Livros Espíritas
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Se eu não estivesse seguro da verdade de minha crença; se a dúvida tivesse entrado em minha alma a respeito do que então acreditei; se uma modificação brusca se operasse em minha maneira de ver, aí eu teria ficado perturbado. Mas minha opinião é que tal perturbação não deve ocorrer logo depois da morte. Se creio no que me diz a razão, ao morrer o ser deve ficar tal qual era antes de passar... só mais tarde, quando o isolamento, a mudança que se opera gradualmente à sua volta, modificam suas opiniões, quando seu ser experimenta um abalo moral que faz vacilar sua segurança primitiva, é que começa realmente a perturbação. Perguntais se me podeis ser útil em alguma coisa. Minha religião me ensina que a prece é boa; vossa crença diz que é útil. Então orai por mim e tende certeza de meu reconhecimento. Apesar da dissidência que existe entre nós, não ficarei menos satisfeito por vir conversar algumas vezes convosco. Abade D... Nosso correspondente tinha razão ao dizer que essa comunicação é instrutiva. Ela o é, com efeito, sob muitos aspectos, e nossos leitores apreenderão facilmente os graves ensinos que dela ressaltam, sem que tenhamos necessidade de os assinalar. Aí vemos um Espírito que, em vida, tinha combatido nossas doutrinas e esgotado contra ela todos os argumentos que seu profundo saber pudera lhe fornecer; sábio teólogo, é provável que não tenha desprezado nenhum. Como Espírito há pouco desencarnado, reconhecendo as verdades fundamentais sobre as quais nos apoiamos, nem por isso persiste menos em sua oposição, e isto pelos mesmos motivos. Ora, é incontestável que, se mais lúcido no seu estado espiritual, tivesse encontrado argumentos mais peremptórios para nos combater, os teria feito valer. Longe disto, parece ter medo de enxergar muito claro e, contudo, pressente uma modificação em suas idéias. Ainda imbuído das idéias terrenas, a elas liga todos os seus pensamentos; o futuro o assusta, razão por que não ousa encará-lo. Responder-lhe-emos como se ele tivesse escrito, em vida, o que ditou depois da morte. Dirigimo-nos tanto ao homem quanto ao Espírito, assim respondendo aos que partilham sua maneira de ver e que nos poderiam opor os mesmos argumentos. Assim lhe diremos: Senhor abade, embora tenhais sido nosso adversário declarado e militante na Terra, nenhum de nós o tem assim, nem hoje, nem quando éreis vivo, primeiro porque nossa fé faz da tolerância uma lei e, aos nossos olhos todas as opiniões são respeitáveis, quando sinceras. A liberdade de consciência é um dos nossos princípios; nós a queremos para os outros, como a desejamos para nós. Só a Deus cabe julgar a validade das crenças e nenhum homem tem o direito de anatematizar em nome de Deus. A liberdade de consciência não tira o direito de discussão e de refutação, mas a caridade ordena não amaldiçoar ninguém. Em segundo lugar, não vos queremos menos por isto, porque vossa oposição não trouxe nenhum prejuízo à doutrina; servistes à causa do Espiritismo sem o saber, como todos os que o atacam, ajudando a torná-lo conhecido e provando, sobretudo em razão do vosso mérito pessoal, a insuficiência das armas que empregam para o combater. Permiti-me, agora, discutir algumas de vossas proposições. Sobretudo uma me parece pecar, em alto grau, contra a lógica. É aquela em que dizeis que “O Espiritismo, bom por essência, é mau por seus resultados.” Parece que esquecestes a máxima do Cristo, tornada proverbial pela força da verdade: “Uma árvore boa não pode dar maus frutos.” Não se compreenderia que uma coisa boa em sua própria essência pudesse ser perniciosa. Dizeis noutra parte que o perigo do Espiritismo está na manifestação dos Espíritos maus que, em proveito do mal, explorarão as paixões dos homens. Era uma das teses que sustentáveis em vida. Mas, ao lado dos Espíritos maus, há os bons, que excitam ao bem, ao passo que, segundo a doutrina da Igreja, o poder de comunicar-se só é dado aos demônios. Se, pois, achais o Espiritismo perigoso, porque admite a comunicação dos Espíritos maus, ao lado dos bons, a doutrina da Igreja, se fosse verdadeira, ainda seria muito mais perigosa, porque só admite a dos maus. Aliás, não foi o Espiritismo quem inventou a manifestação dos Espíritos, nem é causa de sua comunicação. Ele apenas constata um fato, que se produziu em todos os tempos, porque está em a Natureza. Para que o Espiritismo