Livros Espíritas
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Para referir tudo o que, desse ponto de vista, mereceria sê-lo, seria preciso citar a metade da obra. Reproduzimos apenas alguns dos pensamentos que poderão fazer julgar do espírito no qual ela foi concebida. “Achar é a recompensa de haver procurado; e tudo quanto nós mesmos podemos fazer, não devemos pedir aos outros.” “O mundo é um vasto canteiro, no qual Deus distribuiu a cada um a sua tarefa, distribuindo a nossa conforme as nossas forças. Deste imenso atrito de inteligências diversas, opostas, hostis em aparência, jorra a luz, sem que se apague na hora do nosso último sono. Ao contrário, a marcha constante das gerações que se sucedem traz uma nova pedra ao edifício social; a luz torna-se mais brilhante quando nasce uma criança, trazendo, para continuar o progresso, o primeiro elemento de uma inteligência sempre renovada.” “Mas a marquesa me repete incessantemente (diz a jovem), que todos nascemos maus, que não diferimos senão pela maior ou menor propensão para o pecado, e que a existência inteira é uma luta contra as nossas inclinações, que todos tenderiam para a eterna danação, se a religião que ela me ensina não nos retivesse à beira do abismo. “ – Não creia nesses blasfemadores. Deus seria o agente do mal, se não tivesse posto em cada um de nós a bússola que deve guiar nossos passos para a realização dos nossos destinos, e se o homem não tivesse podido marchar em seu caminho até o dia em que a Igreja veio corrigir a obra imperfeita e mal acabada do Eterno.” “Quem sabe se, na imensa rotação do mundo, nossos filhos, por sua vez, não se tornarão nossos pais, e se não nos restituirão, intacta, esta soma de misérias, que lhes teremos deixado ao partir?” “Nenhum mal pode vir de Deus, no tempo nem na eternidade. A dor é obra nossa, é o protesto da Natureza para nos indicar que não mais estamos nos caminhos por ela fixados à atividade humana. Ela se torna um meio de salvação, porque é o seu próprio excesso que nos impele para a frente, incita nossa imaginação preguiçosa e nos leva a fazer grandes descobertas, que aumentam o bem-estar dos que devem passar por este globo depois de nós.” “Cada um de nós é um anel dessa cadeia sublime e misteriosa que liga todos os homens entre si, bem como com a Criação inteira, e que jamais, em parte alguma, poderiam ser quebradas.” “Depois da morte, os órgãos esgotados precisam de repouso, e o corpo devolve à terra os elementos de que se constituem, ao infinito, os seres que se sucedem. Mas a vida renasce da morte.” “Ao partir, levamos conosco a lembrança dos conhecimentos aqui adquiridos; o mundo para onde iremos nos dará os seus e nós os agruparemos todos em feixes, para deles formar o progresso.” “Entretanto, arriscou a moça, haverá um termo, um inevitável fim, tão afastado quanto o suponhas. – Por que limitar a eternidade, depois de a ter admitido em princípio? Aquilo que se chama o fim do mundo é apenas uma figura. Jamais houve começo e jamais haverá fim do mundo. Tudo vive, tudo respira, tudo é povoado. Para que o juízo final pudesse chegar, seria preciso um cataclismo geral, que fizesse o Universo inteiro entrar no nada. Deus, que tudo criou, não pode destruir sua obra. Para que serviria o aniquilamento da vida?” “Sem dúvida a morte é inevitável. Mas, melhor compreendida no futuro, esta morte que nos apavora, não se dará senão na hora prevista, talvez esperada, da partida, para fornecer uma nova etapa. Um chega, outro se põe a caminho, e a esperança enxuga as lágrimas que ocorrem no instante do adeus. A imensidade, o infinito, a eternidade prolongam suas perspectivas aos nossos olhos ávidos, cujo desconhecido nos atrai. Já mais aperfeiçoados, faremos uma viagem mais bela, depois partiremos ainda outra vez, e sempre marcharemos, elevando-nos incessantemente, pois depende de nós que a morte seja a recompensa do dever cumprido, ou o castigo, quando a obra encomendada não tiver sido feita.” “Em qualquer lugar que estejamos no Universo, prendemo-nos por laços misteriosos e sagrados, que nos tornam solidários uns com os outros, e recolheremos fatalmente a colheita do bem e do mal que cada um de nós semeou atrás de si, antes de partir para a grande viagem.” “A criança que nasce traz seu germe de progresso; o homem que morre deixa o seu lugar para que, depois dele, o progresso se realize e ele continue a trabalhar, levando