Livros Espíritas
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A lei de gravitação abriu novo caminho à Ciência e explicou uma multidão de fenômenos sobre os quais se haviam edificado teorias absurdas; a lei das afinidades moleculares veio dar-lhe um novo passo; a descoberta do mundo microscópico abriu-lhe novos horizontes; por sua vez a eletricidade veio revelar-lhe uma nova força, da qual não suspeitava. A cada uma dessas descobertas viu ela serem resolvidas muitas dificuldades, muitos problemas, muitos mistérios incompreendidos ou falsamente interpretados. Mas quanta coisa ainda a esclarecer! Não se poderá admitir a descoberta de uma nova lei, de uma nova força, que venham projetar a luz sobre pontos ainda obscuros? Pois bem! É uma nova força que o Espiritismo vem revelar; esta força é a ação do mundo invisível sobre o visível. Mostrando nesta ação uma lei natural, ele recua mais ainda os limites do maravilhoso e do sobrenatural, porque explica uma porção de coisas que pareciam inexplicáveis antes da descoberta da eletricidade. Limita-se o Espiritismo a admitir o mundo invisível como hipótese e como meio de explicação? Não, porquanto seria explicar o desconhecido pelo desconhecido. Ele prova a sua existência por fatos patentes, irrecusáveis, como o microscópio provou a existência do mundo dos infinitamente pequenos. Tendo, pois, demonstrado que o mundo invisível nos envolve, que esse mundo é essencialmente inteligente, uma vez que se compõe das almas dos homens que hão vivido, concebe-se facilmente que possa representar um papel ativo no mundo visível e produzir fenômenos de ordem particular. São esses fenômenos que a Ciência chama de maravilhosos, por não os poder explicar pelas leis conhecidas. Sendo tais fenômenos uma lei da Natureza, devem ter-se produzido em todos os tempos. Ora, como repousassem na ação de uma força fora da Humanidade, e como todas as religiões têm por princípio a homenagem prestada a essa força, serviram de base a todas os credos; esta a razão por que todos os relatos antigos, assim como todas as teogonias, são pródigos em alusões e alegorias concernentes às relações do mundo invisível com o visível, ininteligíveis se não se conhecem tais relações. Querer explicá-las sem isto é querer explicar os fenômenos elétricos sem a eletricidade. Esta lei é uma chave que abrirá a maior parte dos santuários misteriosos da Antigüidade. Uma vez reconhecida, os historiadores, os arqueólogos, os filósofos verão desdobrar-se um horizonte completamente novo e a luz se fará sobre os pontos mais obscuros. Se esta lei ainda encontra opositores, tem isto de comum com tudo o que é novo; deve-se, além disso, ao espírito materialista que domina nossa época e, em segundo lugar, porque em geral se faz do mundo invisível uma idéia de tal modo falsa que a incredulidade é uma conseqüência. O Espiritismo não só demonstra a sua existência, mas o apresenta sob um aspecto tão lógico que a dúvida não tem mais razão de ser em quem quer que se dê ao trabalho de estudá-lo conscienciosamente. Não pedimos aos cientistas que creiam; como, porém, o Espiritismo é uma filosofia que ocupa vasto espaço no mundo, mesmo que não passasse de um sonho mereceria exame, ainda que fosse para saber o que ele diz. Só lhes pedimos uma coisa: estudá-lo, mas estudá-lo a fundo, para não lhe imputar aquilo que ele não diz. Depois, então, creiam ou não creiam, auxiliados por essa alavanca, tomada como simples hipótese, que tentem resolver os milhares de problemas históricos, arqueológicos, antropológicos, teológicos, psicológicos, morais, sociais, etc., ante os quais têm fracassado, e verão o seu resultado. Não lhes pedir a fé não é exigir muito. Voltemos a Apolônio. Incontestavelmente, os Antigos conheciam o magnetismo. Encontramos sua prova em certas pinturas egípcias. Conheciam igualmente o sonambulismo e a dupla vista, que são fenômenos psicológicos naturais. Conheciam as diversas categorias de Espíritos, que chamavam deuses, e suas relações com os homens. Os médiuns curadores, videntes, falantes, auditivos, inspirados, etc., deviam existir entre eles como em nossos dias, como se vêem numerosos exemplos entre os árabes. Com o auxílio desses dados e do conhecimento das propriedades do perispírito – envoltório corporal fluídico dos Espíritos – podemos perfeitamente nos dar conta de vários fatos atribuídos a Apolônio de Tiana, sem recorrer à magia, à feitiçaria, nem à astúcia. Dizemos de vários fatos, porquanto alguns há cuja impossibilidade o próprio Espiritismo vem demonstrar; é nisso que ele serve para distinguir a verdade do erro. Deixamos aos que tiverem feito um estudo sério e completo desta ciência o cuidado de estabelecer a distinção entre o possível e o impossível, o que lhes será fácil. Consideremos agora Apolônio de outro ponto de vista. Ao lado do médium, que naquele tempo o convertia num ser quase sobrenatural, nele havia