Livros Espíritas
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— Meu filho!... — disse com voz enérgica, pro curando dominar a emoção — será possível que os olhos me enganem? Saulo abraçou-o afetuosamente, dirigindo -se ambos para o interior. Isaac sentou-se e, buscando penetrar o íntimo do filho, com o olhar percuciente interrogou em tom de censura: — Será que estás mesmo curado? Para o rapaz, tal pergunta era mais um golpe des ferido na sua sensibilidade afetiva. Sentia-se cansado, derrotado, desiludido; necessitava de alento para reco meçar a existência num idealismo maior e até o pai o reprovava com perguntas absurdas! Ansioso de com preensão, retrucou de maneira comovedora: — Meu pai, por piedade, acolhei -me!... Não estive doente, mas sou agora necessitado pelo espírito! Sinto que não pod erei reiniciar minha carreira na vida sem algum repouso!... Estendei -me vossas mãos!... Conhecendo a austeridade paterna e a extensão das próprias necessidades naquela hora difícil do seu cami nho, o ex-doutor de Jerusalém huinilhou-se inteiramente, pondo na voz toda a fadiga que se lhe represava no coração. O ancião israelita contemplou -o firme, solene, e sen tenciou sem compaixão: — Não estiveste doente? Que significa então a tris te comédia de Damasco? Os filhos podem ser ingratos e conseguem esquecer, m as os pais, se nunca os retiram do pensamento, sabem sentir melhor a crueldade do seu proceder... Não te doeria ver -nos vencidos e huinilhados com a vergonha que lançaste sobre nossa casa? Ralada de desgostos, tua mãe encontrou lenitivo na morte; mas, eu? Acreditas-me insensível à tua deser ção? Se resisti, foi porque guardava a esperança de buscar Jeová, supondo que tudo não passasse de mal-entendido, que uma perturbação mental houvesse atirado contigo na incompreensão e nas críticas injustificáveis do mun do!... Criei-te com todo o desvelo que um pai, da nossa raça, costuma dedicar ao único filho varão... Sintetizavas gloriosas promessas para nossa estirpe. Sacrifiquei-me por ti, cumulei-te de afagos, não poupei esforços para que pudesses contar com os mes tres mais sábios, cuidei da tua mocidade, enchi -te com a ternura do coração e é desse modo que retribuis as dedicações e os carinhos do lar? Saulo podia enfrentar muitos homens armados, sem abdicar a coragem desassombrada que lhe assinalava as atitudes. Po dia verberar o procedimento condenável dos outros, ocupar a mais perigosa tribuna para o exame das hipocrisias humanas, mas, diante daquele velhinho que não mais podia renovar a fé, e considerando a am plitude dos seus sagrados sentimentos paternais, não reagiu e começou a chorar. — Choras? — continuou o ancião com grande se cura. — Mas eu nunca te dei exemplos de covardia! Lutei com heroismo nos dias mais difíceis, para que nada te faltasse. Tua fraqueza moral é filha do perjúrio, da traição. Tuas lágrimas vêm do remorso inelutável! Como enveredaste, assim, pelo caminho da mentira exe crável? Com que fim engendraste a cena de Damasco para repudiar os princípios que te alimentaram do berço? Como abandonar a situação brilhante do rabino de quem tanto esperávamos, para arvorar-se em companheiro de homens desclassificados, que nunca tiveram a tradição amorosa de um lar? Ante as acusações injustas, o moço tarsense solu çava, talvez pela primeira vez na vida. — Quando soube que ias desposar uma jovem sem pais conh ecidos — prosseguia o velho implacável —, surpreendi-me e esperei que te pronunciasses diretamente. Mas tarde, Dalila e o marido eram compelidos a deixar Jerusalém precipitadamente, ralados de vergonha com a ordem de prisão que a Sinagoga de Damasco requi sitava contra ti. Várias vezes conjeturei se não seria essa cria tura inferior, que elegeste, a causa de tamanhos desastres morais. Há mais de três anos levanto -me diariamente para refletir no teu criminoso proceder em detrimento dos mais sagrados deveres! Ao ouvir aqueles conceitos injustos à pessoa de Abigail, o rapaz cobrou ânimo e murmurou com hu mildade: — Meu pai, essa criatura era uma santa! Deus não a quis neste mundo! Talvez, se ela ainda vivesse, teria eu o cérebro mais equilibrado para harmonizar a minha nova vida. O pai não gostou da resposta, embora a objeção fosse feita em tom de obediência e carinho. — Nova vida? — glosou irritado — que queres com isso dizer? Saulo enxugou as lágrimas e respondeu resignado: — Quero dizer que o episódio de Dama sco não foi ilusão e que Jesus reformou minha vida. — Não poderias ver em tudo isso rematada lou cura? — continuou o pai com espanto. Impossível! como abandonar o amor da família, as tradições venerá veis do teu nome, as esperanças sagradas dos teus, para seguir um carpinteiro desconhecido? Saulo compreendeu o sofrimento moral do genitor quando assim se exprimia. Teve ímpetos de atirar -se-lhe nos braços amorosos; falar -lhe do Cristo, proporcionar-lhe entendimento real da situação. Mas, prevendo si multaneamente a dificuldade de se fazer compreendido, observava -o resignado, enquanto ele prosseguia de olhos úmidos, revelando a