Livros Espíritas
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Diremos ao Sr. Burlet: É contra os mais elementares preceitos da lógica deduzir uma conseqüência geral de alguns fatos isolados, a que outros fatos podem dar um desmentido. Para apoiar vossa tese, seria preciso um outro trabalho, diferente do que fizestes. Dissestes haver observado seis casos; creio em vossa palavra. Mas, que é que isto prova? Tivésseis observado o dobro ou o triplo e não provaríeis mais, considerando-se que o total de loucos não ultrapassou a média. Suponhamos a média de 1000, para nos servirmos de um número redondo. Sendo sempre as mesmas as causas habituais da loucura, se o Espiritismo a pode provocar, é uma causa a mais a juntar às outras e que deve aumentar a cifra da média. Se, desde a introdução das idéias espíritas, de 1000 essa média tivesse alcançado 1200, por exemplo, e a diferença fosse precisamente a dos casos de loucura espírita, a questão mudaria de figura. Mas enquanto não for provado que, sob a influência do Espiritismo, a média dos alienados aumentou, a amostragem de alguns casos isolados nada prova, a não ser a intenção de lançar descrédito sobre as idéias espíritas e de intimidar a opinião. No estado atual das coisas, resta mesmo conhecer o valor dos casos isolados que se põem à frente, e saber se todo alienado que fala dos Espíritos deve sua loucura ao Espiritismo; mas, para isso, seria necessário um juiz imparcial e desinteressado. Suponhamos que o Sr. Burlet fique louco, o que lhe pode acontecer, como a qualquer outro; quem sabe? antes mesmo que a um outro, talvez. Haveria algo de admirável que, preocupado com a idéia que combateu, dela falasse em sua demência? Deveria daí concluir-se que foi a crença nos Espíritos que o enlouqueceu? Poderíamos citar vários casos, dos quais faz-se muito ruído e nos quais ficou provado que os indivíduos se tinham ocupado pouco ou nada com o Espiritismo, ou tinham tido ataques de loucura bem característicos muito anteriores. A isto devem juntar-se os casos de obsessão e subjugação, que se confundem com a loucura e são tratados como tal, com grande prejuízo da saúde das pessoas afetadas, como explicamos em nossos artigos sobre Morzine. À primeira vista, são os únicos que poderiam ser atribuídos ao Espiritismo, não obstante esteja provado que se encontram em grande número de indivíduos que a ele são os mais estranhos e que, pela ignorância da causa, são tratados erroneamente. É realmente curioso ver certos adversários que não crêem nos Espíritos nem em suas manifestações, pretendendo seja o Espiritismo uma causa de loucura. Se os Espíritos não existissem ou se não podem comunicar-se com os homens, todas essas crenças são quimeras, que nada têm de real. Perguntamos, então, como pode o nada produzir alguma coisa? É a idéia, dirão eles; esta idéia é falsa. Ora, todo homem que professa uma idéia falsa desarrazoa. Que idéia é esta tão funesta à razão? Ei-la: Temos uma alma que vive depois da morte do corpo. Esta alma conserva suas afeições da vida terrestre e pode comunicar-se com os vivos. Segundo eles, é mais salutar acreditar no nada depois da morte; ou, então – o que dá no mesmo – que a alma, perdendo sua individualidade, se confunde no todo universal, como as gotas de água no oceano. De fato, com esta última idéia não há mais necessidade de nos inquietarmos com a sorte do próximo e que só temos que pensar em nós, bem beber, bem comer nesta vida, tudo em proveito do egoísmo. Se a crença contrária é uma causa de loucura, por que há tantos loucos entre gente que em nada crê? Direis que esta causa não é a única. De acordo. Mas, então, por que queríeis que essas causas não pudessem ferir um espírita como a qualquer outro? E por que pretendíeis responsabilizar o Espiritismo por uma febre alta ou uma insolação? Instigais a autoridade para combater as idéias espíritas porque, em vossa opinião, elas perturbam o cérebro. Mas por que também não exigis a vigilância da autoridade contra as outras causas? Na vossa solicitude pela razão humana, da qual vos imaginais o modelo, fizestes a relação dos inumeráveis casos de loucura produzidos pelo desespero do amor? Por que não incitais a autoridade para proscrever o sentimento amoroso? Está comprovado que todas as revoluções são marcadas por uma notável recrudescência nas afecções mentais. Eis aí uma causa eficiente bem manifesta, pois aumenta a cifra da média. Por que não aconselhais o governo a interditar as revoluções como coisa prejudicial? Já que o Sr. Burlet fez o relato enorme de seis casos de loucura dita espírita, numa população de 300.000 almas, aconselhamos os médicos espíritas a fazerem uso de todos os casos de loucura, de epilepsia e outras afecções causadas