Livros Espíritas
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Se o Espiritismo negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e da sua imortalidade, das penas e recompensas futuras, do livre-arbítrio do homem, se ele ensinasse que, aqui na Terra, cada um deve viver para si e pensar somente em si, ele seria não somente contrário à religião católica, mas a todas as religiões do mundo; seria a negação de todas as leis morais, que são a base das sociedades humanas. Os espíritos, longe disso, proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado ou punido segundo o bem ou o mal que tenha feito; colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e esta regra sublime ensinada pelo Cristo: Fazer aos outros como gostaríamos que fizessem conosco. Não são esses os fundamentos da religião? Eles fazem mais: eles nos iniciam nos mistérios da vida futura, que para nós não é mais uma abstração, mas uma realidade visto que são aqueles mesmos que nós havíamos conhecido que nos vêm descrever sua atual situação, dizer como e por que sofrem ou são felizes. O que há nisso de anti-religioso? Essa certeza no futuro, de se reencontrar aqueles a quem se amou, não é uma consolação? Essa grandiosidade da vida espiritual, que é nossa essência, comparada às mesquinhas preocupações da vida terrestre, não é própria a elevar nossa alma e a nos encorajar para o bem? O padre: — Eu admito que, nas questões gerais, o Espiritismo está de acordo com as grandes verdades do Cristianismo; mas, sob o ponto de vista dos dogmas, ocorre o mesmo? Ele não contradiz certos princípios que a Igreja nos ensina? A. K.: — O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, e não se ocupa com questões dogmáticas. Essa ciência tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas; serão, essas conseqüências, boas ou más? Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de lembrar. Algumas pessoas se enganam quanto ao verdadeiro caráter do Espiritismo. A questão é muito séria e merece alguns esclarecimentos. Inicialmente façamos uma comparação: estando a eletricidade na natureza, ela sempre existiu, e sempre produziu os efeitos que nós conhecemos e muitos outros que ainda não são do nosso conhecimento. Os homens, desconhecendo a verdadeira causa, explicaram esses efeitos de uma maneira mais ou menos bizarra. A descoberta da eletricidade e de suas propriedades veio destruir uma série de teorias absurdas, esclarecendo vários mistérios da natureza. O que a eletricidade e as ciências físicas em geral fizeram com certos fenômenos, o Espiritismo fez com fenômenos de outra ordem. O Espiritismo está fundamentado na existência de um mundo invisível, formado por seres incorpóreos que povoam o espaço, e que não são outros senão as almas daqueles que viveram sobre a Terra ou em outros globos onde deixaram seus envoltórios materiais. São os seres aos quais damos o nome de espíritos. Eles estão à nossa volta, incessantemente, e exercem sobre os homens, e sem que eles o saibam, uma grande influência; eles desempenham um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo, portanto, está na Natureza, e pode-se dizer que, dentro de uma certa ordem de idéias, ele é uma potência, como a eletricidade o é em um outro ponto de vista, e a gravitação, em um outro. Os fenômenos cuja fonte é o mundo invisível se produziram em todos os tempos, eis por que a história de todos os povos faz menção a eles. Somente no seu desconhecimento, como ocorreu em relação à eletricidade, os homens atribuíram esses fenômenos a causas mais ou menos racionais, e deram, sob esse aspecto, livre curso à sua imaginação. O Espiritismo, melhor observado depois que se propagou, veio trazer esclarecimento para um grande número de questões até aqui insolúveis ou mal compreendidas. O seu verdadeiro caráter, portanto, é o de uma ciência e não o de uma religião, e a prova do que afirmamos é que ele conta, entre seus adeptos, com homens de todas as crenças, que não renunciaram às suas convicções por isso: são católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando não são repelidos pela Igreja, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos, e até budistas e bramanistas. Portanto, o Espiritismo está estabelecido sobre princípios independentes de qualquer questão dogmática. Suas conseqüências morais são no sentido do Cristianismo, porque o Cristianismo é a mais esclarecida e a mais pura de todas as doutrinas, e é por essa razão que, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos a compreender o Espiritismo na sua verdadeira essência. Pode-se censurá-lo por isso? Cada um pode, sem dúvida, fazer uma religião de suas opiniões, interpretar, à sua maneira, as religiões conhecidas, mas daí até a constituição de uma nova Igreja, a distância é muito grande. O