Livros Espíritas
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“Nós ignoraremos sempre de que substância é feito este mundo. Nunca chegaremos a saber se no Universo há outra coisa além de mecanismos. E lá, onde imperam as leis da mecânica, não há Deus, alma, religião, nem metafísica.” É o mesmo autor que nos dizia:(xciii) “A vida é um sonho sinistro, uma dolorosa alucinação, por cujo preço seria um bem o nada.” Outros vão mais longe ainda. Um jornalista muito conhecido, Edmundo Lepelletier, escrevia a respeito do naufrágio da Utopia: “Todas as vantagens na existência pertencem aos que se acham mais bem armados para triunfar na concorrência vital; e o mais bem armado é o mais implacável, o mais egoísta, o menos acessível aos sentimentos de dor, de humanidade e também de justiça.” “É essa necessidade de luta e essa fatalidade da vitória da força com desprezo do direito, da justiça, da humanidade, o que faz todo o vigor das sociedades e a salvação das civilizações.” “Que é o bom?” – diz Frederico Nietzsche.(xciv) – O poder! Que é o mau? – A fraqueza! Que é a felicidade? – O Sentimento de que o poder se engrandece, de que foi superada uma resistência. Comedimento, não; porém mais poder; não a paz antes de tudo, mas a guerra; não a virtude, mas o valor! “Pereçam os fracos e os estropiados. E que ainda os ajudemos a desaparecer. Que pode haver de mais pernicioso do que não importa que vício? – A piedade pelos fracos e desclassificados!” Eis aí o que os escritores e filósofos materialistas difundem nas folhas públicas. Têm eles verdadeiramente consciência da responsabilidade que contraem? Consideram a messe que tal sementeira produzirá? Sabem que, vulgarizando essas doutrinas desesperadoras e iníquas, metem na mão dos deserdados o facho dos incêndios e os instrumentos de morte? Ah! Essas doutrinas parecem anódinas, inofensivas aos felizes, aos satisfeitos, aos cépticos que gozam, que possuem com o necessário o supérfluo, e com as quais justificam todos os seus apetites, desculpam todos os seus vícios; mas os que a sorte fere, os que padecem e sofrem, que uso, que aplicação farão de tais doutrinas? O exemplo de Vaillant e de Emílio Henry no-lo demonstra. Vaillant o declarou perante o Tribunal do Sena, em janeiro de 1894. Foi na leitura de obras materialistas que hauriu a idéia do seu crime. Emílio Henry usava da mesma linguagem: “Estudos científicos iniciaram-me no jogo das forças naturais; eu sou materialista e ateu.” E quantos outros, depois, afirmaram as mesmas teorias perante seus juízes! O ciência da matéria! Com as tuas implacáveis afirmações, com as tuas inexoráveis leis do atavismo e da hereditariedade, quando ensinas que a fatalidade e a força regem o mundo, tu aniquilas todo impulso, toda energia moral nos fracos e nos deserdados da existência; fazes penetrar o desespero no lar de inúmeras famílias; instilas o teu veneno até o âmago das sociedades! Ó materialistas! Apagastes o nome de Deus no coração do povo: dissestes-lhe que tudo se resumia nos prazeres da Terra; que todos os apetites eram legítimos, que a vida era uma sombra efêmera. E o povo acreditou; calaram-se as vozes íntimas que lhe falavam de esperança e de justiça. As almas fecharam-se à fé, para se abrirem às más paixões. O egoísmo expulsou a piedade, o desinteresse, a fraternidade. Sem ideal em sua triste vida, sem fé no futuro, sem luz moral, o homem retrogradou ao estado bestial; sentiu o despertar dos ferozes instintos, entregou-se à cobiça, à inveja, aos arrastamentos desordenados. E agora, as feras rugem na sombra, tendo no coração o ódio e a raiva, prontas a despedaçar, a destruir, a amontoar ruínas sobre ruínas. A sociedade está afetada de profundos males. O espetáculo das corrupções, do impudor, que em torno de nós se ostentam, a febre das riquezas, o luxo insolente, o frenesi da especulação que, em sua avidez, chega a esgotar, a estancar as fontes naturais da produção, tudo isso enche de tristeza o pensador. E, como na ordem das coisas tudo se encadeia, tudo produz os seus frutos, o mal profusamente semeado parece atrair a dor e a tempestade. Esse o aspecto formidável da situação. Parece que atingimos uma hora sombria da História: Desgraçados dos que sufocaram as vozes da consciência, que assassinaram o ideal puro e desinteressado, que ensinaram ao povo que tudo era matéria e a morte o nada! Desgraçados dos que não quiseram compreender que todo ser humano tem direito à existência, à luz e, mais ainda, à vida espiritual; que deram o exemplo do egoísmo, do sensualismo e da imoralidade! Contra essa sociedade que não oferece ao homem nem amparo, nem consolação, nem apoio moral, uma tempestade furiosa se prepara. Fuzilam, por vezes, raios do seio das multidões; a hora da cólera se avizinha. Porque não é sem perigo que se comprime a alma humana, que se impede a evolução moral do mundo, que se encerra o pensamento no círculo de ferro do cepticismo e do negativismo. Chega um dia em que esse pensamento retrocede violentamente, em que as camadas sociais são abaladas por terríveis convulsões. Ergue, porém, a tua fronte, ó homem! e