alhures, e a um outro ser, sua alma aperfeiçoada.” “Aqueles a quem deves a luz expiaram nesta vida as faltas de um passado misterioso. Sofreram, mas sofreram corajosamente. O Deus de amor e de misericórdia necessitava deles, sem dúvida, para uma missão mais importante em outro mundo. Ele os chamou a si, concedendo-lhes assim o salário merecido antes que o dia tivesse acabado.” (A propósito de uma jovem que, ainda criança, operava curas surpreendentes, indicando os remédios por intuição). Isto fez ruído, e a principal autoridade, o cura, inquietou-se e interveio. A criança fazia, por meios naturais, o que nem o médico com sua ciência, nem o cura com suas preces, era capaz de obter!... Evidentemente ela era possessa. Para os homens de pouca fé e inteligência obtusa, é Deus que, com o propósito de nos castigar, como se não tivesse a eternidade à sua frente, ou de nos provar, como se não soubesse o que vamos fazer, nos envia todos os males, os flagelos de todo o gênero, as ruínas, a perda dos que nos são caros. Ao contrário, é Satã quem dá a prosperidade, faz encontrar tesouros, cura os doentes, e nos prodigaliza todas as alegrias deste mundo. Enfim, segundo eles, Deus faz o mal, enquanto o diabo é ao autor de todo o bem. Então Maria foi exorcizada, rebatizada ao acaso, a fim de que não pudesse mais aliviar os seus semelhantes. Mas nada adiantou: ela continua a fazer o bem ao seu redor. – Mas tu, que sabes tudo, Paul, que dizes de tudo isto? – Se jamais creio no que minha razão repele, respondeu o jovem conde, não nego os fatos atestados por numerosas testemunhas, só porque a Ciência ainda não os sabe explicar. Deus deu aos animais o instinto de ir direto à planta que pode curar as raras doenças que os atingem. Por que nos teria recusado esse precioso privilégio? Mas o homem saiu dos caminhos que o Criador lhe havia fixado; pôs-se em hostilidade com a Natureza, cujos avisos deixou de escutar. O facho extinguiu-se nele, e a Ciência veio substituir o instinto que, no seu orgulho de novo-rico, negou, combateu, perseguiu, aniquilou tanto quanto nela estava fazê-lo. Mas quem pode afirmar que não sobrevive em alguns seres simples e primitivos, decididos a se esclarecerem docilmente por todos os lampejos que entrevêem, animados que estão do desejo de vir em auxílio aos sofrimentos alheios? Quem sabe se Maria, tendo vivido outrora entre essas populaças na infância, entre as quais ainda sobrevive o instinto e que sabem segredos maravilhosos, ou então em algum mundo mais adiantado, de onde suas faltas a fizeram decair, Deus não lhe permite recordar-se de coisas que os outros esqueceram? “Não são certos conhecimentos, para cada um de nós, que parecem reencontrar-se em nós, tão fácil nos é o seu estudo, ao passo que outros não podem penetrar em nosso espírito, sem dúvida porque vêm feri-lo pela primeira vez, ou porque várias gerações acumularam sobre tais conhecimentos montanhas de ignorância e de esquecimento?” (A propósito das visões nos sonhos). “É a alma mantida no seu exílio que conversa com a alma desprendida de sua parte terrena; por isso essas visões são iluminadas por um raio luminoso, que deixa entrever aos pobres humanos quanto é resplandecente o ponto onde chegaram os que souberam dirigir o seu esquife no oceano perigoso, onde flutua a existência.” “Por certo, em mundos diferentes, nossos corpos se constituem de elementos diferentes, e aí revestimos outro envoltório, mais perfeito ou mais imperfeito, conforme o meio onde devem agir. Mas é sempre certo que esses corpos vivem, animados pelo mesmo sopro de Deus; que a transmissão das almas se faz, nuns como nos outros inumeráveis planetas que povoam o espaço infinito, e que sendo a emanação mesma de Deus, existem identicamente as mesmas, em todos os mundos. Do outro lado da vida, ele nos dá uma alma sempre purificada, que permite que nos aproximemos incessantemente do céu; só a nossa vontade por vezes a faz desviar-se do reto caminho. – Entretanto, Paul, ensinam-nos que ressuscitaremos com os nossos corpos de hoje! – Tudo isto é loucura e orgulho! Nossos corpos não são nossos, mas de todo o mundo, dos seres que ontem devoramos, dos que nos devorarão amanhã. São de um dia; a terra no-los empresta e no-los retomará. Só a nossa alma nos pertence; só ela é eterna, como tudo quanto vem de Deus e a ele retorna.” Dissertação Espírita
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