o filósofo, o sábio. Sua filosofia revelava a doçura de seus hábitos e de seu caráter, de sua simplicidade em todas as coisas. Pode-se julgá-lo por algumas de suas máximas. Tendo censurado os lacedemônios degenerados e efeminados, e havendo estes aproveitado os seus conselhos, escreveu aos éforos: “Apolônio aos éforos: saúde! Os verdadeiros homens não devem cometer faltas; mas só aos homens de coração, se as cometem, cabe reconhecê-las.” Tendo recebido do imperador uma carta de censura, os lacedemônios vacilavam entre conjurar sua cólera ou lhe responder com arrogância. Consultaram Apolônio quanto à forma de responder. Este veio à assembléia e lhes disse apenas estas palavras: “Se Palamédio inventou a escrita, não foi somente para que se pudesse escrever, mas para que se soubesse quando não se deve escrever.” Interrogando Apolônio, perguntou-lhe o cônsul romano Telesino: “Quando vos aproximais do altar, qual a vossa prece? – Peço aos deuses que reine a justiça, que as leis sejam respeitadas, que os sábios sejam pobres, que os outros se enriqueçam, mas por meios honestos. – Que! quando pedis tantas coisas pensais em ser atendido? – Sem dúvida, porque peço tudo isto numa só palavra, ao me aproximar do altar: ‘Ó deuses! Dai-me o que me é devido.’ Se eu pertencer ao número dos justos, obterei mais do que pedi; se, ao contrário, os deuses me puserem no número dos maus, punir-me-ão e não poderei censurá-los, visto que, não sendo bom, serei castigado.” Conversando com Apolônio sobre a maneira de governar quando fosse imperador, disse-lhe Vespasiano: “Vendo o império aviltado pelos tiranos que vos acabo de citar, quis aconselhar-me convosco quanto à maneira de reabilitá-lo na estima dos homens. – Certo dia, disse Apolônio, um dos mais hábeis flautistas mandou seus alunos aos piores flautistas para lhes ensinar como não deviam tocar. Sabeis agora, Vespasiano, como não se deve reinar: vossos predecessores vo-lo ensinaram. Reflitamos agora sobre a maneira de bem reinar.” Estando preso em Roma, no tempo de Domiciano, fez uma preleção aos prisioneiros, para lembrar-lhes a coragem e a resignação, e lhes disse: “Todos que aqui nos achamos, estamos presos durante isto que se chama vida. Ligada ao corpo perecível, nossa alma sofre numerosos males e é escrava de todas as necessidades da condição humana.” Na sua prisão, respondendo a um emissário de Domiciano que o incitava a acusar Nerva, a fim de conseguir a sua liberdade, disse Apolônio: “Meu amigo, se fui posto a ferros por ter dito a verdade a Domiciano, o que me aconteceria, se houvesse mentido? O imperador crê que é a franqueza que merece os ferros, mas eu creio que é a mentira.” Numa carta a Eufrates: “Perguntei aos ricos se não tinham preocupações. ‘Como não as teríamos?’ responderam eles. – ‘E de onde vêm as vossas preocupações? – De nossas riquezas.’ Eufrates, eu vos lamento, pois acabais de enriquecer.” Ao mesmo: “Os homens mais sábios são os mais breves em seus discursos. Se os tagarelas sofressem o que fazem sofrer aos outros, não falariam tanto.” Outra a Criton: “Disse Pitágoras que a Medicina é a mais divina das artes. Se assim é, faz-se necessário que o médico se ocupe da alma e, ao mesmo tempo, do corpo. Como um ser poderia estar sadio, quando a parte mais importante de si mesmo estivesse doente?” Outra aos platônicos: “Se oferecerem dinheiro a Apolônio e isto lhe parecer razoável, ele não terá dificuldade em aceitar, por pouco que precise. Mas um salário pelo que ensina, jamais, por muito que necessite.” Outra a Valério: “Ninguém morre, a não ser aparentemente, assim como ninguém nasce, a não ser em aparência. Com efeito, a passagem da essência à substância, eis o que se chama nascer; e o que se chama morrer é, ao contrário, a passagem da substância à essência.” Aos sacrificadores do Olimpo: “Os deuses não necessitam de sacrifícios. Que se deve fazer, então, para lhes ser agradável? Se não me engano, é preciso procurar adquirir a divina sabedoria e prestar, tanto quanto possível, serviços aos que o merecem. Eis o de que gostam os deuses. Os próprios ímpios podem fazer sacrifícios.” Aos efésios do templo de Diana: “Conservastes todos os ritos dos sacrifícios, todo o fausto da realeza. Como banqueteadores e convivas alegres, sois irrepreensíveis; mas quantas censuras não vos podem ser feitas, como vizinhos da deusa noite e dia? Não é de vosso meio que saem os vigaristas, os salteadores, os mercadores de escravos, todos os homens ímpios e injustos? O templo é um covil de ladrões.”
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(45) Apolônio de Tiana, sua vida, suas viagens, seus prodígios; por Filostrato. Nova tradução do texto grego, pelo Sr. Chassang, mestre de conferências na Escola Normal. – 1 vol. in-12 de 500 páginas. Preço: 3,50 francos. Casa Didier & Cia, editores, Quai des Augustins, 35, Paris.
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