Livros Espíritas
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Se eu pudesse, ficaria em casa, mas, como se arranjariam comigo, assim, imprestável como estou? Por essa razão, Deus me concederá outro corpo e eu estarei com vocês, sem que me vejam. Sorriu, conformado, e ajuntou: — Possivelmente, seremos até mais felizes… Há muitos dias pretendo falar-lhes, como agora, para que fiquem certos de meu amor constante. Logo após meu afastamento, sei de antemão que muita gente procurará desanimá-los. Dir-se-á que me afastei para nunca mais voltar, que a sepultura me aniquilou; entretanto, previno a vocês que isso não é verdade. Viveremos sempre e amar-nos-emos uns aos outros, cada vez mais… Reparei que o genitor doente sentia intenso desejo de afagar os rapazinhos, mas, controlado pela ameaça de contaminá-los, impunha imobilidade às mãos sequiosas de contacto afetivo. Os meninos enxugavam as lágrimas discretas e, depois de longa pausa, tornou o enfermo, dirigindo-se ao filho mais velho: — Diga-me, Carlindo, você acredita que seu pai venha a desaparecer? Admite, porventura, que nosso amor e nossa união em casa, que nosso carinho e entendimento sejam apenas cinza e nada? Dominou-se o pequeno, a fim de parecer valente, e respondeu: — Eu acredito, como o senhor, que a morte não existe. — Quando eu partir, — acentuou o pai amoroso, — se vocês demonstrarem coragem e confiança em Deus, o papai estará mais corajoso e confiante e restaurará, em pouco tempo, as energias… Houve comovente interregno, que o Assistente Jerônimo não desejou quebrar, tal a significação moral da cena cariciosa. De olhos fixos nos rapazinhos, o extremoso genitor passou a considerar: — Vai para três anos, instituímos nosso culto doméstico do Evangelho de Jesus. E vocês sabem hoje que nosso Mestre não morreu. Levado ao suplício e à morte, voltou do sepulcro para orientar os amigos e continuadores. Ele, pois, nos auxiliará para que prossigamos unidos. Quando eu fizer a viagem da renovação, tenham calma e otimismo. Não chorem, nem desfaleçam. Com lágrimas não serão úteis à mamãe, que precisará naturalmente de todos nós. Deus espera que sejamos alegres na luta de cada dia para sermos filhos fiéis ao seu divino amor. Nesse instante, apareceu a dona da casa, impondo modificações à palestra. Valeu-se Jerônimo da circunstância para intervir, apresentando: — Nosso amigo Fábio, em véspera da libertação, sempre colaborou com dedicação nas obras do bem. Não é médium com tarefa, na acepção vulgar do termo. É, porém, homem equilibrado, amante da meditação e da espiritualidade superior e, em razão disso, desde a juventude tornou-se excelente ministrador de energias magnéticas, colaborando conosco em relevantes serviços de assistência oculta. Vários mentores de nossa colônia têm em alta conta o seu concurso. Há muitos anos que se consagra ao estudo das questões transcendentes da alma e formou-se na academia do esforço próprio, a fim de ser-nos útil. Livre de sectarismo, indene às paixões e amante do dever, nosso irmão Fábio constituiu desde os primeiros dias de matrimônio, o culto doméstico da fé viva, preparando a esposa, os filhinhos e outros familiares no esclarecimento dos problemas essenciais da compreensão da vida eterna. Em virtude da perseverança no bem que lhe caracterizou as atitudes, sua libertação ser-lhe-á agradável e natural. Soube viver bem, para bem morrer. Aproximei-me do enfermo, perscrutando-lhe a situação orgânica. A tuberculose minara-lhe os pulmões, impressionando-me as formações cavitárias e outros sintomas clássicos da terrível moléstia. Fábio, a rigor, não precisava apoio à fé que nutria. Revelava-se tranquilo e confiante, embora o abatimento, natural em seu estado, ia ensinando, aos seus, inesquecíveis lições de coragem e valor moral. — Vamo-nos! — Chamou-nos o Assistente, — nosso companheiro vai bem e dispensa-nos de maior colaboração. Saímos admirados com o exemplo entrevisto. Daí a instantes, Jerônimo conduzia-nos a confortável apartamento em moderno arranha-céu de elegante bairro. Entramos. No leito, permanecia respeitável senhora de idade avançada, com evidentes sinais de moléstia do coração. Cercavam-na, atenciosas, duas senhoras ainda jovens, que a cumulavam de discretos cuidados. — É nossa irmã Albina, — explicou-nos o dirigente amigo, — filiada a organizações superiores de nossa colônia espiritual. Tem inúmeros admiradores em nossa Esfera de ação, pelo muito que vem fazendo na esfera do Evangelho. Permanece, presentemente, em serviço nos círculos evangélicos protestantes. Fez profissão de fé na Igreja Presbiteriana e, viúva desde cedo, consagrou-se ao labor educativo, formando a infância e a juventude no ideal cristão. Mais uma vez, maravilhou-me a grandeza da fraternidade legítima, imperante na vida superior. Não se buscava o rótulo