Livros Espíritas
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É impressionante a elevada participação de transviados “religiosos” no trágico e doloroso desfile de Espíritos em lamentável desequilíbrio, nas sessões de desobsessão. Multidões de ex- prelados debatem-se, no mundo póstumo, em angústias e rancores inomináveis, que se arrastam, às vezes, pelos séculos. Apresentam-se, quase sempre, como zelosos trabalhadores do Cristo, empenhados na defesa da “sua” Igreja. São argutos, inteligentes, agressivos, violentos, orgulhosos, impiedosos e arrogantes. Parece terem frequentado a mesma escola no Além, pois costumam trazer os mesmos argumentos, a mesma teologia deformada, com a qual justificam seus impulsos e sua tática. Têm os seus temas prediletos, como a cena da expulsão dos vendilhões do templo, que invocam como exemplo de que a violência é, às vezes, necessária e justificável, esquecendo-se, deliberadamente, das motivações daquele gesto: a vergonhosa comercialização das coisas sagradas e a indústria do sacrifício de pobres animais inocentes. O gesto não é gratuito, nem fica sem explicações. — Ao mesmo tempo — escreve Mateus (21:13) — os instruía, dizendo: Não está escrito: “Minha casa será chamada casa de oração, por todas as nações? Entretanto, fizestes dela um covil de ladrões!” A esse comércio vil, estavam associados os próprios sacerdotes. Muitos daqueles cambistas e negociantes não passavam de meros “testas-de-ferro” dos donos da verdade... e do dinheiro. Emmanuel informa, em PAULO E ESTÊVÃO, que Zacarias, o protetor de Abigail, conseguiu, mediante influência de certo Alexandre, parente próximo de Anás, “incluir-se entre os negociantes privilegiados, que podiam vender animais para os sacrifícios do Templo”. Os “religiosos” desorientados invocam também outras passagens, bem escolhidas aos seus propósitos, como aquela em que o Cristo declara que não veio trazer a paz, mas a espada. (Mateus, 10:34) Kardec tratou dessas questões no capítulo 23 de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ao qual deu o título de “Estranha moral”. Ainda comentaremos tais problemas, quando cuidarmos especificamente das técnicas e recursos sugeridos para o trabalho de desobsessão. O grande problema desses queridos companheiros desarvorados é o poder. Quase sempre exerceram, nas organizações religiosas a que se filiaram, vida após vida, posições de mando e destaque. Estão acostumados a dominar os outros, não a si mesmos, pois tudo se permitem, desde que os objetivos que escolheram sejam alcançados. Constituem equipes imensas, que se revezam na carne e no mundo espiritual, mantendo estreito intercâmbio, porque também se revezam no poder, aqui e lá, e, por isso, suas organizações sinistras e implacáveis parecem eternizar-se no comando de vastas massas humanas, encarnadas e desencarnadas. O intercâmbio, à noite, quando se acham parcialmente libertos os encarnados, é intenso. Realizam-se reuniões, para debate, estudo e planejamento. André Luiz nos dá uma pequena amostra dessa atividade em LIBERTAÇÃO, no capítulo “Observações e novidades”. — “Não mediste, ainda — diz Gúbio, o instrutor —, a extensão do intercâmbio entre encarnados e desencarnados. A determinadas horas da noite, três quartas partes da população de cada um dos hemisférios da Crosta Terrestre se acham nas zonas de contacto conosco e a maior percentagem desses semilibertos do corpo, pela influência natural do sono, permanecem detidos nos círculos de baixa vibração qual este em que nos movimentamos provisoriamente8. Por aqui, muitas vezes se forjam dolorosos dramas que se desenrolam nos campos da carne. Grandes crimes têm nestes sítios as respectivas nascentes e, não fosse o trabalho ativo e constante dos Espíritos protetores que se desvelam pelos homens no labor sacrificial da caridade oculta e da educação perseverante, sob a égide do Cristo, acontecimentos mais trágicos estarreceriam as criaturas.” Prestaram bem atenção? Três quartos da população encarnada na Terra, ou seja, três pessoas em cada quatro, isto é, 75 por cento! André não fala especificamente de reuniões promovidas por religiosos, mas estas são ativas, frequentes e tenebrosas. Comparecem, investidos de enorme autoridade, aqueles que a conquistaram pela ardilosa sagacidade, pela prepotência e total desinteresse pelos aspectos éticos das questões envolvidas. Ai daquele que se intromete em seus afazeres e tenta impedir a realização de seus planos criminosos! Precisa estar muito bem preparado, vigilante, guardado na prece e assistido por Espíritos do mais elevado teor vibratório. Ao longo de muitos séculos de intriga política, e do exercício da opressão e da intimidação, esses pobres “ministros de Deus” desenvolveram apurada técnica