar do vosso tempo e satisfarei o vosso desejo em poucas palavras. Confessarei, pois, que no momento de morrer estava apreensivo. Era a matéria que me levava a lamentar esta existência? era a ignorância do futuro? não vo-lo ocultarei, eu tinha medo! Perguntais se eu estava perturbado; como o entendeis? Se quereis dizer que a ação violenta da separação me mergulhou numa espécie de letargia moral, da qual saí como de um sono penoso, sim, fiquei perturbado; mas se entendeis uma perturbação nas funções da inteligência: a memória, a consciência de si mesmo, não. Entretanto, a perturbação existe para certos seres; talvez também para mim, embora não o creia. Mas o que creio é que, geralmente, esse fenômeno não deve ocorrer imediatamente após a morte. É verdade que fiquei surpreso ao ver a existência do Espírito tal qual ensinais, mas isto não é perturbação. Eis como entendo a perturbação, e em que circunstâncias a experimentaria.
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