Livros Espíritas
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Depois de muitas providências de nossa parte, conseguimos voltasse ele à nossa companhia e o valorosu velhinho, cujo único arrimo era a minha dedicação filial, na sua senectude e viuvez, expirou em nossos braços no dia imedia to ao livramento por nós ansiosamente esperado. Quando nos reveio parecia um fantasma. Guar das caridosos trouxeram-no quase agonizante. Ainda lhe pude ver os ossos quebrados, as feridas abertas, a epi derme lanhada de açoites. Em palavras titubeantes, descreveu as cenas lamentáveis do cárcere. O próprio Jochaí, rodeado de sequazes, foi o autor dos últimos suplícios. Não podendo resistir aos sofrimentos, entregou a alma a Deus! Áquila estava profundamente comovido. Furtiva lá grima viera associar-se às penosas recordações. — E a autoridade do movimento? — perguntou Saulo emocionado ao extremo — estaria alheia a esse crime? — Creio que sim. A crueldade foi demasiada para que se lhe atribuísse tão só a punição por motivos re ligiosos. — Mas não te valeste de alguma petição de justiça? — Quem se atreveria a fazê -lo? — perguntou o empregado de Ezequias com admiração. — Tenho amigos que chegaram a recorrer, mas pagaram com castigos mais violentos o desejo de justiça. O ex-rabino compreendeu a justeza dos concei tos. Somente agora tinha bastante largueza de vistas espi rituais para avaliar a velha cegueira que lhe negrejara a alma. Áquila tinha razão. Muitas vezes fora surdo às rogativas mais comovedoras. Invariavelmente, man tinha as decisões mais absurdas dos se us prepostos inconscientes. Recordava -se do próprio Jochaí, que lhe parecia tão prestimoso nos dias de ignorância. — E que pensas de Saulo? — perguntou bruscamente. Longe de saber com quem permutava as idéias mais íntimas, Áquila respondeu sem titubear: — O Evangelho manda considerá -lo irmão extremamente necessitado da luz de Jesus-Cristo. Nunca o vi, mas, temendo as iniqüidades praticadas em Jerusalém, aqui vim parar em fuga precipitada, e tenho orado a Deus por ele, esperando que um raio do céu o escla reça, não tanto por mim, que nada valho, mas por causa de Pedro, que considero um segundo pai muito querido. Acredito que se operariam maravilhas se a igreja do “Caminho” pudesse trabalhar livremente. Julgo que os Apóstolos galileus são dignos de um campo sem espinhos para a sementeira de Jesus. Dirigindo-se à esposa, enquanto o moço de Tarso silenciava, o tecelão exclamava com interesse: — Lembras-te, Prisca, como se exorava pelo per seguidor nas preces íntimas da igreja? Muitas vezes, para esclarecer noss o espírito fraco no perdão, Pedro nos ensinava a considerar o implacável rabino como a um irmão que as violências obscureciam. Para que nos sos ressentimentos mais vivos se desfizessem, historiava o seu passado, dizendo que, também ele, por ignorância, che gara a negar o Mestre, mais de uma vez. Salientava nossas fraquezas humanas, induzia-nos a melhor compreensão. Certo dia chegou a declarar que toda a perseguição de Saulo era útil, porque nos levava a pensar em nossas próprias misérias, a fim de estarmos vigilantes nas responsabilidades com Jesus. O ex-discípulo de Gamaliel tinha os olhos úmidos. — Sem dúvida, o famoso pescador de Cafarnaum é um dos grandes irmãos dos infelizes — murmurou convictamente. A palestra desviou-se para outros comentários, de pois da intervenção de Prisca nas derradeiras notas do assunto, revelando conhecer muitas mulheres de Jerusalém, que, tendo marido e filhos encarcerados, pediam sinceramente a Jesus pela iluminação do célebre perse guidor do “Caminho”. Em seguida, falaram do Evangelho. O manto de estrelas cobriu suas grandiosas esperanças, enquanto Saulo bebia a longos haustos a água pura da amizade sincera, naquele novo mundo tão re duzido. Nessas palestras carinhosas e fraternais, os dias se foram passando rápidos. De quando em quando, chega vam de Palmira reforços de abastecimentos e outros re cursos. Os três habitantes do oásis silencioso entrelaçavam aspirações e pensamentos em torno do Evangelho de Jesus, o único livro de suas meditações naquelas para gens tão remotas. O ex-rabino modificara o próprio aspecto, ao con tacto direto das forças agressivas da Natureza. A epi derme queimada pelo sol dava a impressão de um homem acostumado à inclemência do deserto. A barba crescida transformara-lhe o semblante. As mãos afeit as ao trato dos livros tornaram -se calosas e rudes. Entretanto, a solidão, as disciplinas austeras, o tear laborioso, lhe haviam enriquecido a alma de luz e serenidade. Os olhos calmos e profundos atestavam os novos valores do espí rito. Entendera, finalmente, aquela paz desconhecida que Jesus desejara aos discípulos; sabia, agora, interpretar a dedicação de Pedro, a tranqüilidade de Estevão no Instante da morte ignominiosa, o fervor de Abigail, as virtudes morais dos freqüentadores do “Caminho”, que perseg uira em Jerusalém. A auto -educação, na ausência dos recursos da época, ensinara -lhe à alma ansiosa o segredo sublime de se