Livros Espíritas
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Eu mesmo não saberia definir meu estado dalma… Há muitos dias, minhas noites são agitadas, cheias de aflições e pesadelos! Tenho sonhado sistematicamente que alguém se aproxima de mim, na qualidade de vigoroso inimigo. Por vezes, rendo graças a Deus, ao despertar pela manhã, porque me sinto mais à vontade, enfrentando as máscaras humanas, que lutando, noite inteira, em sonhos cruéis… A esposa, admirada, observou, carinhosa: — Creio que deverias descansar um pouco… Comovido, ante a delicadeza da mulher, Adelino continuou: — Tenho tido receio de mim mesmo! Tão logo me acomodo no leito, sinto instintivamente que uma sombra se aproxima de mim. Adormeço sob incrível ansiedade e o pesadelo começa, sem que eu saiba explicar conscientemente coisa alguma. — E os sonhos são sempre os mesmos? — Indagou a esposa, solícita. — Sempre, — respondeu ele, com emoção, — vejo que um homem se aproxima de mim, estendendo as mãos, à maneira dum mendigo vulgar a implorar socorro, mas, ao lhe fixar a fisionomia, inexplicável terror invade-me o espírito… Tenho a impressão de que ele deseja assassinar-me pelas costas… Em certas ocasiões, tento estender-lhe as mãos, vencendo a impressão de pavor; entretanto, fujo sempre, num misto de ódio e repugnância! Oh! Que pesadelos terríveis e longos! E, modificando o tom de voz, acrescentou: — Admito esteja eu sob fortes desequilíbrios nervosos, sem atinar com o motivo… — Porque não se submeter ao tratamento médico necessário? — Perguntou a esposa afetuosa. O marido pensou alguns momentos, como se o seu espírito vagueasse através de longínquas recordações. Em seguida, fixando na companheira os olhos muito brilhantes, acentuou: — Talvez não precise recorrer a facultativos. É possível que o nosso filhinho esteja com a razão… As lutas grosseiras do mundo impuseram-me o esquecimento da fé em Deus. Há quantos anos terei abandonado a oração? De olhos molhados e pensativos, prosseguiu: — Quando menino, minha mãe me educava na ciência da prece. Ensinado a curvar-me diante da vontade do Altíssimo, sentia a Bondade Divina em todas as coisas e ajoelhava-me confiante ao pé de minha carinhosa genitora, implorando as bênçãos do Alto… Depois, vieram as emoções dos sentidos, o duelo com os maus, a experiência difícil na concorrência ao pão de cada dia… Desde então perdi a crença pura, que sinto necessidade de retomar… A esposa enxugou os olhos, comovida. Há muitos anos não observava no companheiro semelhantes demonstrações emotivas. Ergueu-se, emocionada, e falou com ternura: — Volte hoje mais cedo para orarmos juntos. E procurando imprimir notas de alegria à conversação, chamou o filhinho a pronunciar-se, acrescentando: — Hoje, Joãozinho, papai rezará conosco. Iluminou-se o semblante do pequenino de intraduzível alacridade. Contemplou a mãezinha, enternecido, e observou: — Então, mamãe, farei todas as orações que eu já sei. Após o jantar, experimentando disposições diferentes, Adelino despediu-se com delicadeza que Herculano classificou de inabitual. Alexandre, muito satisfeito, asseverou, depois de restituir a criança aos cuidados maternos: — Felizmente, nossos serviços preparatórios desdobram-se com excelentes promessas. Conseguimos bastante em reduzidos minutos. De minha parte, imensa era a surpresa que me invadia o espírito. Porque tamanhos cuidados? Alexandre e outros benfeitores espirituais, tão elevados quanto ele mesmo, não poderiam organizar todos os serviços atinentes à reencarnação de Segismundo? Não eram senhores de grande poder sobre todos os obstáculos? Mas, dando-me a ideia de que desejava responder às minhas interrogações íntimas, o instrutor afavelmente falou a Herculano, nestes termos: — Não devemos e nem podemos violentar a ninguém e precisamos das boas disposições de Adelino para o trabalho a fazer. Em seguida, passou a orientar Segismundo, relativamente à conduta mental, induzindo-o a preparar-se com todos os recursos ao seu alcance para o êxito na experiência próxima. Outros amigos espirituais das personagens daquele drama entre duas Esferas também chegaram ao ninho doméstico, acentuando-se a alegria da camaradagem fraternal. A presença do meu instrutor parecia incentivo a contentamento geral. Alexandre sabia conduzir a palestra elevada e comunicava seu valioso otimismo a todos os companheiros. Comentava-se a dificuldade da reencarnação em vista dos conflitos vibratórios causadas pela incompreensão das criaturas terrestres, quando o chefe da casa voltou ao lar, interessado em cultivar as doces emoções daquele dia. Agradavelmente surpreendidos, a esposa e o filhinho fizeram-lhe muita festa, encetando nova conversação confortadora e educativa. Fez-se mais de uma hora de boa leitura e excelente troca de ideias, renovando Adelino os seus propósitos de reaver a serenidade íntima, através de maior