das criaturas, não se cogitava, em sentido particularista, de seus títulos religiosos ou sociais. Procurava-se o coração fiel a Deus, ministrava-se amparo reconfortador, sem qualquer preocupação exclusivista. O Assistente Jerônimo aproximou-se dela, tocou-lhe a fronte com a destra, e Albina, de semblante iluminado e feliz ao contato daquela mão bondosa e acariciante, exclamou para uma das companheiras que a assistiam: — Eunice, dá-me a Bíblia. Desejo meditar um pouco. — Ó mamãe! — Respondeu-lhe a filha, — não será melhor descansar? Graças a Jesus, a dispneia cedeu e a senhora parece tão bem disposta! — A Palavra do Senhor dá contentamento ao espírito, minha filha! Suplicante ternura acompanhou-lhe a expressão verbal, e de tal modo que Eunice, vencida, apanhou o volume de sobre vasta cômoda e entregou-lho. A respeitável anciã assumiu adequada posição para a leitura, recostou-se em travesseiros altos e, tomando os óculos, segurou, firme, o Testamento Divino. O Assistente Jerônimo ajudou-a a abri-lo, em determinado lugar, sem que a interessada lhe percebesse a cooperação. Patenteou-se-lhe o , alusivo à ressurreição de Lázaro. A simpática velhinha leu-o, pausadamente, em alta voz. Terminando, exclamou comovidamente: — Agradeço ao nosso Divino Mestre a alentadora leitura que nos mandou. Praza aos Céus possamos todos nós encontrar a vida eterna, em Cristo Jesus! Assim seja. As filhas acompanhavam-na, respeitosas. Jerônimo recomendou-me aplicar à doente passes de reconforto. Depois na operação magnética, observei-lhe a insuficiência cardíaca; oriunda de aneurisma em condições ameaçadoras. Dispunha-se o Assistente a conversar conosco, evidenciando as formosas qualidades da enferma, quando alguém de nosso Plano assomou à porta de entrada. Era dedicada amiga que vinha velar à cabeceira. Cumprimentou-nos, bondosa, com encantadora simplicidade. Jerônimo explicou-lhe nossa missão. A interlocutora sorriu e considerou: — Reconforta-nos a proteção de que nossa irmã é objeto. No entanto, creio que há forte pedido de prorrogação em favor dela. Todos somos de parecer que deva ser chamada à nossa Esfera com urgência, para receber o prêmio a que fez jus. Todavia, há razões ponderosas para que seja amparada convenientemente, a fim de que permaneça com a família consanguínea, na Crosta, por mais alguns meses. — Teremos prazer em todo serviço fraterno, — acentuou Jerônimo, com afabilidade. Passaremos por aqui diariamente, até que a tarefa termine. Do que houver de novo, seremos informados. A simpática visitante de Albina agradeceu e partimos. Muito significativa para mim foi a ponderação ouvida, mas, reparando que o Assistente seguia atento ao trabalho que nos cabia desenvolver, abstive-me de qualquer interrogação. Varávamos, em breve, larga porta de movimentado hospital, defendido por grandes turmas de trabalhadores espirituais. Havia aí tanta atividade por parte dos encarnados, como por parte dos desencarnados. Seguindo, porém, as pegadas de nosso dirigente, não dispensávamos maior atenção aos desconhecidos. Após atravessarmos corredores e salas, alcançamos grande enfermaria de amparo gratuito. A maioria dos leitos ocupados mostrava o doente e as entidades espirituais que o rodeavam, umas em caráter de assistência defensiva, outras em acirrada perseguição. Desdobravam-se-nos as mais diversas cenas. Prevenindo, talvez, mais a mim que aos demais companheiros, o dirigente de nosso grupo recomendou: — Não dispersem a atenção. Decorridos alguns segundos, estávamos à frente dum cavalheiro maduro, rosto profusamente enrugado e cabelos brancos, a cuja cabeceira vigiava excelente companheiro espiritual. Apresentou-nos Jerônimo a esse último. Tratava-se do irmão Bonifácio, que ajudava o doente. Em seguida, indicou-nos o doente mergulhado em lençóis alvos e esclareceu: — Aqui temos nosso velho Cavalcante. É virtuoso católico-romano, espírito abnegado e valoroso nos serviços do bem ao próximo. Veio de nossa colônia, há mais de sessenta anos, e possui grande círculo de amigos pelos seus dotes morais. Sua existência, cheia de belos sacrifícios, fala ao coração. Aqui se encontra, junto dos filhos da indigência, abandonado da parentela, em virtude de suas ideias de renúncia às riquezas materiais. Mas não se acha desamparado pela Divina Misericórdia. Findo ligeiro intervalo, adiantou-se Bonifácio, informando: — A intervenção no duodeno foi marcada para amanhã. Nosso dirigente, deixando perceber que já conhecia o caso, comunicou: — Assisti-lo-emos no instante oportuno. Obedecendo-lhe as recomendações, fiz aplicações magnéticas, detendo-me em particular sobre o aparelho digestivo, da glândula parótida ao reto, observando, além da ulceração duodenal, a inflamação adiantada do apêndice, quase a romper-se.
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