Livros Espíritas
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O rapaz, todavia, encontrou imediatamente os antídotos necessários, refugiando-se na “residência dos princípios nobres”, isto é, na região mais alta da personalidade, pelo hábito da oração, pelo entendimento fraterno, pela prática do bem e pela espiritualidade superior. Limitou, destarte, a desarmonia neuro-psíquica e reduziu a disfunção celular, reconquistando o próprio equilíbrio, dia a dia, mobilizando as armas da vontade. Nesse esforço, dentro do qual se fez extremamente simpático, recebeu vultosa colaboração de nossa Esfera, aproveitando-a integralmente pela adesão criteriosa ao esforço construtivo do bem. Recebendo a luta com serenidade e paciência, instalou em si mesmo valiosas qualidades receptivas, favorecendo-nos o concurso e dispensando, por isso mesmo, a terapêutica dos hipnóticos ou dos choques, a qual, provocando estados anormais no organismo perispirítico, quase sempre nada consegue senão deslocar os males, sem os combater nas origens. O caso de Marcelo oferece por isto características valiosas. Atendendo as sugestões daqueles que o beneficiam, adaptando-se à realidade, vem sendo o médico de si mesmo, única fórmula em que o enfermo encontrará a própria cura. Nesse instante, o rapaz despedia-se delicadamente dos pais, retirando-se para o quarto particular, onde se recolheu ao leito, após abluir a mente em pensamentos de paz e de gratidão a Deus. Dentro de breves minutos afastava-se do veículo denso e vinha ter conosco, saudando Calderaro com especial carinho. O Assistente apresentou-me, afável. Mostrava o jovem profunda lucidez. Abraçado a nós ambos, com inequívocas demonstrações de alegria, comentou suas esperanças no porvir. Expôs-nos ardente desejo de trabalhar pela difusão do Espiritismo evangélico, disposto a colaborar na obra edificante que os genitores vêm realizando. Referiu-se, para admiração minha, às atividades de nossa colônia espiritual, indagou das minhas impressões de “Nosso Lar”, seduzindo-me pela oportunidade de conceitos e pela beleza das apreciações inteligentes e espontâneas. Ia a conversa a meio, quando dois vultos sombrios cautelosamente se aproximaram de nós. Quem seriam, senão míseros transeuntes desencarnados? Inteiramente distraído, continuei nos comentários humildes, mas o estimado interlocutor perdeu visivelmente a calma. Qual se fora tocado no íntimo por forças perturbadoras, Marcelo empalideceu, levou a destra ao peito e arregalou os olhos desmesuradamente. Reparei que as ideias lhe baralhavam no cérebro perispiritual, que não conseguia ouvir-nos com tranquilidade, e, desprendendo-se, célere, de nossos braços, correu desabalado, retornando ao corpo. Quis detê-lo, penalizado, pois conosco estava perfeitamente sintonizado; algo mais forte que o conhecimento cordial unia-me ao novo amigo, o que reconheci desde o primeiro contato; não o pude, porém. Reteve-me Calderaro, com vigor, e exclamou: — Deixa-o, André. Acompanhemo-lo. Não podemos olvidar que Marcelo não se encontra perfeitamente curado. Indicando as entidades provocadoras, a pequena distância, prosseguiu esclarecendo: — A simples reaproximação dos inimigos de outra época altera-lhe as condições mentais. Receoso, aflito, teme o regresso à situação dolorosa em que se viu, há muitos anos, nas Esferas inferiores, e busca, apressado, o corpo físico, à maneira de alguém que se socorre do único refúgio de que dispõe, em face da tempestade iminente. Os Espíritos erradios bateram em retirada, e tornamos ao interior doméstico, onde encontramos o jovem tomado de contorções. Abracei-o, como se o fizesse a um filho querido. O ataque amainou, sem, contudo, cessar de todo. Ergui os olhos para o orientador, em muda interrogação. Por que tal distúrbio? A câmara de Marcelo permanecia isolada, quanto ao contato direto com as entidades inferiores. Permanecíamos os três em palestra edificante. Por que motivo a perturbação, se nos mantínhamos em salutar atmosfera de santificantes pensamentos? O instrutor contemplou-me, bondoso, e recomendou: — Observa o campo orgânico, examinando particularmente o cérebro. Notei que a luz habitual dos centros endócrinos empalidecera, persistindo somente a epífise a emitir raios anormais. No encéfalo o desequilíbrio era completo. Das zonas mais altas do cérebro partiam raios de luz mental, que, por assim dizer, bombardeavam a colmeia de células do córtex. Os vários centros motores, inclusive os da memória e da fala, jaziam desorganizados, inânimes. Esses raios anormais penetravam as camadas mais profundas do cerebelo, perturbando as vias do equilíbrio e destrambelhando a tensão muscular; determinavam estranhas transformações nos neurônios e imergiam no sistema nervoso cinzento, anulando a atividade das fibras. Via-se totalmente inibido o delicado aparelho encefálico. As zonas motoras, açoitadas