padre: — Entretanto, o senhor não faz as evocações de acordo com uma fórmula religiosa? A. K.: — Certamente nos sentimos invadidos por um sentimento religioso nas evocações e nas reuniões, mas não temos fórmula sacramental alguma; para os espíritos, o pensamento é tudo e a forma é nada. Nós os chamamos em nome de Deus, porque acreditamos em Deus, e sabemos que sem a sua permissão nada se faz neste mundo, e que se Deus não permitir que venham eles não virão. Nós procedemos em nossos trabalhos com calma e recolhimento, porque é uma condição necessária para as observações, e também porque conhecemos o respeito que se deve àqueles que não vivem mais sobre a Terra, qualquer que seja a sua condição no mundo dos espíritos, feliz ou infeliz. Nós fazemos um apelo aos bons espíritos porque, sabendo que há bons e maus espíritos, não queremos que estes últimos venham se misturar fraudulentamente às comunicações que recebemos. O que é que tudo isso prova? Que não somos ateus, o que não implica, de forma alguma, que sejamos religiosos. O padre: — Muito bem! Que dizem os espíritos superiores sobre a religião? Os bons devem nos aconselhar, nos guiar. Vamos supor que eu não tenha nenhuma religião e queira escolher uma. Se eu lhes pedir que me aconselhem para que eu seja católico,(48) protestante,(49) anglicano,(50) quacre,(51) judeu,(52) maometano(53) ou mórmon,(54) o que eles responderão? A. K.: — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais, comuns a todas, e os princípios particulares a cada uma. Os primeiros são aqueles de que falamos há pouco, eles são proclamados por todos os espíritos, qualquer que seja a classe deles. Quanto aos segundos, os espíritos vulgares, sem serem maus, podem ter preferências, opiniões; podem preconizar esta ou aquela forma. Podem encorajar certas práticas, seja por convicção pessoal, seja porque conservaram as idéias da vida terrena, seja por prudência, para não amedrontar as consciências tímidas. O senhor acredita, por exemplo, que um espírito esclarecido, mesmo que fosse Fénelon, dirigindo-se a um muçulmano, iria desastradamente dizer-lhe que Maomé(55) é um impostor, e que ele será condenado se não se tornar cristão? É claro que ele não agirá assim, porque seria repelido. Os espíritos superiores geralmente, e quando não são solicitados a isso por alguma consideração especial, não se preocupam com questões de detalhes, eles se limitam a dizer: “Deus é bom e justo, ele só quer o bem”. A melhor de todas as religiões é, pois, aquela que ensina o que está de acordo com a bondade e a justiça de Deus; que dá a maior e a mais sublime idéia de Deus e não o rebaixa, emprestando-lhe as fraquezas e as paixões da humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e os ensina a se amarem todos como irmãos; que condena todo o mal feito ao próximo; que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que não prescreve nada de contrário às leis imutáveis da Natureza, visto que Deus não pode se contradizer; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, de caridade e de moralidade; aquela que melhor procura combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens; aquela enfim em nome da qual se comete menos mal, porque uma boa religião não pode ser o pretexto de um mal qualquer; ela não deve lhe deixar nenhuma porta aberta, nem diretamente nem pela interpretação. Veja, julgue e escolha. O padre: — Eu suponho que certos pontos da Doutrina Católica sejam contestados pelos espíritos que o senhor considera como superiores; supondo-se que esses pontos estejam mesmo errados, aquelas pessoas para quem eles são, com ou sem razão, artigos de fé e que, conseqüentemente, praticam essa crença, poderão, segundo esses mesmos espíritos, ter a sua salvação prejudicada por causa dessa crença? A. K.: — Certamente não, se essa crença não as impedir de praticar o bem, se ela, ao contrário, induzi-las a essa prática; enquanto que a mais bem fundada crença evidentemente prejudicará essas pessoas se lhes der a oportunidade de fazerem o mal, de faltarem com a caridade para o seu próximo, de torná-las duras e egoístas, porque então elas não estarão agindo segundo a lei de Deus, e Deus vê os pensamentos antes dos atos. Quem ousaria sustentar o contrário? O senhor pensa, por exemplo, que a fé de um homem que crê inteiramente em Deus, e que, em nome de Deus, cometa atos desumanos ou contrários à caridade, pode ser proveitosa para ele? Não é ele mais culpado quando tem mais meios de ser esclarecido? O padre: — Portanto, o católico fervoroso que cumpre escrupulosamente os deveres do seu culto não é censurado pelos espíritos? A. K.: — Não, se é para ele uma questão de consciência, se ele o faz com sinceridade; sim, mil vezes sim, se é por hipocrisia, se só tem dentro dele uma piedade aparente.
