Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Tudo o que se refira à vestimenta vai perdendo, conseqüentemente, de importância. Persevera, contudo, a nossa realidade espiritual. Os antigos afirmavam que somos deuses. Na minha situação atual tenho a per feita impressão de que somos deuses projetados num turbilhão de pó. Apesar das chagas pustulentas que me segregaram das afeições mais queridas, penso, quero e amo. Na câmara escura do sofrimento, encontrei o Se nhor Jesus, para compreendê -lo melhor. Hoje creio que seu poder dominará as nações, porque é a força do amor triunfando da própria morte. A voz daquele homem marcado de feridas roxas, no seu grave entono, parecia o clarim da verdade saindo de um montão de pó. Pedro verificava, satisfeito, o progresso moral daquele mendigo anônimo, para avaliar íntimamente a força regeneradora do Evangelho. Gamaliel, por sua vez, aturdia -se com o profundo sentido daqueles conceitos. A pregação do Cristo, nos lábios de um doente desamparado, tinha um cunho de beleza misteriosa e singular. Samônio falara no tom de quem tivera experiências diretas de um encontro real com o profeta nazareno. Buscando afastar qualquer possibili dade de controvérsia religiosa, o generoso rabino sorriu e acrescentou: — Reconheço que falas com muita s abedoria. Se é incontestável que estou numa idade em que não seria útil alterar os princípios, não posso manifestar-me contrário às tuas suposições, pois estou bem de saúde, gozo o carinho dos meus e tenho vida tranqüila. Minha facul dade de julgar, portanto, tem de operar noutro rumo. Sim, é justo — retrucou Samônio, inspirado —, por enquanto não estais precisando de um salvador. Eis por que o Cristo afirmava que viera para os doentes e para os aflitos. Gamaliel compreendeu o alcance dessas palavra s que davam para meditar uma vida inteira. Sentiu os olhos úmidos. A observação de Samônio penetrara lhe fundo o coração sensível de homem justo. Percebendo, todavia, que necessitava de prudência para não confundir os sen timentos do povo, atento o cargo oficial que ocupava, esboçou um manso sorriso para o interlocutor, bateu-lhe levemente no ombro, e com acento de fraternal sinceridade acentuou: — Talvez tenhas razão. Estudarei o teu Cristo. E lembrando o pouco tempo de que dispunha, reco mendou o amigo a Simão, despedindo-se num abraço, para acompanhar o Apóstolo de Cafarnaum às últimas dependências. Antes de se retirar, o sábio rabino felicitou os com pànheiros de Jesus pela obra que realizavam na cidade, e, compreendendo a delicadeza de sua missão num ambiente por vezes tão hostil, aconselhou a Pedro não es quecer, na igreja do “Caminho”, todas as práticas exteriores do judaísmo. Seria justo, ao seu ver, que se cuidasse da circuncisão de todos os que lhe batessem à porta; que evitassem as viandas impuras ; que não olvidassem o Templo e seus princípios. Gamaliel sabia que os galileus não seriam isentos de perseguição, ainda mais tratando-se de uma organização iniciada por alguém que fora condenado à morte pelo Sinédrio. Com aqueles con selhos, visava aparar os golpes da violência, que, cedo ou tarde, haveriam de chegar. Pedro, João e Tiago agradeceram sensibilizados a carinhosa admoestação e o velho doutor regressou ao lar, fundamente impressionado com as lições do dia, levando consigo os apontamentos de M ateus, que se pôs a ler imediatamente. Mais dois dias decorreram e as perseguições capi taneadas por Saulo de Tarso começaram a sacudir Jeru salém em todos os setores de suas atividades religiosas. Oséias Marcos e Samuel Natan foram presos, sem nota de cul pa, a fim de responderem a rigoroso inqué rito. Os cooperadores do movimento organizaram longas nominatas dos israelitas mais destacados que freqüenta vam as reuniões da igreja do “Caminho”. O moço de Tarso determinara que se abrisse inquérito geral. Entretanto, como desejava dar uma demonstração de desas sombro aos adversários, julgou que deveria iniciar as prisões de maior importância, depois do encarceramen to de Oséias e Samuel, no reduto mesmo dos galileus obscuros, que haviam ousado afrontar a sua au toridade. Foi pela manhã de um dia muito claro, que o futuro rabino, cercado de alguns companheiros e soldados, bateu à porta da casa humilde, fazendo grande alarde dos fins de sua visita insidiosa. Simão Pedro em pessoa foi atendê-lo com grande serenidade nos olhos. Indisfarçável pavor estabeleceu -se entre os mais tímidos, porqüanto, dois jovens que acompanhavam o Apóstolo se incumbi ram de correr ao interior e espalhar a notícia. — És tu Simão Pedro, antigo pescador de Cafar naum? perguntou Saulo com certa insolência. — Eu mesmo — respondeu com firmeza. - Estás preso! — disse o chefe da expedição num gesto de triunfo. E mandando que dois dos companheiros se adiantassem, ordenou fosse o Apóstolo algemado in continenti. Pedro não opôs a mínima resistê ncia. Impressionado com o temperamento pacífico que os continuadores do Nazareno testemunhavam sempre, Saulo objetou com escárnio: — O Mestre do “Caminho” deve ter sido um alto modelo de inércia e covardia. Ainda não encontrei qual quer indício de dignidad e nos seus discípulos, cujas faculdades de reação parecem mortas. Recebendo em cheio tão acerba injúria, o ex -pescador respondeu serenamente: — Enganài-vos quando assim julgais. O discípulo do Evangelho é apenas inimigo do mal e, na sua tarefa coloca o am or acima de todos os princípios. Além do mais, nós consideramos que todo jugo, com Jesus, é suave. O jovem tarsense, detentor de tão alto poderio, não dissimulou o mal -estar que a resposta lhe causava e, apontando o continuador de Jesus, disse a um dos homens da escolta: - Jonas, toma conta dele. E, acentuando ironicamente as palavras, dirigiu -se aos demais com um gesto de desprezo para o Apóstolo algemado, que o contemplava sereno, embora surpreendido: Não discutamos. com este homem. Esta gente do “Caminho” está sempre cheia de raciocínios absur dos. É preciso não perder tempo com a cegueira da ignorância. Vamos até lá dentro, prendamos os chefes. Os sequazes do carpinteiro hão de ser perseguidos até ao fim. Resoluto, tomou a dianteira, penetrando ousadamente em busca dos apartamentos mais íntimos. De porta a porta, encontrava mendigos que o fitavam tomados de espanto e amargura. O quadro vivo de tanta miséria abrigada enchia-o de admiração; mas, esforça va-se por não perder a enfibratura implacável, de maneira a executar seus projetos nos menores detalhes. Ao lado da enfermaria de mais vastas proporções, en controu o filho de Zebedeu, que lhe ouviu a voz de prisão sem alterar a serenidade fisionômica. Sentindo as mãos grosseiras do soldado que lhe aplicava as algemas, João ergueu os olhos ao Alto e murmurou simplesmente: — Encomendo-me ao Cristo. O chefe da caravana olhou -o com profundo desprezo e exclamou altivamente para os companheiros: — Faltam dois dos mais suspeitos. Procuremo -los Referia-se a Filipe e Tiago, na qualidade de discí pulos diretos do Messias Nazareno. Mais alguns passos e o primeiro foi encontrado facilmente. Filipe deixou -se algemar sem um protesto. Suas filhas o rodearam aflitas e chorosas. — Coragem, filhas — disse ele sem temor —, acaso seríamos superiores a Jesus, que foi perseguido e cru cificado pelos homens? — Ouves, Clemente? — perguntou SauLo, irritado, a um dos amigos mais cotados. — Não se percebe outra coisa a não ser referências ao estranho Nazareno! O primeiro falou em jugo do Cristo, o segundo encomen dou-se ao Cristo, este alude à superioridade do Cristo... Aonde iremos? Após desabafar a cólera, em termos ásperos, rema tava com o estribilho constante: — Havemos de ir até ao fim. Seguros os três prisioneiros, faltav a o filho de Alfeu. Alguém se lembrou de procurá-lo no tosco biombo que ocupava. Com efeito, lá o acharam ajoelhado, tendo diante dos olhos um rolo de pergaminhos em que se en contrava a Lei de Moisés. Via-se-Lhe a palidez marmórea do rosto, quando Saulo s e aproximou ríspido: — Que é isso? Há aqui alguém que cuide da Lei? O irmão de Levi levantou os olhos transbordantes de sincero receio e explicou humilde: — Senhor, jamais esqueci a Lei de nossos pais. Meus avós ensinaram -me a receber de joelhos as luzes d o profeta santo. A atitude de Tiago não traduzia fingimento. Con sagrando o máximo respeito ao libertador de Israel, sem pre ouvira dizer que seus livros sagrados estavam tocados de virtude santa. Na expectativa do cárcere, atemoriza ra-se com o perigo iminente. Não pudera compreender, maiormente, como outros companheiros, o sentido divino e oculto das lições do Evangelho. O sacrifício inspirava-lhe indisfarçáveis temores. Afinal, pensava ele na compreensão parcial do Cristo: — quem ficaria para supe rintender as obras começadas? O Mestre expirara na cruz e, naquele instante, os Apóstolos de Jerusalém esta vam presos. Precisava defender-se com os meios possí veis, ao seu alcance. Imaginou recorrer às virtudes sobre naturais da Lei de Moisés, de acordo com as velhas crenças. Genuflexo, esperara os verdugos que se apro ximavam. Em face da atitude imprevista de Tiago, Saulo de Tarso estava atônito. Só os espíritos profundamente aferrados ao judaísmo liam, de joelhos, os ensinamentos de Moisés. Em sã consciência, não poderia ordenar a prisão daquele homem, O argumento que justificava sua tarefa, perante as autoridades políticas e religiosas de Jerusalém, era o combate aos inimigos das tradições. — Mas não sois amigo do carpinteiro? Com invejável presença de espíri to o interpelado respondeu: — Não me consta que a Lei nos impeça de ter amigos. Saulo perturbou-se, mas prosseguiu: — Mas, que escolheis? A Lei ou o Evangelho? Qual dos dois aceitais em primeiro lugar? — A Lei é a primeira revelação divina — disse Tiago com inteligência. Ante a resposta que o desconcertava, de alguma sorte, o moço de Tarso refletiu um momento e acres centou, dirigindo-se, aos circunstantes: — Está bem. Este homem fica em paz.
Mais opções
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×