Livros Espíritas
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Como é mais cômodo ter as coisas à mão, para ter comparsas dóceis, o que não se encontra em toda parte, alguns organizam ou fazem organizar reuniões onde se ocupam de preferência daquilo que o Espiritismo recomenda não se ocuparem, e onde se tem o cuidado de atrair estranhos, que nem sempre são amigos. Aí o sagrado e o profano estão indignamente confundidos; os mais venerados nomes são associados às mais ridículas práticas da magia negra, acompanhadas de sinais e palavras cabalísticas, talismãs, tripés sibilinos e outros acessórios. Alguns acrescentam, como complemento, e por vezes, visando ao lucro, a cartomancia, a quiromancia, a borra de café, o sonambulismo pago, etc. Espíritos complacentes, que aí encontram intérpretes não menos complacentes, predizem o futuro, lêem a buena-dicha, descobrem tesouros ocultos e tios na América e, caso necessário, indicam a cotação da Bolsa e os números premiados da loteria. Depois, um belo dia, a justiça intervém ou a gente lê num jornal a descrição de uma sessão de Espiritismo à qual o autor assistiu e conta o que viu com os próprios olhos. Tentareis trazer toda essa gente a idéias mais sãs? Seria trabalho perdido, e compreende-se por que: a razão e o lado sério da doutrina não lhes interessa; é o que mais os contraria; dizer-lhes que prejudicam a causa, que fornecem armas aos inimigos é lisonjeá-los; seu objetivo é desacreditá-la, tendo o ar de a defender. Instrumentos, não temem comprometer os outros, fazendo que sofram os rigores da lei, nem a si mesmos, pois sabem encontrar uma compensação. Nem sempre seu papel é idêntico; varia conforme a posição social, as aptidões, a natureza de suas relações e o elemento que os faz agir, embora o fim seja sempre o mesmo. Nem todos empregam meios tão grosseiros, mas não menos pérfidos. Lede certas publicações que se dizem simpáticas à idéia, mesmo as que aparentam defendê-la; examinai todos os pensamentos e vede se, às vezes, ao lado de uma aprovação posta à guisa de cobertura e de etiqueta, não descobris, como que lançado ao acaso, um pensamento insidioso, uma insinuação de duplo sentido, um fato relatado de modo ambíguo e que pode ser interpretado num sentido desfavorável. Entre estes, uns são menos velados e, sob o manto do Espiritismo, visam suscitar divisões entre os adeptos. Certamente perguntarão se todas as torpezas de que acabamos de falar se devem, invariavelmente, a manobras ocultas ou a uma comédia com fim interesseiro, ou se, também, não podem resultar de um movimento espontâneo; numa palavra, se todos os espíritas são homens de bom-senso e incapazes de se enganar? Pretender que todos os espíritas sejam infalíveis seria tão absurdo quanto a pretensão dos nossos adversários de deterem o privilégio exclusivo da razão. Mas se alguns se enganam, é que se equivocam quanto ao sentido e ao fim da doutrina. Neste caso sua opinião não pode fazer lei, e é ilógico e desleal, conforme a intenção, tomar a idéia individual pela idéia geral, e explorar uma exceção. Seria o mesmo que tomar as aberrações de alguns sábios como regras da Ciência. A esses diremos: se quiserdes saber de que lado está a presunção de verdade, estudai os princípios admitidos pela imensa maioria, se não, ainda, pela unanimidade absoluta dos espíritas do mundo inteiro. Podem, pois, os crentes de boa-fé enganar-se e não os incriminamos por não pensarem como nós. Se, entre as torpezas relatadas acima, algumas não passassem de opinião pessoal, nelas não veríamos senão desvios isolados, lamentáveis; seria, porém, injusto responsabilizar a doutrina, que as repudia abertamente. Mas se dizemos que pode ser o resultado de manobras interesseiras, é que nosso quadro é feito sobre modelos. Ora, como é a única coisa que o Espiritismo tem realmente a temer no momento, convidamos todos os adeptos sinceros a se porem em guarda, evitando as armadilhas que lhes poderiam estender. Para tanto, jamais seriam bastante circunspetos quanto à escolha dos elementos a introduzir nas reuniões, nem repeliriam com excessivo cuidado as sugestões que tendessem a desnaturar o caráter essencialmente moral. Mantendo nisto a ordem, a dignidade e a gravidade que convém a homens sérios, que se ocupam com coisas sérias, fecharão o acesso aos mal-intencionados, que se retirarão quando reconhecerem que aí nada têm a