recobra a esperança. Um novo clarão vai descer dos espaços e iluminar o teu caminho. Tudo o que até agora te ensinaram era estéril e incompleto. Os materialistas não perceberam das coisas mais que a aparência e a superfície. Eles não conhecem da vida infinita senão os aspectos inferiores. O sonho deles é um pesadelo. Sem dúvida, se considerarmos o espetáculo da vida na Terra, forçoso é reconhecer que o que nela predomina, nas inferiores regiões da Natureza, é a luta ardente, o combate sem tréguas, a perpétua guerra com que cada ser procura conquistar um lugar ao Sol. Sim, os seres se engalfinham e as forças universais se chocam em luta gigantesca; mas, em definitivo, o que dessa luta resulta não é o caos, a confusão, como se poderia esperar de forças cegas; é o equilíbrio e a harmonia. Por toda parte a destruição dos seres e das coisas não é senão o prelúdio de reconstruções, de novos nascimentos. E que importa a morte aparente, se a vida é imortal, se o ser é, em sua essência, imperecível; se mesmo essa morte é uma das condições, uma das fases da sua elevação? E preciso não enxergar somente a evolução material. Essa não é mais que uma face das coisas. A destruição dos organismos nada prova. São passageiras construções; o corpo é apenas uma veste. A realidade viva reside no ser psíquico, no espírito. É ele quem anima essas formas materiais. O espírito torna a encontrar-se integral no além-túmulo, com as qualidades adquiridas e os merecimentos acumulados, pronto para novas ascensões. Torna a encontrar-se revestido desse invólucro sutil, desse corpo fluídico que lhe é inseparável, que existia antes do nascimento, subsiste atualmente em cada um de nós e sobreviverá à morte; a existência desse corpo sutil está demonstrada por experiências cotidianas de desdobramento, de exteriorização da sensibilidade, pela aparição, à distância, dos fantasmas de vivos durante o sono, assim como pela de pessoas falecidas.(xcv) Acerca de outros pontos não são mais felizes as teorias materialistas. Dizem que tudo o que caracteriza o espírito humano – aptidões, faculdades, vícios e virtudes – se explica pela lei de hereditariedade e pela influência do meio. Reparai em torno de vós; vereis um desmentido a esta asserção, nos próprios fatos. Certo, é considerável a influência das condições materiais; obriga às vezes ao seu jugo, alguns espíritos. Quantos outros, porém, graças à vontade, à coragem, à perseverança, têm sabido elevar-se da mais obscura posição, das classes mais inferiores, até às alturas em que brilha o gênio! Quantos pensadores, sábios, filósofos, nascidos na pobreza, têm sabido, por seus esforços, atingir as maiores culminâncias! É necessário mencioná-los? Recordemos apenas que Copérnico era filho de um padeiro; Kepler, filho de um taverneiro, foi também, por sua vez, caixeiro de taverna, em moço: d'Alembert, enjeitado, apanhado em noite invernosa, à porta de uma igreja, foi educado pela mulher de um vidraceiro; Newton e Laplace eram filhos de pobres camponeses; Humphry Davy, criado de um farmacêutico; Faraday, operário encadernador; Franklin, aprendiz de impressor. Todos esses e milhares de outros souberam reagir contra as mais desfavoráveis condições, triunfar dos maiores obstáculos, adquirir uma reputação indestrutível. Não são, pois, a condição nem a origem que dão o talento. Um pai ilustrado pode ter uma descendência medíocre. Dois irmãos podem parecer-se fisicamente, nutrir-se com os mesmos alimentos, receber a mesma educação, sem ter por isso as mesmas aptidões, as mesmas faculdades. Em desmentido às teorias negativas, tudo, ao contrário, demonstra que a inteligência, o gênio, a virtude, não são o resultado das condições materiais, mas que, longe disso, se afirmam como um poder superior a essas condições e muitas vezes as dominam e governam. Sim, inegavelmente, de um modo geral, a matéria pesa grosseiramente sobre o espírito e lhe estorva os surtos; mas também, muitas vezes, a vontade se ergue e subjuga as resistências da carne, até no meio das torturas mais cruéis. Não o vemos em todos os que sofreram e morreram por uma grande causa, em todos os mártires que deram pela verdade a própria vida? É Giordano Bruno preferindo o suplício à retratação; Campanella que sofre sete vezes a tortura e sete vezes recomeça as suas sátiras mordazes contra os inquisidores; Joana d'Arc, que morre na fogueira; Sócrates, que prefere beber a cicuta a renegar suas doutrinas. É Pedro Ramus, Arnaldo de Brescia, João Huss, Jerônimo de Praga, Savonarola. Em todos esses grandes supliciados vemos afirmar-se a cintilante superioridade do espírito sobre a matéria. O corpo, atormentado pelo sofrimento, se estorce e geme, mas lá está a alma que se impõe e domina as revoltas da carne.
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(xciii) Filosofia natural - pág. 210.
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(xciv) O Anti-Cristo, por Frederico Nietzsche.
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(xcv) Ver No Invisível - "Espiritismo e Mediunidade", cap. XX.
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