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(48) Católico: que pertence ao Catolicismo, religião dos cristãos que reconhecem o Papa (sucessor de São Pedro na chefia na Igreja Católica) como autoridade máxima, que se confirma e expande por meio dos sacramentos; que venera a Virgem Maria e os santos; que aceita os dogmas como verdades incontestáveis e fundamentais, e que tem como ato litúrgico mais importante a missa. (N.T.)
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(49) Protestante: partidário do Protestantismo ou da Reforma religiosa. Ao conjunto das doutrinas e das seitas religiosas provenientes dessa Reforma, formadas nessa ocasião pelos católicos que se separaram da Igreja romana protestando em nome do Evangelho e da razão, dá-se o nome de Protestantismo. Ele é a religião dos Calvinistas, Luteranos e Anglicanos. (N.T.)
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(50) Anglicano: adepto do Anglicanismo, a religião oficial da Inglaterra desde Henrique VIII (1491-1547), que cortou relações com o papa Clemente VII, por este lhe recusar a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, resolvendo colocar-se, ele próprio, à frente da Igreja Inglesa. O Anglicanismo conserva pontos de semelhança com o Catolicismo entre eles a hierarquia e o dogma. (N.T.)
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(51) Quacre ou quaker: membro de uma seita religiosa, fundada no século XVII, na Inglaterra e difundida principalmente na Escócia e nos Estados Unidos da América. Os quacres, também chamados tremedores, reúnem-se em salas sem nenhum ornato e, em recolhimento, esperam a vinda do Espírito Santo. Os quacres não admitem sacramentos, não prestam juramento em justiça, recusam-se ao serviço militar, pois consideram a guerra um fratricídio, tratam todos por tu, não reconhecem qualquer hierarquia eclesiástica. Os seguidores desta seita; que é um desvio do Puritanismo, se distinguem, em geral, por grande pureza moral e por sincera filantropia (N.T.)
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(52) Judeu: aquele que pratica a religião judaica, o Judaísmo, conjunto das instituições que o povo judeu recebeu de Deus, por intermédio de Moisés, no alto do Monte Sinai. O dogma da unidade de Deus, que é invisível, incorpóreo, eterno, todo poderoso, presente em todos os lugares, infinitamente justo e criador do céu e da terra, é a base da fé dos judeus. (N.T.)
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(53) Maometano: aquele que professa o Maometismo, ou Islamismo, o mesmo que muçulmano. Ver rodapé no 55 (N.T.)
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(54) Mórmon: Sectário do Mormonismo ou Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Seita fundada em 1827, por Joseph Smith, que publicou, com o nome de Livro de Mórmon, atribuído a um profeta judeu com este nome, uma pretensa narrativa divina que atribuía aos índios da América uma origem judaica. A doutrina dos mórmons é uma estranha mistura de elementos búdicos, gnósticos, maometanos e cristãos. Um decreto da justiça americana, publicado em 1887, proibiu a poligamia até então praticada pelos mórmons. (N.T.)
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(55) Maomé: fundador do Islamismo, (Meca, 570 - Medina, 632). Após ter passado 15 anos meditando sobre uma reforma religiosa e social da nação árabe, baseada no monoteísmo e na sujeição à vontade divina, Maomé converteu numerosos discípulos, mas também fez muitos adversários, sendo obrigado a fugir para Medina em 622. Essa fuga deu início a era maometana, ou muçulmana, ou islâmica, designada sob o nome de hégira. Surgindo uma guerra com a população de Meca, Maomé tomou a cidade em 630; desde então, multiplicaram-se as submissões e as conversões e a Arábia foi conquistada para o Islamismo. (N.T.)
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