pelas faíscas mentais, perdiam a ordem, a disciplina, o autodomínio, por fim cedendo, baldas de energia. Enquanto isso, Marcelo-Espírito contorcia-se de angústia, justaposto ao Marcelo-forma, encarcerado na inconsciência orgânica, presa de convulsões que me confrangiam a alma. Após detido exame, indaguei de Calderaro: — Como explicar essa ocorrência? Afinal de contas, nosso amigo não se encontra aqui sob o guante dos perseguidores desencarnados, mas em nossa exclusiva companhia. O orientador, agora em ação de socorro magnético, interferia, restaurando o equilíbrio, recomendando-me aguardar alguns minutos. Em breve, dominou a desarmonia. Envolvendo-lhe o campo mental em emissões fluídico-balsâmicas, o desastre não chegou a termo. Marcelo aquietou-se. Refez-se a atividade cerebral, qual praça em tumulto logo descongestionada. As células nervosas retomaram sua tarefa, normalizaram-se as vias do tráfego, o sistema endocrínico regressou à regularidade, as redes de estímulos restabeleceram os serviços costumeiros. Marcelo, desapontado e abatido, caiu em profundo sono, pois Calderaro entendeu conveniente proporcionar-lhe maior repouso, não lhe permitindo a retirada em corpo perispiritual nos primeiros minutos de paz que se sucederam à forte crise. Observando o rapaz, no conchego do leito, o instrutor fitou-me, benévolo, e perguntou: — Lembras-te dos reflexos condicionados de ? Como não? Recordava-me, sim, da famosa experiência com cães, aplicada a fenômenos outros. — Pois bem, — prosseguiu Calderaro, bondoso, — o caso de Marcelo verifica-se em consonância com os mesmos princípios. Em existências passadas, errou em múltiplos modos, e o remorso, imperiosa força a serviço da Divina Lei, guardou-lhe a consciência, qual sentinela vigilante, entregando-o aos seus inimigos nos Planos inferiores e conduzindo-o à colheita de espinhos que semeara, logo após a perda do vaso físico, num dos seus períodos mais intensos de queda espiritual. Em consequência de tais desvios, perambulou desequilibrado, de alma doente, exposto à dominação das antigas vítimas. Desarranjou os centros perispirituais, enfermando-os para muito tempo. Sustentado pelo socorro de um grande instrutor que intercedeu por ele, renasceu mais calmo, agora, para importante serviço de resgate. Todavia, a cooperação valiosa recebida do exterior não poderia transformar-lhe de modo visceral a situação íntima. Conservava-se desafogado dos impiedosos adversários, aos quais deveria ajudar doravante; contudo, o organismo perispirítico arquivava a lembrança fiel dos atritos experimentados fora do veículo denso. As zonas motoras de Marcelo, em razão disso, — salientou o atencioso orientador, — simbolizando a moradia das “forças conscientes”, em sua atualidade de trabalho, constituem uma “região perispiritual em convalescença”, quais as sensíveis cicatrizes do corpo físico. Ao se reaproximar de velhos desafetos, o rapaz, que ainda não consolidou o equilíbrio integral, sujeita-se aos violentos choques psíquicos, com o que as emoções se lhe desvairam, afastando-se da necessária harmonia. A mente desorientada abandona o leme da organização perispirítica e dos elementos fisiológicos, assume condições excêntricas, dispersa as energias, que lhe são peculiares, em movimentos desordenados; passam, então, essas energias a atritarem-se e a emitir radiações de baixa frequência, aproximadamente igual à da que lhe incidia do pensamento alucinado de suas vítimas. Essas emissões destruidoras invadem a matéria delicada do córtex encefálico, assenhoreiam-se dos centros corticais, perturbam as sedes da memória, da fala, da audição, da sensibilidade, da visão, e inúmeras outras sedes do governo de vários estímulos; temos, destarte, o “grande mal”, de sintomatologia aparatosa, determinando as convulsões, nas quais o corpo físico, prostrado, vencido, mais se assemelha a embarcação repentinamente à matroca. As elucidações de Calderaro enchiam-me de respeito pelos fundamentos morais da vida. Compreendia agora a impossibilidade de uma psiquiatria sem as noções do Espírito. Lembrou-me a luta secular entre fisiologistas e psicologistas, disputando a norma de socorro aos alienados mentais. e Charcot, () e desfilaram ante minha imaginação, enriquecida de novos conhecimentos. A interrupção das digressões do Assistente não durou muito. Devo, na verdade, consignar que, desde a primeira hora de nossas conversações, tais intermitências se fizeram habituais, parecendo-me que Calderaro intencionalmente me proporcionava tréguas para ruminar-lhe os conceitos. Respondendo-me às íntimas ponderações, continuou: — Impossível é pretender a cura dos loucos à força de processos exclusivamente objetivos.
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Referência ao livro “Nosso Lar”. — (Nota do autor espiritual.)
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