Livros Espíritas
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Não hesitava em apedrejar os mais infelizes e cheguei, mesmo, a advertir o Cristo para fazê-lo! Como sabeis, fui dos que negaram o Senhor na hora extrema. Entretanto, depois que nos chegou o conhecimento pela ins piração celeste, não será justo olvidarmos o Cristo em qualquer iniciativa. Precisamos pensar que, se Saulo de Tarso procura valer -se de semelhantes expedientes para desferir novos golpes nos servidores do Evangelho, então ele é ainda mais desgraçado que antes, quando nos ator mentava abertamente. Sendo, pois, um necessitado, de qualquer modo não vejo razões para lhe recusarmos mãos fraternas. Percebendo que Tiago preparava -se para defender o parecer de Nicolau, Simão Pedro continuou, depois de ligeira pau sa: — Nosso irmão acaba de referir -se ao símbolo do lobo que surge no redil com a pele das ovelhas genero sas e humildes. Concordo com essa expressão de zelo. Também eu não pude acolher Saulo, quando hoje nos bateu à porta, atento à responsabilidade que me foi confiada. Nada quis decidir sem o vosso concurso, O Mestre nos ensinou que nenhuma obra útil se poderá fazer na Terra sem a cooperação fraternal. Mas, aproveitando o parecer enunciado, examinemos, com since ridade, o problema imprevisto. Em verdade, Jesus recomendou nos acautelássemos contra o fermento dos fariseus, esclarecendo que o discípulo deverá possuir con sigo a doçura das pombas e a prudência das serpentes. Convenhamos em que, de fato, Saulo de Tarso possa ser o lobo simbólico. Ainda aí, ap ós esse conhecimento hipotético, teríamos profunda questão a resolver. Se es tamos numa tarefa de paz e de amor, que fazer com o lobo, depois da necessária identificação? Matar? Sabe mos que isso não entra em nossa linha de conta. Não seria mais razoável r efletir nas possibilidades da domesticação? Conhecemos homens rudes que conseguem domi nar cães ferozes. Onde estaria, pois, o espírito que Jesus nos legou como sagrado patrimônio, se por temores mesquinhos deixássemos de praticar o bem? A palavra concisa do Apóstolo tivera efeito singular. O próprio Tiago parecia desapontado pelas anteriores re flexões. Em vão Nicolau procurou argumentos novos para formular outras objeções. Observando o pesado si lêncio que se fizera, Pedro sentenciou serenamente: — Desse modo, amigos, proponho convidarmos Barnabé para visitar pessoalmente o doutor de Tarso, em nome desta casa. Ele e Saulo não se conhecem, valorizando-se melhor semelhante oportunidade, porque, ao vê -lo, o moço tarsense nada terá que recordar do seu passado em Jerusalém. Se fosse visitado, pela primeira vez, por um de nós, talvez se perturbasse, julgando nossas palavras como de alguém que lhe fosse pedir contas. João aplaudiu a idéia calorosamente. Em face do bom -senso que as expressões de Pedro revelavam, T iago e Filipe mostravam -se satisfeitos e tranqüilos. Combinou-se a diligência de Barnabé para o dia seguinte. Aguardariam Saulo de Tarso com interesse. Se, de fato, sua conversão fosse real, tanto melhor. O diácono de Chipre destacava -se por sua grande bo ndade. Sua expressão carinhosa e humilde, seu espí rito conciliador, contribuíam, na igreja, para a solução pacífica de todos os assuntos. Com um sorriso generoso, Barnabé abraçou o ex -rabino, pela manhã, na pensão em que ele se hospedara. Nenhum traço da sua nova personalidade indiciava aquele perseguidor famoso, que fizera Simão Pedro decidir a convocação dos amigos para resolver o seu acolhimento. O ex -doutor da Lei era todo humildade e estava doente. Indisfarçável fadiga transparecia -lhe nos mínimos gestos. A fisionomia não iludia um grande sofrimento. Corres pondia às palavras afetuosas do visitante com um sor riso triste e acanhado. Via -selhe, entretanto, a satis fação que a visita lhe causava, O gesto espontâneo de Barnabé sensibilizava-o. A seu pedido, Saulo contou-lhe a viagem a Damasco e a gloriosa visão do Mestre, que constituía o marco inolvidável da sua vida, O ouvinte não dissimulou simpatias. Em poucas horas sentia-se tão identificado com o novo amigo, quais se fossem conhecidos de longos ano s. Após a conversação, Barnabé pretextou qualquer coisa para dirigir -se ao dono da hospedaria, a quem pagou as despesas da hospedagem. Em seguida, convidou -o a acompanhá-lo à igreja do “Caminho”. Saulo não deixou de hesitar, enquanto o outro insistia. — Receio — disse o moço tarsense um tanto in deciso —, pois já ofendi muito a Simão Pedro e demais companheiros. Só por acréscimo de misericórdia do Cristo consegui uma réstia de luz, para não perder totalmente meus dias. — Ora essa! — exclamou Barnabé, bate ndo-lhe no ombro com bonomia — quem não terá errado na vida? Se Jesus nos tem valido a todos, não é porque o mereçamos, mas pela necessidade de nossa condição de pe cadores. Em poucos minutos, encontravam -se a caminho, notando o emissário de Pedro o penoso estado de saúde do antigo rabino. Muito pálido e abatido, parecia caminhar com esforço; tremiam -lhe as mãos, sentia-se febril. Deixavase levar