deixasse de existir, seria preciso que os Espíritos deixassem de se manifestar. Se essa manifestação oferece perigos, não se deve acusar o Espiritismo, mas a Natureza. A ciência da eletricidade será a causa dos prejuízos ocasionados pelo raio? Não, certamente; ela dá a conhecer a causa do raio e ensina os meios de o desviar. Dá-se o mesmo com o Espiritismo: torna conhecida a causa de uma influência perniciosa, que age sobre o homem à sua revelia, e lhe indica os meios de dela se proteger, ao passo que se a ignorasse sofrê-la-ia e a ela se exporia sem suspeitar. A influência dos Espíritos maus faz parte dos flagelos a que o homem está exposto na Terra, como as doenças e os acidentes de toda sorte, porque está num mundo de expiação e de prova, onde deve trabalhar por seu adiantamento moral e intelectual. Mas Deus, em sua bondade, ao lado do mal sempre põe o remédio; deu ao homem a inteligência para o descobrir; é a isto que conduz o progresso das ciências. O Espiritismo vem indicar o remédio a um desses males; ensina que para a ele se subtrair e neutralizar a influência dos Espíritos maus, é preciso tornar-se melhor, domar os maus pendores, praticar as virtudes ensinadas pelo Cristo: a humildade e a caridade. Então é a isto que chamais maus resultados? A manifestação dos Espíritos é um fato positivo, reconhecido pela Igreja. Ora, hoje a experiência vem demonstrar que os Espíritos são as almas dos homens, razão pela qual há tantos imperfeitos. Se o fato vem contradizer certos dogmas, o Espiritismo não é mais responsável que a Geologia, por ter demonstrado que a Terra não foi feita em seis dias. O erro desses dogmas é não estarem de acordo com as leis da Natureza. Por essas manifestações, como pelas descobertas da Ciência, quer Deus reconduzir o homem a crenças mais verdadeiras. Repelir o progresso é, pois, desconhecer a vontade de Deus; atribuí-lo ao demônio é blasfemar contra Deus. Querer, por bem ou por mal, manter uma crença que se opõe à evidência e fazer de um princípio reconhecido como falso a base de uma doutrina é escorar uma casa num esteio carcomido; pouco a pouco o esteio se quebra e a casa cai. Dizeis que a oposição da Igreja ao Espiritismo tem sua razão de ser e a aprovais, porque causaria a ruína do clero, cuja separação do comum dos mortais seria aniquilada. Dizeis: “Com o Espiritismo, não mais oligarquia clerical; o padre não é ninguém e é qualquer um; é o homem de bem que ensina a verdade a seus irmãos; é o operário caridoso que ergue seu companheiro caído; vosso sacerdote é a fé; vossa hierarquia, o mérito; vosso salário, Deus! é grande! é belo! Mas não se renuncia com alegria no coração a uma realeza, a um prestígio que vos eleva acima do comum, ao respeito, às honras que se está habituado a colher, a riquezas que, por serem materiais, não são menos necessárias à satisfação do padre quanto à do homem ordinário.” Pois quê! então o clero seria movido por sentimentos tão mesquinhos? Desconheceria a tal ponto estas palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo”, que sacrificaria o interesse da verdade à satisfação do orgulho, da ambição e das paixões mundanas? Então não acreditaria nesse reino prometido por Jesus-Cristo, desde que a ele prefere o da Terra. Assim, teria seu ponto de apoio no céu, apenas em aparência, e para se dar prestígio, mas na verdade para salvaguardar seus interesses terrenos! Preferimos crer que se tal for o móvel de alguns de seus membros, não é o sentimento da maioria; se assim não fosse, seu reino estaria bem próximo de acabar, e vossas palavras seriam sua sentença, porque o reino celeste é o único eterno, ao passo que os da Terra são frágeis e sem estabilidade. Ides muito longe, Sr. abade, em vossas previsões sobre as conseqüências do Espiritismo; mas longe do que eu em meus escritos. Sem vos acompanhar neste terreno, direi simplesmente, porque cada um o pressente, que o resultado inevitável será uma transformação da sociedade; ele criará uma nova ordem de coisas, novos hábitos, novas necessidades; modificará as crenças, as relações sociais; fará à moral o que fazem, do ponto de vista material, todas as grandes descobertas da indústria e das ciências. Essa transformação vos assusta e é por isso que, ao pressenti-la, vós a afastais do pensamento; quereríeis não crer nela; numa palavra, fechais os olhos para não ver, e os ouvidos para não ouvir.
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