entregar ao Cristo, para repousar em seus braços misericordiosos e invisíveis. Desde que se consagrara ao Mestre, de alma e coração, os remorsos, as dores, as dificuldades como que se afastaram do seu espírito. Recebia todo trabalho como um bem, toda ne cessidade como elemento de ensino. Sem esforço, afeiçoou-se a Áquila e sua mulher, como se houvessem nascido juntos. Certa vez, o comp anheiro adoeceu e es teve à morte, prostrado por violenta febre. A situação dolorosa, a multiplicação das tempestades de areia, abateram igualmente o ânimo de Prisca, que se recolheu ao leito com poucas esperanças de vida. Saulo, porém, mos trou-se de uma coragem e desvelo inauditos. Tomado de sincera confiança em Deus, esperou a restauração da calma e da alegria. Jubiloso, viu o regresso de Áquila ao tear e a volta da companheira aos labores domésticos, cheios de novas expressões de paz e confiança. Quando mais de um ano havia corrido sobre aquela soledade, uma caravana vinda de Palmira trazia -lhe um bilhete lacônico. O negociante comunicava-lhe a morte súbita do irmão, aliás de há muito esperada. A partida de Gamaliel para os reinos da morte não deixou de ser uma dolorosa surpresa. O velho mestre, depois do pai, foi o maior amigo que encontrou na vida. Meditou seus últimos conselhos, ponderou -lhe a profunda sabedoria. Ao seu influxo, conseguira a paz desejada para ajustar -se à situação espiritual necessária, de maneira a reorganizar a existência. Nesse dia, pensamentos de profunda saudade martirizaram -lhe a alma sensível. Á tarde, após a refeição e na hora das meditações costumeiras, o ex -rabino contemplou o casal com ternura maior a transparecer dos olhos francos. Cada qual se engolfava na meditação do Evangelho Divino, quando o moço tarsense falou com certa timidez, em desacordo com seus gestos resolutos: — Áquila, muita vez, na solidão do nosso trabalho, tenho pensado na enormidade do mal que te causou o doutor de Tarso. Que farias se um dia te visses repentinamente em face do verdugo? — Procuraria estimar nele um irmão. — E tu, Prisca? — perguntou à mulher que o fixa va curiosa. — Seria ótima ocasião para testemunhar o amor que Jesus exemplificou em suas lições divinas. O ex-doutor da Lei recobrou a serenidade e, alteando a voz, exclamou convictamente: - Sempre considerei que um homem, chamado a administrar, responde por todos os erros de seus pre postos, no que toca ao plano geral dos serviços. Portanto, no meu modo de pensar, não culparei tanto, a Jochaí que se arvorou em criminoso vulgar, abusando de uma prerrogativa que lhe foi conferida para execução de tantas vinganças torpes. — A quem imputarias, então, o assassínio de meu pai? — perguntou Áquila impressionado, enquanto o amigo fazia ligeira pausa. — Julgo que Saulo de Tarso deveria responder pelo processo. Ë verdade que ele não autorizou o feito cruel, mas, tornou -se culpado pela indiferença pessoal, quanto aos detalhes da tarefa que compet ia ao seu tirocínio. Os cônjuges entraram a meditar no motivo de tais perguntas, enquanto o moço se calava, retraído. Por fim, com voz humilde e comovedora, recomeçou a falar: — Meus amigos, sob a inspiração do Senhor, é justo confessarmo -nos uns aos outros. Minhas mãos calejadas no trabalho, meu esforço por bem aprender as virtudes da fé, que ambos têm exemplificado a meus olhos, devem ser um atestado da minha renovação espiritual. Sou Saulo de Tarso, o sanhoso perseguidor, transformado em servo penitente. Se muito errei, hoje muito necessito. Na sua misericórdia, Jesus rasgou a túnica miserável das minhas ilusões. Os sofrimentos regeneradores chegaram -me ao coração, lavando-o com lágrimas dolorosas. Perdi tudo que significava honrarias e valores do mundo, por tomar a cruz salvadora e seguir o Mestre na trilha da redenção espiritual. Ë verdade que ainda não pude abraçar -me ao madeiro das lutas construtivas e santificantes, mas persevero no esforço de negar -me a mim mesmo, desprezando o passado de iniqüidad es para merecer a cruz da minha ascese para Deus. Áquila e a mulher contemplavam -no com assombro. Não duvideis da minha palavra — continuou de olhos úmidos. — Assumo a responsabilidade dos meus tristes feitos. Perdoem -me, porém, levando em conta a m inha ignorância criminosa!... O tecelão e a esposa compreenderam que as lágri mas lhe sufocavam a voz. Como que tolhido por singular emoção, Saulo começou a chorar convulsivamente. Áquila aproximou -se e abraçou-o. Aquela atitude carinhosa parecia agravar a contrição penosa, porque o pranto jorrou mais abundante. Recordou o momento em que encon trara a afetividade sincera de Ananias, e, sentindo-se ali, nos braços de um irmão, deixou que as lágrimas lhe lavas sem plenamente o coração. Sentia necessid ade de expandir sentimentos afetuosos; A velha vida de Jerusalém era convencionalismo e secura. Como doutor destacado, tivera muitos admiradores, mas em nenhum chegara a sentir afinidades fraternas. Naquele recanto do deserto, porém, o quadro era outro.
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