comunhão espiritual com a pequena família. Quando a mãezinha dedicada lembrou ao pequeno a necessidade de recolher-se, Joãozinho recordou a promessa paternal e indagou: — Papai sabe o que devemos fazer antes da oração? O chefe da casa sorriu e pediu-lhe explicações. O menino, com assombrosa vivacidade, esclareceu: — Diz mamãe que devemos chamar os mensageiros de Deus para que nos assistam. — Pois bem, — tornou o genitor, bem-humorado, — chame por eles em nosso favor. O pequeno pronunciou algumas palavras de convite, de mãos postas, e, em seguida, encaminharam-se os três, para o aposento íntimo. Alexandre, que parecia muito satisfeito com a lembrança espontânea do pequenino, dirigiu-se a nós outros, exclamando: — Estamos convidados a participar das suas mais íntimas orações. Acompanhemo-los. Naquele momento, nosso grupo estava acrescido de três entidades amigas de Raquel, que tinham vindo, até ali, igualmente convocadas pela dedicação de Herculano, a fim de cooperarem na solução do assunto. O quadro interior era dos mais comoventes. O pequenino pusera-se de joelhos e fazia a oração dominical, com infantil emotividade. Adelino e a companheira seguiam-lhe a prece com grande atenção. Por nossa vez, continuamos, agora em silêncio, a observar e colaborar naquele serviço espiritual com as melhores forças do sentimento. Notei que a esposa se achava rodeada de intensa luminosidade, que, partindo de seu coração, envolvia o esposo e o pequenino em suaves irradiações. Muito sensibilizado, Adelino deixou escapar uma lágrima furtiva, quando o filho, terminando as preces, curtas em palavras e grandiosas em espiritualidade, lhe beijou carinhosamente as mãos. Mais alguns minutos e todos se recolhiam sob os cobertores, felizes e tranquilos. Nesse instante, Alexandre falou: — Agora, meus amigos, façamos o nosso serviço de oração cooperadora. Precisamos conversar seriamente com Adelino, relativamente à situação. O orientador pediu a proteção divina para o casal, em voz alta, sendo acompanhado por nós, em profundo silêncio. As vibrações do nosso pensamento, em rogativa, congregaram-se, como parcelas de luminosas substâncias a se reunirem num todo, derramando-se sobre o leito conjugal, quais correntes sutis de forças magnéticas revigorantes e regeneradoras. Foi então que vi Raquel abandonar o corpo físico, dentro de luminosas irradiações, parecendo-me alheia à situação. Despreocupada, feliz, abraçou-se com uma das entidades que nos acompanhavam, velha senhora que Alexandre nos apresentara pouco antes, declarando tratar-se da avó materna da dona da casa. A anciã desencarnada convidou a neta a permanecerem juntas em oração, ao que Raquel aquiesceu com visível contentamento. A esposa de Adelino, entretanto, parecia identificar tão somente a presença da velhinha amorosa. Fixava em nós outros o olhar, indiferentemente, como se ali não estivéssemos. Estranhando o fato, dirigi-me ao instrutor, pedindo-lhe explicações. Alexandre não se fez rogado e, não obstante a delicadeza do serviço em curso, esclareceu-me delicadamente: — Não se surpreenda. Cada um de nós deve ter a possibilidade de ver somente aquilo que nos proporcione proveito legítimo. Além do mais, não seria justo intensificar a percepção de nossa amiga para que nos acompanhe no trabalho desta noite. Ela nos auxiliará com o valor da oração, mas não precisará seguir, de perto, os esclarecimentos que a condição do esposo requisita. Quem faz o que pode, recebe o salário da paz. Raquel vem fazendo quanto lhe é possível para o êxito no desempenho das obrigações que a trouxeram ao mundo; por isso mesmo, não deve ser advertida e nem perturbada. Atendamos Segismundo e Adelino. Satisfeito com as elucidações recebidas e admirando a Justiça Divina a manifestar-se nos mínimos pormenores de nossas atividades espirituais, observei que a companheira de Adelino se mantinha, não longe de nós, em fervorosa prece. Nesse momento, o esposo de Raquel afastava-se do corpo físico, pesadamente. Não apresentava, tal qual a consorte, um halo radioso em derredor da personalidade, parecendo mover-se com extrema dificuldade. Enquanto seu olhar vagueava no quarto, angustiado e espantadiço, Alexandre se aproximou de mim e observou: — Está examinando a lição? Repare as singularidades da vida espiritual. Adelino e Raquel são Espíritos associados de muitas existências em comum, partilham o mesmo cálice de dores e alegrias terrestres. Na atualidade, seus corpos repousam um ao lado do outro, no mesmo leito; entretanto, cada um vive em plano mental diferente. É muito difícil estarem reunidas nos laços domésticos as almas da mesma Esfera.
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[Vide no , um exemplo do que se passa quando um dos cônjuges, de reta conduta, consegue proteger o tálamo conjugal de ligações com entidades inferiores.]
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