Livros Espíritas
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Partindo do ponto de vista terreno, essa necessidade é uma injustiça aos seus olhos, quando se compara aos que podem viver sem nada fazer: tem ciúme deles; inveja-os. Partindo do ponto de vista espiritual, essa necessidade tem a sua razão de ser, sua utilidade, e ele a aceita sem murmurar, pois compreende que sem o trabalho ficará indefinidamente na inferioridade e privado da felicidade suprema a que aspira e que não poderá alcançar, caso não se desenvolva intelectual e moralmente. A esse respeito parece que muitos monges compreendem mal o objetivo da vida terrena e, menos ainda, as condições da vida futura. Pelo enclausuramento, eles se privam dos meios de se tornarem úteis aos semelhantes e muitos dos que hoje se acham no mundo dos Espíritos confessaram-nos que se enganaram redondamente e que sofrem as conseqüências de seu erro. Para o homem, tal ponto de vista tem outra imensa e imediata conseqüência: é a de tornar-lhe mais suportáveis as tribulações da vida. Que procure o bem-estar e se esforce por tornar o seu tempo na Terra o mais agradável possível: isto é muito natural e ninguém lho proíbe. Mas, sabendo que está aqui apenas momentaneamente, que um futuro melhor o aguarda, pouco se atormenta com as decepções que experimenta e, vendo as coisas do alto, aceita os reveses com menor amargura; fica indiferente aos aborrecimentos de que é vítima, por parte dos invejosos e dos ciumentos; reduz a seu justo valor os objetos de sua ambição e se coloca acima das pequenas susceptibilidades do amor-próprio. Liberto das preocupações criadas pelo homem que não sai de sua esfera limitada, pela perspectiva grandiosa que se desdobra à sua frente, é mais livre para se entregar a um trabalho proveitoso, para si próprio e para os outros. Para ele, as humilhações, as diatribes e as maldades de seus inimigos não passam de nuvens imperceptíveis num vasto horizonte; não se inquieta por elas mais do que pelas moscas que zumbem aos ouvidos, porque sabe que logo estará livre. Assim, todas as pequenas misérias que lhe suscitam deslizam por ele como a água sobre o mármore. Colocando-se do ponto de vista terreno, irritar-se-ia e talvez se vingasse. Do ponto de vista extraterreno, ele as despreza como os salpicos de lama de um caminhante desatento. São espinhos lançados no caminho e pelos quais passa, sem sequer se dar ao trabalho de os afastar, a fim de não moderar a marcha para um objetivo mais sério que se propõe atingir. Longe de malquerer os seus inimigos, é-lhes grato por fornecerem oportunidade para exercitar a paciência e a moderação em benefício de seu progresso futuro, ao passo que perderia seus frutos se descesse a represálias. Ele os lamenta por se entregarem a tantos trabalhos inúteis e diz que são aqueles próprios que caminham sobre espinhos, com as preocupações que tomam para fazer o mal. Tal é o resultado da diferença do ponto de vista sob o qual se encara a vida: um nos dá aborrecimento e ansiedade; o outro, calma e serenidade. Espíritas que experimentais decepções, ainda que em pensamento, deixai a Terra por alguns instantes; subi às regiões do infinito e olhai-as do alto: vereis o que elas serão. Por vezes dizem: Vós, que sois infelizes, olhai para baixo e não para cima e vereis ainda mais infelizes. Isto é verdade. Mas muitos dizem que o mal alheio não nos cura. Nem sempre o remédio está na comparação e para alguns não é difícil olhar para cima sem dizerem: “Por que têm estes o que não tenho?” No entanto, se se colocassem no ponto de vista de que falamos, a que em pouco seremos forçados, ficariam naturalmente acima daqueles aos quais poderíamos invejar, porque, vistos dali, os maiores pareceriam muito pequenos. Lembramo-nos de ter assistido no Odéon, há cerca de quarenta anos, a uma peça em um ato, intitulada Os Efêmeros, já não sabemos de que autor. Embora ainda jovem, ela nos causou viva impressão. A cena se passava no país dos Efêmeros, cujos habitantes vivem apenas vinte e quatro horas. No espaço de um ato a gente os vê passar do berço à adolescência, à juventude, à maturidade, à velhice, à decrepitude e à morte. Nesse intervalo realizam todos os atos da vida: batismo, casamento, negócios civis e governamentais, etc.; mas como o tempo é curto e as horas contadas, é preciso pressa; tudo se faz com prodigiosa rapidez, o que não os impede de se ocuparem com intrigas e de se darem ao trabalho para satisfazer as ambições e suplantar os outros. Como se vê, a peça encerrava um pensamento profundamente filosófico; e involuntariamente o espectador, que num instante via desenrolarem-se todas as fases de uma existência bem cheia, punha-se a dizer: Como essa gente é tola! Fazer tanto mal, quando dispõe de tão pouco tempo para viver! Que é que lhes resta dessa confusão de uma vida de algumas horas? Não seria melhor viver em paz? Eis, por alto, um quadro perfeito da vida humana. Entretanto, a peça não sobreviveu mais que seus heróis: não a compreenderam. Se o autor ainda vivesse, o que ignoramos, provavelmente hoje fosse espírita. A. K.
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