pelo temor do diabo, o terrível quadro das torturas eternas do inferno e o ascetismo das reclusões monásticas. Longe de admitir o Espiritismo como causa do aumento da loucura, dizemos que é causa atenuante, que deve diminuir o número dos casos produzidos pelas causas ordinárias. Com efeito, entre estas causas, é preciso colocar em primeira linha os pesares de toda natureza, as decepções, as afeições contrariadas, os revezes da fortuna, as ambições não concretizadas. O efeito destas causas está na razão da impressionabilidade do indivíduo. Se tivéssemos um meio de atenuar essa impressionabilidade, este seria, incontestavelmente, o melhor preservativo. Pois bem! este meio está no Espiritismo, que amortece o contragolpe moral, que faz suportar com resignação as vicissitudes da vida. Um que se teria suicidado por um revés, haure na crença espírita uma força moral que o leva a suportar o mal com paciência; não só não se matará, mas, em presença da maior adversidade, conservará fria a razão, porque tem uma fé inalterável no futuro. Dar-lhes-eis essa calma com a perspectiva do nada? Não, pois ele não entrevê nenhuma compensação e, se não tiver o que comer, poderá comer-vos. A fome é terrível conselheira para quem acredita que tudo se acaba com a vida. Pois bem! o Espiritismo faz suportar até a fome, porque faz ver, compreender e esperar a vida que se segue à morte do corpo. Eis a sua loucura. A maneira pela qual o verdadeiro espírita encara as coisas deste mundo e do outro, leva-o a dominar em si as mais violentas paixões, mesmo a cólera e a vingança. Depois do artigo injurioso da Gazette de Lyon, que relembramos mais acima, um grupo de cerca de uma dúzia de operários nos disse: “Se não fôssemos espíritas iríamos dar uma surra no autor, para lhe ensinar a viver e, se estivéssemos em revolução, incendiaríamos as dependências de seu jornal. Mas somos espíritas; nós o lastimamos e pedimos a Deus que o perdoe.” Que dizeis desta loucura, Sr. Burlet? Em caso semelhante, o que teríeis preferido: tratar com loucos dessa espécie ou com homens que nada temem? Imagináveis que hoje há mais de vinte mil deles em Lyon? Pretendeis servir aos interesses da Humanidade e não compreendeis os vossos! Pedi a Deus para que um dia não tenhais de lamentar não sejam todos os homens espíritas. É para isto que vós e os vossos trabalhais com todas as forças. Semeando a incredulidade, minais os fundamentos da ordem social; estimulais a anarquia, as reações sangrentas. Nós trabalhamos para dar a fé aos que em nada crêem; para espalhar uma crença que os torna melhores uns para os outros, que lhes ensina a perdoar aos inimigos, a se olharem como irmãos, sem distinção de raça, casta, seita, cor, opinião política ou religiosa; numa palavra, uma crença que faz nascer o verdadeiro sentimento de caridade, de fraternidade e deveres sociais. Perguntai a todos os chefes militares que têm subordinados espíritas sob suas ordens, quais os que são conduzidos com mais facilidade, que melhor observam a disciplina sem emprego do rigor. Perguntai aos magistrados, aos agentes da autoridade que têm subalternos espíritas nas camadas inferiores da sociedade, quais aqueles onde há mais ordem e tranqüilidade; sobre os quais a lei tem menos a castigar; onde há menos tumulto a apaziguar e desordens a reprimir? Numa cidade do Sul, dizia-nos um comissário de polícia: “Desde que o Espiritismo se espalhou em minha circunscrição, tenho dez vezes menos ocorrências do que antes.” Perguntai, enfim, aos médicos espíritas quais os doentes em que encontram menos afecções causadas pelos excessos de todo gênero? Penso ser esta uma estatística um pouco mais concludente que os vossos seis casos de alienação mental. Se tais resultados são uma loucura, tenho a glória de propagá-la. Onde foram colhidos tais resultados? Nos livros que alguns queriam lançar ao fogo; nos grupos que recomendais aos operários que fujam. O que é que se vê nesses grupos, que representais como o túmulo da razão? Homens, mulheres, crianças que ouvem com recolhimento uma doce e consoladora moral, em vez de ir ao cabaré perder dinheiro e saúde ou fazer algazarra na praça pública; que de lá saem com amor aos semelhantes no coração, em vez do ódio e da vingança. Eis uma singular confissão feita pelo autor do artigo precitado: “Vítimas da alucinação que os domina, admitida a premissa, raciocinam a seguir com uma lógica irrepreensível, que não faz senão fortalecê-los em sua aberração.” Singular loucura, na verdade, essa que raciocina com uma lógica irrepreensível! Ora, qual é essa premissa?
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(4) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 521.
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