de trituração. Dispõem de recursos extremos e não hesitam em empregá-los, desde que atinjam seus fins. Conservam, no mundo espiritual, seus paramentos, suas jóias e todos os símbolos de suas posições. Vivem em “construções” suntuosas e soturnas, sentam-se em “tronos”, cercam-se de áulicos prontos a executar-lhes o menor desejo. Celebram suas missas pregam sermões, mantendo um ritual pomposo e meramente exterior, tal como faziam aqui na Terra. Uma jovem desencarnada, de quem cuidamos certa vez, nos contou, com penosa ingenuidade, que vivia alegremente, na irresponsabilidade da sua inconsciência. Ligara-se a um ser encarnado, a quem estávamos interessados em ajudar, aliás, sem que ele o soubesse. Comparecia uma vez por semana à presença do nosso amigo encarnado e o induzia aos desatinos dos sentidos desgovernados, participando, certamente, dessas orgias. Era “remunerada” com “roupas” luxuosas e bonitas e, evidentemente, gostava da sua tarefa. Totalmente teleguiada, era simples instrumento sob o poder implacável de seus senhores. Agindo sob hipnose, atuava precisamente naquilo que constituía o principal problema do companheiro encarnado: sexo. Encontrava-se muito bem preparada pelos seus instrutores. Quando eu lhe disse que era mero instrumento em mãos alheias, ela respondeu que não, pois gozava de inteira liberdade. Não é maldosa, é irresponsável e perturbada. Conta que “ainda ontem, na missa, Monsenhor falou que era preciso evitar o aguilhão”. Sabem, assim, que se saírem dali, por fuga ou fraqueza, encontrarão o espectro temido da dor, as lágrimas, o desespero. Enquanto estão ali, têm diversões, prazeres, vestidos bonitos e até mesmo os “tranquilizantes” psicológicos para a consciência atormentada, porque ex-sacerdotes fanatizados e duros ministram-lhes “sacramentos”, levam-nas às missas que celebram e absolvem- nas dos pecados que porventura tenham cometido. É, sem dúvida, um plano maquiavélico, com o qual ex-“ministros de Deus” conseguem manipular, à vontade, pobres inocentes úteis que lhes caem sob o poder. A despeito de seus desvairamentos, sinto-a interiormente ingênua, quase pura. Poderia ser minha filha, digo-lhe, e ela responde que, se eu fosse seu pai, ela não teria coragem de vir me ver. Aproveito o ensejo para dizer-lhe que, nesse caso, não anda fazendo boas coisas, como 8 A organização visitada, enorme cidade das trevas, era dirigida por um ex-papa, cuja libertação é o tema central do livro. alega, o que parece impressioná-la. Nesse ponto, ela me confessa que veio escondida. “Eles” não podem saber... — Portanto — digo-lhe eu — você não tem liberdade, como disse... Mais um argumento que ela intimamente reconhece legítimo. Mas, prossegue, tagarelando inconsequentemente, para dizer que “quando eu vou lá, todas se escondem”. Por fim, faço uma prece e ela se sente perdida, sem saber o que fazer. Vê uma jovem serena e bela que a chama, mas ela teme e hesita; acaba cedendo e parte com ela. Na sessão seguinte compareceu um sacerdote. Tinha forte sotaque alemão e era o “guia espiritual” do nosso companheiro encarnado, então sob tratamento em nosso grupo. Viera em busca da filha que desaparecera, precisamente a moça da semana anterior. Pobre irmão desgovernado! Ignorava que ela estava sendo vergonhosamente explorada pela mesma “organização” a que ele servia! Dizia Paulo que tudo nos é lícito, mas nem tudo nos convém; para estes irmãos religiosos transviados, tudo convém, seja lícito ou não, desde que os ajude a alcançar seus objetivos. E assim, misturam os conceitos de uma deformada teologia com os ritos da magia negra e com as técnicas da hipnose e da magnetização, realizando verdadeiras lavagens cerebrais, provocando pavorosas desfigurações perispirituais, desencadeando processos obsessivos penosíssimos. Uma das infelizes criaturas a que atendemos certa vez, nos contou a seguinte história: numa existência anterior, fora traída por uma mulher. Localizando esta agora, em outra vida — não ficamos sabendo se casada com o seu antigo marido —, atormentava-a livremente, com rancor e consciência tranquila, porque um sacerdote, seu amigo, a perdoava e a estimulava a prosseguir na sua deplorável tarefa. Há, também, entre eles, os ex-inquisidores. Ainda rancorosos, mais fanáticos do que nunca, mantêm os mesmos processos de tortura e de encarceramento, em medonhas masmorras infectas. Quantos companheiros não socorremos, apavorados, roídos pelos ratos, enceguecidos pelas trevas, ainda sentindo as sensações de estrangulamento, carregando correntes imaginárias, com os olhos ou a língua arrancados, mortos a fome, tuberculosos, desmembrados, alienados, atoleimados, muitos sem condições sequer de chorar...
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