Livros Espíritas
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Compreende-se que aquele que se torna miserável ou enfermo por suas imprudências ou seus excessos, seja punido por onde pecou; mas se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo, o que ela fez, desde o seu nascimento, para merecer semelhantes aflições ou ser isenta delas? Admitindo-se a justiça de Deus, deve-se admitir que este efeito tem uma causa; se essa causa não pertence à vida presente, deve ser de antes dessa vida, visto que em todas as coisas a causa deve preceder o efeito; para isso faz-se, pois, necessário que a alma haja vivido e merecido uma expiação. Os estudos espíritas nos mostram, efetivamente, que mais de um homem nascido na miséria, foi rico e considerado em uma existência anterior, mas que ele fez um mau uso da fortuna que Deus lhe dera para gerir; que mais de um, nascido em meio à degradação, foi orgulhoso e poderoso. Eles também mostram, muitas vezes, o homem submisso às ordens daquele mesmo que ele havia comandado com dureza, ou exposto aos maus tratos e à humilhação que ele impusera aos outros. Uma vida penosa nem sempre é uma expiação; freqüentemente é uma prova escolhida pelo espírito, como um meio de avançar mais rapidamente se a suportar com coragem. A riqueza também é uma prova, porém mais perigosa ainda que a miséria, pelas tentações que oferece e os abusos que estimula; o exemplo daqueles que viveram também mostra que a riqueza é uma das provas de onde menos se consegue sair vitorioso. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças, quando não é o resultado da conduta atual, se ela não tivesse uma compensação. É a convicção que se adquire dessa verdade, pelo Espiritismo, que dá forças para suportar as vicissitudes da vida e aceitar a própria sorte sem invejar a dos outros. 135. Por que existem idiotas e cretinos? — A posição dos idiotas e dos cretinos seria a menos conciliável com a justiça de Deus, dentro da hipótese de uma existência única. Por miserável que seja a condição na qual um homem nasceu, ele poderá sair dela pela inteligência e pelo trabalho, mas o idiota e o cretino são destinados, desde o nascimento até a morte, ao embrutecimento e ao desprezo, e não há para eles nenhuma compensação possível. Por que, pois, sua alma teria sido cria da idiota? Os estudos espíritas, feitos sobre os idiotas e os cretinos, provam que a alma dessas pessoas é tão inteligente quanto a das outras; que essa enfermidade é uma expiação imposta aos espíritos por terem abusado da sua inteligência, e que eles sofrem cruelmente sentindo-se aprisionados por laços que não podem destruir, e pelo desprezo que lhes é dirigido, quando, em sua existência anterior, talvez tenham sido venerados. (Revista Espírita, 1860, p. 173, “O espírito de um idiota”; idem, 1861, p. 311, “Os cretinos”.) 136. Qual é o estado da alma durante o sono? — O espírito não dorme durante o sono, somente o corpo repousa. As observações práticas provam que, durante o sono, o espírito desfruta de toda a sua liberdade e da plenitude das suas faculdades, ele aproveita o repouso do corpo, e os momentos em que sua presença ali não é necessária, para agir separadamente e ir aonde quer. Durante a vida, a qualquer distância que o espírito se transporte, ele sempre fica ligado ao corpo por um laço fluídico que serve para chamá-lo de volta, desde que sua presença seja necessária; esse laço só é rompido com a morte. 137. Qual a causa dos sonhos? — Os sonhos são o resultado da liberdade do espírito durante o sono; algumas vezes, é a lembrança dos lugares e das pessoas que o espírito viu ou visitou nesse estado. (O Livro dos Espíritos: “Emancipação da alma, sono, sonhos, sonambulismo, segunda visão, letargia, etc.” pergunta 400 e seguintes; O Livro dos Médiuns: “Evocação de pessoas vivas”, item no 284; Revista Espírita, 1860, p. II: “O espírito de um lado e o corpo de outro”; idem, 1860, p. 81: “Estudo sobre o espírito das pessoas vivas”.) 138. De onde vêm os pressentimentos? — São lembranças vagas e intuitivas do que o espírito aprendeu em seus momentos de liberdade e, às vezes, advertências ocultas dadas por espíritos benévolos. 