Livros Espíritas
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Por Eug. Bonnemère A guerra empreendida por Luís XIV contra os calvinistas, ou Tremedores das Cevenas, é, sem sombra de dúvida, um dos mais tristes e mais emocionantes episódios da história da França. Talvez ela seja menos notável do ponto de vista puramente militar, ao repetir as atrocidades muito comuns nas guerras de religião, do que pelos inumeráveis casos de sonambulismo espontâneo, êxtase, dupla vista, previsões e outros fenômenos do mesmo gênero, que se produziram durante todo o curso dessa cruzada infeliz. Esses fatos, que então eram considerados sobrenaturais, sustentavam a coragem dos calvinistas, acossados nas montanhas, como feras, ao mesmo tempo que os faziam considerar como possessos do diabo, por uns, e como iluminados, por outros. Tendo sido uma das causas que provocaram e alimentaram a perseguição, representam um papel principal e não acessório. Mas, como os historiadores poderiam apreciá-los, quando então lhes faltavam todos os elementos necessários para se esclarecerem quanto à natureza de sua realidade? Não puderam senão desnaturá-los e apresentá-los sob uma luz falsa. Só os novos conhecimentos fornecidos pelo magnetismo e o Espiritismo poderiam projetar luz sobre a questão. Ora, como não se pode falar com verdade sobre o que não se compreende, ou do que se tem interesse em dissimular, esses conhecimentos eram tão necessários para que se fizesse um trabalho completo sobre o assunto, e isento de preconceitos, quanto o eram a Geologia e a Astronomia para comentar o Gênesis. Demonstrando a verdadeira causa desses fenômenos, provando que não saem da ordem natural, esses conhecimentos lhes devolveram seu verdadeiro caráter. Dão, assim, a chave dos fenômenos do mesmo gênero que se produziram em muitas outras circunstâncias, e permitem separar o possível do exagero, da lenda. Juntando ao talento de escritor e aos conhecimentos de historiador, um estudo sério e prático do Espiritismo e do magnetismo, o Sr. Bonnemère encontra-se nas melhores condições para tratar com conhecimento de causa e com imparcialidade o objetivo que empreendeu. A idéia espírita contribuiu uma vez mais para as obras de fantasia, mas é a primeira vez que o Espiritismo figura nominalmente e como elemento de controle numa obra histórica séria. É assim que, pouco a pouco, ele toma sua posição no mundo, e que se realizam as previsões dos Espíritos. A obra do Sr. Bonnemère só aparecerá de 5 a 10 de fevereiro, mas como algumas provas nos foram mostradas, delas extraímos as passagens seguintes, que temos a satisfação de poder reproduzir por antecipação. Todavia, suprimimos as notas indicativas das peças de apoio. Acrescentaremos que ela se distingue das obras sobre o mesmo assunto por documentos novos, que ainda não tinham sido publicados na França, de modo que pode ser considerada como a mais completa. Assim, ela se recomenda por mais de um título à atenção dos nossos leitores, que a poderão julgar pelos fragmentos abaixo: “O mundo jamais viu nada de semelhante a esta guerra das Cevenas. Meu Deus! os homens e os demônios juntaram suas forças; os corpos e os Espíritos entraram em luta e, de maneira muito diversa da do Antigo Testamento, os profetas guiavam aos combates os guerreiros, que pareciam, eles próprios, deslumbrados além das condições ordinárias da vida. “Os cépticos e os zombadores acham mais fácil negar; a Ciência, confundida, teme comprometer-se, desvia os olhos e recusa pronunciar-se. Mas, como não há fatos históricos mais incontestáveis do que estes, nem que tenham sido atestados por tão grande número de testemunhas, a zombaria, a mera negação não podem ser admitidas por mais tempo. Foi diante do sério povo inglês que juridicamente se recolheram os depoimentos, pelas mais solenes formas, ditados por protestantes refugiados, e foram publicadas em Londres, em 1707, quando a lembrança de todas essas coisas ainda estava viva em todas as memórias e os desmentidos as poderiam ter esmagado sob o seu número, caso fossem falsas. “Queremos falar do Teatro sagrado das Cevenas, ou Relato das diversas maravilhas novamente operadas nesta parte do Languedoc, do qual vamos fazer largas citações. “Os estranhos fenômenos que aí se acham referidos não buscavam, para se produzirem, nem a sombra, nem o mistério; manifestavam-se diante dos intendentes, dos generais, dos bispos, como diante dos ignorantes e dos pobres de espírito. Era testemunha quem quisesse e tivesse podido estudá-los, caso o desejasse. “Vi nesse gênero, escrevia Villars a Chamillard, em 25 de setembro de 1704, coisas em que jamais teria acreditado, se não se tivessem passado sob os