Livros Espíritas
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Como entrar no cerne da questão, se não se conhece a sua primeira palavra? Ora, creio seja o caso em que vos encontrais, pois do contrário teríeis empregado melhores armas que a acusação banal de estupidez. Quando vos tiverdes dado ao estudo do Espiritismo o tempo moral necessário – e vos previno que é preciso bastante; quando tiverdes lido tudo quanto puder fundamentar a vossa opinião, aprofundado em todas as questões, assistido, como observador consciencioso e imparcial, a alguns milhares de experiências, vossa crítica terá algum valor. Até lá, não passa de uma opinião pessoal, que em nada se apóia e a respeito da qual podeis, palavra por palavra, ser pilhado em flagrante delito de ignorância. O começo de vosso artigo é uma prova. Dizeis: “São chamados de espíritas certos alucinados que romperam com todas as crenças religiosas de sua época e de seu país.” Sabeis, senhor, que esta acusação é muito grave, e tanto mais grave quanto é, ao mesmo tempo, falsa e caluniosa? O Espiritismo baseia-se inteiramente sobre o dogma da existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, sua individualidade após a morte, sua imortalidade, as penas e recompensas futuras. Não apenas sanciona essas verdades pela teoria; é de sua essência prová-las de maneira patente. Eis por que tanta gente, que em nada acreditava, foi reconduzida às idéias religiosas. Toda a sua moral se resume no desenvolvimento destas máximas do Cristo: Praticar a caridade, pagar o mal com o bem, ser indulgente para com o próximo, perdoar aos inimigos; numa palavra, agir para com os outros como gostaríamos que eles agissem para conosco. Então achais estas idéias tão estúpidas? Terão rompido com toda crença religiosa os que se apóiam sobre as próprias bases da religião? Não, direis, mas basta ser católico para ter tais idéias. Tê-las, vá; mas praticá-las é outra coisa, ao que parece. É muito evangélico para vós, católico, insultar pessoas simples, que nunca vos fizeram mal, que não conheceis e que tiveram bastante confiança em vós para vos receber entre elas? Admitamos que estejam erradas; será cobrindo-as de injúria e as irritando que as reconduzireis? Vosso artigo contém um erro de fato que, mais uma vez, prova a vossa ignorância em matéria de Espiritismo. Dizeis: Os adeptos, em geral, são operários. Sabei então, senhor, para vosso governo, que, dos cinco ou seis milhões de espíritas que existem atualmente, a quase totalidade pertence às classes mais esclarecidas da sociedade; entre seus aderentes, conta grande número de médicos em todos os países, advogados, magistrados, homens de letras, altos funcionários, oficiais de todas as patentes, artistas, sábios, negociantes, etc., pessoas que levianamente colocais entre os ineptos. Mas deixemos isso de lado. As palavras insulto e injúria vos parecem muito fortes? Vejamos. Pesastes bem o alcance de vossas palavras quando, depois de ter dito que os adeptos geralmente são operários, acrescentais, a propósito das reuniões lionesas: pois ali não são recebidos facilmente os que, pelo seu exterior, possam denunciar muita inteligência. Os Espíritos só se dignam manifestar-se aos simples. Provavelmente foi isso que nos valeu para sermos admitidos naquele lugar. E mais adiante, esta outra frase: Depois de um pequeno “speech” do sumo-sacerdote sobre a natureza dos Espíritos, tudo num estilo que deveria encantar os Espíritos, devido à sua simplicidade, começaram as perguntas. Não me recordo das facécias relativas à pena de ganso, da qual, em vossa opinião, o médium se servia, nem de outras coisas, também assaz espirituosas; falo mais seriamente. Só farei uma simples observação: vossos olhos e ouvidos vos serviram muito mal, porquanto o médium de quem falais não se serve de pena de ganso, e tanto a forma quanto o fundo da maioria das perguntas e das respostas que referis em vosso artigo são pura invenção. São, pois, pequenas calúnias, através das quais quisestes fazer brilhar a vossa inteligência. Assim, segundo pensais, para ser admitido nessas reuniões de operários é preciso ser operário, isto é, desprovido do bom-senso, e ali só fostes introduzido porque certamente vos tomaram por um tolo. É provável que vos teriam fechado a porta, se vos tivessem julgado com bastante espírito para inventar coisas que não existem. Já pensastes, senhor, que não atacais apenas os espíritas, mas toda a classe operária e, em particular, a de Lyon? Esqueceis que são esses mesmos operários, esses tecelões, como dizeis com afetação, que fazem a prosperidade de vossa