139. Por que há selvagens e homens civilizados na Terra? — Sem a preexistência da alma, essa questão é insolúvel, ou então teremos que admitir que Deus criou almas selvagens e almas civilizadas, o que seria a negação da sua justiça. Por outro lado, a razão se recusa a admitir que, após a morte, a alma do selvagem fique eternamente em um estado de inferioridade, ou que ela fique na mesma posição que a do homem esclarecido. Admitindo-se um mesmo ponto de partida para as almas, única doutrina compatível com a justiça de Deus, a presença simultânea da selvageria e da civilização na Terra é um fato material, que prova o progresso que uns já alcançaram e que outros podem conseguir. A alma do selvagem, portanto, atingirá, com o tempo, o grau de alma civilizada; porém, como todos os dias morrem selvagens, sua alma só pode alcançar esse grau em encarnações sucessivas, sempre mais aperfeiçoadas, e próprias ao seu adiantamento, seguindo todos os graus intermediários entre os dois pontos extremos. 140. Não se poderia admitir, segundo o pensamento de algumas pessoas, que a alma encarna só uma vez, e que ela realiza o seu progresso no estado de espírito, ou em outras esferas? — Essa proposição seria admissível se só houvesse sobre a Terra homens no mesmo grau moral e intelectual, e, neste caso, poder-se-ia dizer que ela estava destinada a um determinado grau; ora, temos diante de nós a prova do contrário. Efetivamente, não se compreenderia que o selvagem não pudesse atingir a civilização neste planeta, já que existem almas mais avançadas encarnadas na Terra, de onde se conclui que a possibilidade da pluralidade das existências terrestres resulta dos próprios exemplos que temos sob nossos olhos. Se fosse de outra forma, seria necessário explicar, primeiro, por que unicamente a Terra teria o monopólio das encarnações, e, segundo, por que, possuindo esse monopólio, nela se encontram almas encarnadas em todos os graus. 141. Por que se encontram seres de uma ferocidade semelhante a dos selvagens(*) mais bárbaros no meio de sociedades civilizadas? — São espíritos muito inferiores, saídos de raças bárbaras, que se esforçam em reencarnar em um meio que não é o seu, e onde se acham deslocados, como se um camponês de repente se visse colocado no meio da alta sociedade. Observação. Não se poderia admitir que a alma do criminoso endurecido tenha, na vida atual, o mesmo ponto de partida que o do homem repleto de todas as virtudes, sem negar toda a justiça e toda a bondade de Deus. Se a alma não é anterior ao corpo, a do criminoso e a do homem de bem são tão novas uma quanto a outra, por que uma seria boa e a outra má? 142. De onde vêm as características que distinguem os povos? — São espíritos que têm quase os mesmos gostos e tendências, que encarnam em um meio simpático e, freqüentemente, no mesmo meio, onde poderão satisfazer as suas inclinações. 143. Como os povos progridem e como se degeneram? — Se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo, as almas dos homens de hoje são tão novas e também tão primitivas quanto as dos homens da idade média, e, por conseqüência, pergunta-se por que elas têm costumes mais delicados e uma inteligência mais desenvolvida. Se, com a morte do corpo, a alma deixa definitivamente a Terra, pergunta-se, ainda, qual seria a utilidade do trabalho realizado para melhorar um povo se ele tivesse que recomeçar com todas as almas novas que chegam todos os dias. Os espíritos encarnam em um meio que lhes é simpático e que esteja em relação com o grau do seu adiantamento. Um chinês, por exemplo, que progrediu suficientemente, e não acha mais na sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará em um povo mais avançado. À medida que uma geração dá um passo adiante, ela atrai pela simpatia novos espíritos mais avançados, e que são talvez aqueles que haviam outrora vivido no mesmo país, e que muito progrediram; é assim que, pouco a pouco, uma nação avança. Se a maioria dos novos espíritos fosse de natureza inferior, com os antigos se afastando diariamente e não voltando a um meio mais inferior, o povo iria se degenerar e acabaria se extinguindo. Observação. Essas questões levantam outras que acham sua solução no mesmo princípio, por exemplo, de onde vem a diversidade das raças sobre a Terra? Existem raças rebeldes ao progresso? A raça negra* é suscetível de atingir o nível das raças européias? A escravidão é útil ao progresso das raças inferiores? Como pode ocorrer a transformação da humanidade? (O Livro dos Espíritos, “Lei do Progresso”, pergunta 776 e seguintes; Revista Espírita, 1862, p. 1, “Doutrina dos anjos decaídos”; idem, 1862, p. 97, “Perfectibilidade da raça negra”.)
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