mágoa e a cólera que o dominavam. — Como pode ser isso? Se a doutrina malfadada do carpinteiro de Nazaré impõe criminosa indiferença pe los laços mais santos da vida, como negar -lhe nocividade e bastardia? Será justo preferir um aventureiro, que mor reu entre malfeitores, ao pai digno e trabalhador que envelheceu no serviço honesto de Deus? — Mas, pai — dizia o moço em voz súplice —, o Cristo é o Salvador prometido!... Isaac pareceu agravar a própria fúria. — Blasfemas? — gritou. — Não temes insultar a Providência Divina? As esperanças de Israel não pode riam repousar numa fronte que se esvaiu no sangue do castigo, entre ladrões!... Estás l ouco! Exijo a reconsideração de tuas atitudes. Enquanto fazia uma pausa, o convertido objetou: — É certo que meu passado está cheio de culpas quando não hesitei em perseguir as expressões da ver dade; mas, de três anos a esta parte, não me recordo de ato algum que necessite reconsideração. O ancião pareceu atingir o auge da cólera e excla mou áspero: — Sinto que as palavras generosas não quadram à tua razão perturbada. Vejo que tenho esperado em vão, para não morrer odiando alguém. Infelizmente, sou obrigado a reconhecer nas tuas atuais decisões um louco, ou um criminoso vulgar. Portanto, para que nossas atitudes se definam, peço -te que escolhas em definitivo, entre mim e o desprezível carpinteiro!. A voz paternal, ao enunciar semelhante intimativa, era aba fada, vacilante, evidenciando profundo sofrimento. Saulo compreendeu e, em vão, procurava um argumento conciliador. A incompreensão do pai angustiava -o. Nunca refletiu tanto e tão intensamente no ensino de Jesus sobre os laços de família. Sentia-se estreitamente ligado ao generoso velhinho, queria ampará -lo na sua rigidez intelectual, abrandar-lhe a feição tirânica, mas compreen dia as barreiras que se antepunham aos seus desejos sinceros. Sabia com que severidade fora formado o seu próprio caráter. Prejul gando a inutilidade dos apelos afe tivos, murmurou entre humilde e ansioso: — Meu pai, ambos precisamos de Jesus!... O velho, inflexível, endereçou -lhe um olhar austero e retrucou com aspereza: — Tua escolha está feita! Nada tens a fazer nesta casa!... O velhinho estava trêmulo. Via -se-lhe o esforço espiritual para tomar aquela decisão. Criado nas concepções intransigentes da Lei de Moisés, Isaac sofria como pai; entretanto, expulsava o filho depositário de tantas esperanças, como se cumprisse um dever. O coração amoroso sugeria-lhe piedade, mas o raciocínio do homem, encarcerado nos dogmas implacáveis da raça, abafava -lhe o impulso natural. Saulo contemplou-o em atitude silenciosa e supli cante. O lar era a derradeira esperança que ainda lhe restava. Não queria crer na última perda. Cravou no ancião os olhos quase lacrimosos e, depois de longo mi nuto de expectação, implorou num gesto comovedor que lhe não era habitual: — Falta-me tudo, meu pai. Estou cansado e doente! Não tenho dinheiro algum, necessito da piedade alheia. E acentuando a queixa dolorosa: — Também vós me expulsais?... Isaac sentiu que a rogativa lhe vibrava no mais íntimo do coração. Mas, julgando talvez que a energia era mais eficiente que a ternura, no caso, respondeu secamente: — Corrige as tuas impressões, porque ninguém te expulsou. Foste tu que votaste os amigos e os afetos mais puros ao supremo abandono!... Tens necessidades? Ë justo que peças ao carpinteiro as providências acertadas... Ele que fez tamanhos absurdos, terá poder bas tante para valer-te. Imensa dor represou-se no espírito do ex -rabino. As alusões ao Cristo doíam-lhe muito mais que as repri mendas diretas que recebera. Sem conseguir refrear a própria angústia, sentiu que lágrimas ardentes rola vam-lhe nas faces queimadas pelo sol’ do deserto. Nunca experimentara pranto assim amargo. Nem mesmo na cegueira angustiosa, conseqüente à visão de Jesus, cho rara tão penosamente. Não obstante esquecido numa pensão sem -nome, cego e acabrunhado, sentia a prote ção do Mestre que o conv ocara ao seu divino serviço. Guardava a impressão de estar mais perto do Cristo. Regozijava -se nas dores mais acerbas, pelo fato de haver recebido, às portas de Damasco, o seu apelo glorioso e direto. Mas, depois de tudo, procurava, em vão, apoio nos home ns para iniciar a sagrada tarefa. Os mais amigos recomendavam -lhe a distância. Por último, ali estava o pai, velho e abastado, a recusar -lhe a mão no instante mais doloroso da vida. Expulsava-o. Manifestava aversão por suas idéias regeneradoras. Não lhe tolerava a condição de amigo do Cristo. No pranto que lhe borbulhava dos olhos, recordou-se, porém, de Ananias. Quando todos o abandonavam em Damasco, surgira o mensageiro do Mestre, restituindo -lhe o bom ânimo. Seu pai falara-lhe, ironicamente, dos poderes do Senhor. Sim, Jesus não lhe faltaria com os recursos indispensáveis. Lançando ao genitor um olhar inolvidável, disse humil demente: — Então, adeus, meu pai!... Dizeis bem, porque estou certo de que o Messias não me abandonará!...
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