fazer. Pelos mesmos motivos, devem declinar de toda solidariedade com as reuniões formadas fora das condições prescritas pela sã razão e os verdadeiros princípios da doutrina, se não os puderem conduzir ao bom caminho. Como se vê, há certamente uma grande diferença entre os falsos irmãos e os amigos inábeis, mas, sem o querer, o resultado pode ser o mesmo: desacreditar a doutrina. A nuança que os separa freqüentemente está apenas na intenção, o que, por vezes, poderia confundi-los, e, vendo-os servir os interesses do partido contrário, supor que por este foram conquistados. A circunspeção, pois, sobretudo neste momento, é mais necessária que nunca, porquanto não devemos esquecer que palavras, ações ou escritos inconsiderados são explorados, e que os adversários estão satisfeitíssimos por poderem dizer que isto vem dos espíritas. Neste estado de coisas, compreende-se que armas a especulação, tendo em vista os abusos que pode suscitar, haverá de oferecer aos detratores para apoiar a acusação de charlatanice. Em certos casos, portanto, isto pode ser uma armadilha, da qual se deve desconfiar. Ora, como não há charlatanice filantrópica, a abnegação e o desinteresse absolutos dos médiuns tiram aos detratores um de seus mais poderosos meios de denegrir, cortando pela raiz toda discussão a respeito. Levar a desconfiança ao excesso seria um grave erro, sem dúvida, mas, em tempos de luta e quando se conhece a tática do inimigo, a prudência torna-se uma necessidade que, aliás, não exclui a moderação nem a observação das conveniências, das quais não devemos jamais nos separar. Por outro lado não nos poderíamos equivocar quanto ao caráter do verdadeiro espírita; há nele uma franqueza de atitudes que desafia toda suspeição, sobretudo quando corroborada pela prática dos princípios da doutrina. Que se levante bandeira contra bandeira, como procuram fazer nossos antagonistas: o futuro de cada um está subordinado à soma de consolações e satisfações morais que elas trazem. Um sistema não pode prevalecer sobre outro senão sob a condição de ser mais lógico, e só a opinião pública pode julgar com soberania. Em todo o caso, a violência, as injúrias e a acrimônia são maus antecedentes e uma recomendação ainda pior. Resta examinar as conseqüências desse estado de coisas. Tais intrigas podem, incontestavelmente, levar a algumas perturbações parciais, momentâneas, razão por que é preciso abortá-las tanto quanto possível. Contudo, não poderiam prejudicar o futuro: primeiramente, porque não terão tempo, desde que são manobras da oposição, que cairá pela força das coisas; em segundo lugar porque, digam o que disserem, jamais tirarão à doutrina seu caráter distintivo, sua filosofia racional e sua moral consoladora. Por mais que a torturem e deturpem, por mais que façam falar os Espíritos à sua vontade ou reúnam comunicações apócrifas para lançar contradições de permeio, não farão prevalecer um ensino isolado, ainda que verdadeiro ou imaginário, contra o que é dado por toda parte. O Espiritismo se distingue de todas as outras filosofias pelo fato de não ser o produto da concepção de um só homem, mas de um ensino que cada um pode receber em todos os pontos do globo, e tal é a consagração que recebeu O Livro dos Espíritos. Escrito sem equívocos possíveis e ao alcance de todas as inteligências, esse livro será sempre a expressão clara e exata da doutrina e a transmitirá intacta aos que vierem depois de nós. As cóleras que excita são indícios do papel que ele é chamado a representar, e da dificuldade de lhe opor algo de mais sério. O que fez o rápido sucesso da doutrina espírita são as consolações e as esperanças que dá. Todo sistema que, pela negação dos princípios fundamentais, tendesse a destruir a própria fonte dessas consolações, não poderia ser acolhido com simpatia. Não se deve perder de vista que estamos, como já o dissemos, em momento de transição, e que nenhuma transição se opera sem conflito. Não se admirem, pois, de ver agitarem-se as paixões em jogo, as ambições comprometedoras, as pretensões malogradas, e cada um tentar recuperar o que vê escapar, agarrando-se ao passado. Mas, pouco a pouco tudo isto se extingue, a febre se acalma, os homens passam e as idéias novas ficam. Espíritas, elevai-vos pelo pensamento, olhai vinte anos para a frente e o presente não vos inquietará.
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