Livros Espíritas
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Desejando, porém, fixar o aprendizado da noite sobre assunto atinente à desencarnação, perguntei: — Nosso amigo recém-liberto terá ouvido a súplica do irmão desventurado? — Geme sob terrível pesadelo, nos braços maternos, — explicou Fabriciano, solícito, — ao recordar o fato relatado. Desde alguns minutos acompanhamos a agitação dele, reparando que recebia choques desagradáveis, através do cordão final. — Ouvindo e vendo os quadros invocados? Insisti, perguntando. — Não chegou a ver, nem a ouvir, integralmente, em face da perturbação espontânea, mas vislumbrou, sentiu, oprimiu-se e torturou-se, prejudicando a reconquista de si mesmo. As forças mentais estão revestidas de maravilhoso poder. Indicando os grupos que continuavam conversando, acentuou, sem aspereza: — Nossos amigos da Esfera carnal são ainda muito ignorantes para o trato com a morte. Ao invés de trazerem pensamentos amigos e reconfortadores, preces de auxílio e vibrações fraternais, atiram aos recém-desencarnados as pedras e os espinhos que deixaram nas estradas percorridas. É por isso que, por enquanto, os mortos que entregam despojos aos solitários necrotérios da indigência são muito mais felizes. Ainda não havia terminado, de todo, as considerações, quando a esposa de Dimas, num acesso de pranto, levantou-se do leito em que repousava e adiantou-se para o cadáver, repetindo-lhe o nome, comovedoramente: — Dimas! Dimas! Como ficarei?! Estaremos separados, então, para sempre?… Como Fabriciano se dirigisse apressado para o quarto humilde em que permanecia o desencarnado, acompanhei-o. A genitora do médium fazia esforços para contê-lo, mas debalde. Pelo fio prateado, estabelecera-se vigoroso contato entre ele e a companheira, porque Dimas se ergueu, cambaleante, apesar do carinho materno. Estava lívido, semilouco. Avançou para a sala mortuária, rogando paz, mas antes que pudesse aproximar-se muito dos despojos, Fabriciano aplicou energias de prostração na esposa imprudente, que foi novamente conduzida ao leito, agora sem sentidos, enquanto Dimas voltava ao regaço maternal, menos aflito. O amigo esclareceu-me, sereno: — Há situações em que o drástico deve ser medida inicial. Nosso irmão muito fez pela harmonia dos outros, durante a existência, e merece libertação pacífica. Sinto-me, pois, no dever de garanti-lo para que se desembarace dos últimos resíduos que ainda o inclinam à matéria densa. Outros amigos e afeiçoados do médium chegaram ao ambiente doméstico, interessados em ajudá-lo e, como a noite ia muito alta, despedi-me dos companheiros, pondo-me de regresso ao acolhedor asilo de Fabiano. No outro dia, ao me avistar, disse-me o Assistente Jerônimo, após a saudação inicial: — Espero, André, que o velório lhe tenha trazido úteis e instrutivos ensinamentos. Sim, o estimado Assistente falava com muita propriedade e razão. Eu aprendera muito, durante a noite. Aprendera que as câmaras mortuárias não devem ser pontos de referência à vida social, mas recintos consagrados à oração e ao silêncio.
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