meus olhos: uma cidade inteira, cujas mulheres todas pareciam possuídas do diabo. Tremiam e profetizavam publicamente nas ruas. Mandei prender vinte das piores, uma das quais teve a ousadia de tremer e profetizar em minha frente. Prendi-a para exemplo e mandei recolher as outras nos hospitais. “Tais procedimentos eram comuns na época de Luís XIV, e mandar prender uma pobre mulher porque uma força desconhecida a constrangia a dizer diante de um marechal de França coisas que não lhe agradavam, era uma maneira de agir que a ninguém revoltava, tanto era simples e natural e estava nos hábitos do tempo. Hoje, é preciso ter coragem para enfrentar a dificuldade e lhe buscar soluções menos brutais e mais probantes. “Não acreditamos no maravilhoso, nem nos milagres. Vamos, então, explicar naturalmente, o melhor que pudermos, esse grave problema histórico que, até hoje, ficou sem solução. Vamos fazê-lo ajudando-nos com as luzes que o magnetismo e o Espiritismo hoje põem à nossa disposição, sem pretender impor essas crenças a ninguém. “É lamentável que não possamos consagrar senão algumas linhas àquilo que, compreende-se, exigiria um volume de desenvolvimentos. Diremos apenas, para tranqüilizar os espíritos tímidos, que isto em nada choca as idéias cristãs; não precisamos de outra prova senão destes dois versículos do Evangelho de São Mateus: “Quando, pois, vos entregarem nas mãos dos governadores e dos reis, não vos preocupeis como lhes haveis de falar, nem o que direis, porque o que houverdes de dizer vos será dado na ocasião; “Porquanto não sois vós que falais, é o Espírito do vosso Pai quem fala em vós. (Mateus, 10:19 e 20.) “Deixamos aos comentadores o cuidado de decidir qual é, ao certo, esse Espírito de nosso Pai, que, em certos momentos, se substitui ao nosso, fala em nosso lugar e nos inspira. Talvez se possa dizer que toda geração que desaparece é o pai e a mãe da que lhe sucede, e que os melhores entre os que parecem não mais existir, elevando-se rapidamente quando desembaraçados dos entraves do corpo material, vêm ocupar os órgãos daqueles de seus filhos que julgam dignos de lhes servir de intérpretes, e que expiarão caro, um dia, o mau uso que tiverem feito das faculdades preciosas que lhes são delegadas. “O magnetismo desperta, superexcita e desenvolve em certos sonâmbulos o instinto que a Natureza deu a todos os seres para a sua cura, e que nossa civilização incompleta abafou em nós, para substituí-lo pelas falsas luzes da Ciência. “O sonâmbulo natural põe seu sonho em ação, eis tudo. Nada toma dos outros, nada pode por eles. “O sonâmbulo fluídico, ao contrário, aquele no qual o contato do fluido do magnetizador provoca esse estado bizarro, sente-se imperiosamente atormentado pelo desejo de aliviar seus irmãos. Vê o mal, ou vem indicar-lhe o remédio. “O sonâmbulo inspirado, que por vezes pode ser, ao mesmo tempo, fluídico, é o mais ricamente dotado, e nele a inspiração se mantém nas esferas elevadas, quando ela se manifesta espontaneamente. Só ele é um revelador; só nele reside o progresso, porque só ele é o eco, o instrumento dócil de um Espírito diferente do seu, e mais adiantado. “O fluido é um ímã que atrai os mortos bem-amados para os que ficam. Desprende-se abundantemente dos inspirados e vai despertar a atenção dos seres que partiram primeiro, e que lhes são simpáticos. Estes, por seu lado, depurados e esclarecidos por uma vida melhor, julgam melhor e conhecem melhor essas naturezas primitivas, honestas, passivas, que podem servir-lhes de intermediárias na ordem dos fatos que julgam útil revelar-lhes. “No século passado eram chamados extáticos. Hoje são médiuns. “O Espiritismo é a correspondência das almas entre si. Segundo os adeptos desta crença, um ser invisível se põe em comunicação com um outro, gozando de uma organização particular que o torna apto a receber os pensamentos dos que viveram e a escrevê-los, seja por um impulso mecânico inconsciente imprimido à mão, seja pela transmissão direta à inteligência dos médiuns. “Se, por algum momento, se quiser conceder alguma crença a estas idéias, compreender-se-á facilmente que as almas indignadas desses mártires, que o grande rei imolava às centenas todos os dias, tenham vindo proteger os seres queridos, dos quais haviam sido violentamente separadas, os tenham sustentado, guiado, consolado em meio às suas duras provações, inspirado por seu espírito, e que lhes tenham anunciado previamente – o que aconteceu muitas vezes – os perigos que os ameaçavam.”
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(5) 1 vol. in-12, 3 fr. 50; pelo correio: 4 fr. Paris, Décembre-Alonnier, lib.
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