cidade, através de sua indústria? Teriam sido criaturas sem valor moral os operários que produziram Jacquard? De onde saíram em bom número os vossos fabricantes, que adquiriram sua fortuna com o suor do rosto e graças à ordem e à economia? Não é insultar o trabalho comparar seus teares a forcas ignóbeis? Ridicularizai-lhes a linguagem e vos esqueceis de que o seu ofício não lhes permite fazer discursos acadêmicos. Será necessária uma franqueza excessiva para dizer o que se pensa? Vossas palavras, senhor, não são apenas levianas – emprego esta palavra por consideração – elas são imprudentes. Se algum dia Deus vos reservou dias nefastos, orai a Ele para que os tecelões de Lyon não se lembrem disto. Os que são espíritas se esquecerão, porque a caridade o ordena. Assim, fazei votos para que todos o sejam, uma vez que é no Espiritismo que eles haurem os princípios de ordem social, de respeito à propriedade e de sentimentos religiosos. Sabeis o que fazem os operários espíritas lioneses, que tratais com tanto desprezo? Em vez de se desequilibrarem num cabaré, ou de se alimentarem em doutrinas subversivas e quiméricas, nessa oficina que por irrisão comparais ao antro de Trophonius, em meio as esses teares de quatro forcas, eles pensam em Deus. Eu os vi durante minha estada aí; conversei com eles e me convenci do seguinte: Entre eles muitos maldiziam seu trabalho penoso; hoje o aceitam com a resignação do cristão, como uma prova; muitos viam com ciúme e inveja a sorte dos ricos; hoje sabem que a riqueza é uma prova ainda mais perigosa que a da miséria, e que o infeliz que sofre e não cede à tentação é o verdadeiro eleito de Deus; sabem que a verdadeira felicidade não está no supérfluo e que aqueles que são chamados os felizes deste mundo também padecem cruéis angústias, que o ouro não acalma. Muitos se riam da prece; hoje oram e reencontraram o caminho da igreja, que tinham esquecido, porque outrora não acreditavam em nada e agora crêem; vários teriam sucumbido no desespero; hoje, que conhecem a sorte dos que voluntariamente abreviam a vida, resignam-se à vontade de Deus, pois sabem que têm uma alma, do que antes não estavam certos. Enfim, por saberem que estão apenas de passagem na Terra, e que a justiça de Deus não falha para ninguém. Eis aí, Senhor, o que sabem e o que fazem esses ineptos, como os chamais. Talvez se exprimam numa linguagem ridícula, trivial aos olhos de um homem de espírito como vós, mas aos olhos de Deus o mérito está no coração e não na elegância das frases. Noutro lugar dizeis: Outrora a Igreja era bastante poderosa para impor silêncio a semelhantes divagações. Talvez ela castigasse em demasia, é verdade, mas detinha o mal. Hoje, considerando-se que a autoridade religiosa é impotente, não deveria a outra autoridade intervir neste caso? Com efeito, ela queimava. É realmente lamentável que não haja mais fogueiras. Oh! deploráveis efeitos do progresso das luzes! Não tenho por hábito responder às diatribes. Se só se tratasse de mim, eu nada teria dito; mas, a propósito de uma crença de que me orgulho de professar, porque é uma crença eminentemente cristã, ridicularizais pessoas honestas e laboriosas, porque são iletradas, esquecendo que o próprio Jesus era operário; vós as excitais por palavras irritantes; reclamais contra elas os rigores da autoridade civil e religiosa, quando são pacíficas e compreendem o vazio das utopias com que foram embaladas e que vos metem medo. Tive de lhes tomar a defesa, lembrando os deveres que a caridade impõe e dizendo-lhes que, se outros não cumprem suas obrigações, isso não é razão para se afastarem do caminho reto. Aí estão, senhor, os conselhos que lhe dou; são também os que lhe dão os Espíritos que cometem a tolice de se dirigirem a pessoas simples e ignorantes e não a vós. É que, provavelmente, sabem que serão mais escutados. A propósito, poderíeis dizer-me por que Jesus escolheu seus apóstolos entre o povo, e não entre os homens de letras? Sem dúvida porque na época não havia jornalistas para lhe dizerem o que ele devia fazer. Direis, sem dúvida, que vossa crítica só atinge a crença nos Espíritos e em suas manifestações, e não os princípios sagrados da religião. Estou certo disto. Mas, então, por que dissestes que os espíritas romperam com todos os princípios religiosos? É que não sabíeis em que eles se apóiam. No entanto, vistes um médium orar com recolhimento, e vós, católico, ristes de uma pessoa que orava!
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(33) N. do T.: Discurso, fala introdutória.
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