como alguém que conhecesse a necessidade de amparo. Sua humildade comovia o outro, que, a seu respeito, ouv ira tantas referências desairosas. Chegados a casa, Prócoro lhes abriu a porta, mas, desta vez, Saulo não ficaria a esperar indefinidamente. Barnabé tomou -lhe a mão, afetuoso, e dirigiram-se para o vasto salão, onde Pedro e Timon os esperavam. Sau daramse em nome de Jesus. O antigo perseguidor empalidecera mais. Por sua vez, ao vê-lo, Simão não ocultou um movimento de espanto ao notar -lhe a diferença física. Aqueles olhos encovados, a extrema fraqueza orgâ nica, falavam aos Apóstolos galileus de profundos sofrimentos. — Irmão Saulo — disse Pedro comovido —, Jesus quer que sejas bem vindo a esta casa. — Assim seja — respondeu o recém-chegado, de olhos úmidos. Timon abraçou-o com palavras afetuosas, em lugar de João que se ausentara ao amanhecer, a serviço d a confraria de Jope. Em breves momentos, vencendo o constrangimento do primeiro contacto com os amigos pessoais do Mestre, depois de tão longa ausência, o moço tarsense, atendendo-lhes ao pedido, relatava a jornada de Damasco com todos os pormenores do grande acontecimento, evidenciando singular emotividade nas lágrimas que lhe banhavam o rosto. Sensibilizara -se, sobremaneira, ao relembrar tamanhas graças. Pedro e Timon já não tinham dúvidas. A visão do ex-rabino tinha sido real. Ambos, em companhia de Ba rnabé, seguiram a descrição até ao fim, com olhos cheios de pranto. Efetivamente, o Mestre voltara, a fim de converter o grande perseguidor da sua doutrina. Requisitando Saulo de Tarso para o redil do seu amor, revelara, mais uma vez, a lição imortal do perdão e da misericórdia. Terminada a narrativa, o ex -doutor da Lei estava cansado e abatido. Instado a explanar suas novas espe ranças, seus projetos de trabalho espiritual, bem como o que pretendia fazer em Jerusalém, confessou -se desde logo profundamente reconhecido por tanto interesse afetuoso e falou com certa timidez: — Necessito entrar numa fase ativa de trabalho com que possa desfazer meu passado culposo. É ver dade que fiz todo o mal à igreja de Jesus, em Jerusalém; mas, se a misericórdia de Jesus di latar minha permanência no mundo, empregarei o tempo em estender esta casa de amor e paz a outros lugares da Terra. — Sim — replicou Simão ponderadamente —, certo que o Messias renovará tuas forças, de modo a poderes atender a tão nobre cometimento, na época oportuna. Saulo parecia confortar-se com a palavra de enco rajamento; deixando perceber que desejava consolidar a confiança dos ouvintes, arrancou das dobras da túnica rafada um rolo de pergaminhos e, apresentando -o ao expescador de Cafarnaum, disse s ensibilizado: — Aqui está uma relíquia da amizade de Gamaliel, que trago invariavelmente comigo. Pouco antes de morrer, ele deu-me a cópia das anotações de Levi, concer nentes à vida e feitos do Salvador. Tinha em grande conta estas notas, porque as recebeu desta casa, na primeira visita que lhe fez. Simão Pedro, evocando gratas recordações, tomou os pergaminhos com vivo interesse. Saulo verificava que o presente de Gamaliel tivera a finalidade prevista pelo generoso doador. Desde esse instante, os olhos do antigo pescador fixaram -se nele com mais confiança. Pedro falou da bondade do generoso rabino, informan do-se da sua vida em Palmira; dos seus últimos dias, do seu traspasse. O discípulo atendia satisfeito. Voltando ao assunto das suas novas persp ectivas, explicou-se mais amplamente, sempre humilde: — Tenho muitos planos de trabalho para o futuro, mas, sinto -me combalido e doente. O esforço da última viagem, sem recursos de qualquer natureza, agravou-me a saúde. Sinto-me febril, o corpo dolorido, a alma exausta. — Tens falta de dinheiro? — interrogou Simão bondosamente. — Sim... — respondeu hesitante. — Essas necessidades — esclareceu Pedro — já foram providas em parte. Não te preocupes em dema sia. Recomendei a Barnabé que pagasse as primeiras despesas da hospedaria e, quanto ao mais, convidamos -te a repousar conosco o tempo que quiseres. Esta casa é também tua. Usa de nossas possibilidades como te aprouver. O hóspede sensibilizou-se. Recordando o passado, sentia -se ferido no seu amor-próprio; mas, ao mesmo tempo, rogava a Jesus o auxiliasse para não desprezar as oportunidades de aprendizado. — Aceito... — respondeu em voz reticenciosa, re velando acanhamento —, ficarei convosco enquanto mi nha saúde necessitar de tratamento... E como se tivesse extrema dificuldade em acrescen tar um pedido ao favor que aceitava, depois de longa pausa em que se lhe notava o esforço para falar, solicitou comovedoramente: — Caso fosse possível, desejaria ocupar o mesmo leito em que Estevão foi recolhido, generosamente, nesta casa. Barnabé e Pedro ficaram altamente emocionados. Todos haviam combinado não fazer alusão ao pregador massacrado sob apupos e pedradas. Não queriam relembrar o passado perante o convertido de Damasco, ainda mesmo que sua atitude não fosse essenci almente sincera.
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