Livros Espíritas
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Poderia, conscienciosamente e caridosamente, perguntar ao que sofre se é russo, polonês, alemão, espanhol, italiano ou francês? A menos que faltasse ao seu título, ao seu objetivo, ao seu dever, deveria estender sua ação do Peru à China. Basta pensar na complicação da máquina administrativa de uma tal empresa para ver quanto ela é quimérica. Supondo que se circunscrevesse à França, não seria menos uma administração colossal, um verdadeiro ministério. Quem quereria assumir a responsabilidade de uma tal gerência de fundos? Para uma gestão dessa natureza não bastariam a integridade e o devotamento: seria necessária uma alta capacidade administrativa. Admitamos, contudo, vencidas as primeiras dificuldades; como exercer um controle eficaz sobre a extensão e a realidade das necessidades, sobre a sinceridade da qualidade de espírita? Semelhante instituição logo veria surgirem adeptos, ou que se dizem como tais, aos milhões, mas não seriam estes que alimentariam a caixa. Do momento em que esta existisse, julgá-la-iam inesgotável, e em breve ela se veria impossibilitada de satisfazer a todas as exigências de seu mandato. Fundada em tão vasta escala, consideramo-la como impraticável, e por nossa conta pessoal não lhe daríamos a mão. Além disso, não seria de temer que ela encontrasse oposição à sua própria constituição? O Espiritismo apenas nasce e ainda não está, por toda parte, em estado de perfeição espiritual para que se julgue ao abrigo de suposições malevolentes. Não poderiam enganar-se quanto às suas intenções numa operação desse gênero? supor que, sob uma capa, oculte outro objetivo? numa palavra, fazer assimilações de que seus adversários alegariam exceção de justiça, para excitar a desconfiança contra si? Por sua natureza, o Espiritismo não é e nem pode ser uma filiação, nem uma congregação. Deve, pois, no seu próprio interesse, evitar tudo quanto lhe desse tal aparência. Então é preciso que, por medo, o Espiritismo fique estacionário? Não é agindo, dirão, que ele mostrará o que é, que dissipará as desconfianças e frustrará a calúnia? Sem nenhuma dúvida; mas não se deve pedir à criança o que exige as forças da idade viril. Longe de servir ao Espiritismo, seria comprometê-lo e expô-lo aos golpes e às gargalhadas dos adversários e misturar seu nome a coisas quiméricas. Certamente ele deve agir, mas no limite do possível. Deixemos-lhe, pois, tempo para adquirir as forças necessárias e então dará mais do que se pensa. Ele nem mesmo está completamente constituído em teoria; como querem que dê o que só pode ser resultado do complemento da doutrina? Aliás há outras considerações que importa levar em conta. O Espiritismo é uma crença filosófica e basta simpatizar com os princípios fundamentais da doutrina para ser espírita. Falamos dos espíritas convictos, e não dos que lhe tomam a máscara, por motivos de interesse ou outros, igualmente inconfessáveis. Esses não fazem número; neles não há nenhuma convicção; hoje se dizem espíritas, na esperança de aí encontrar vantagens; amanhã serão adversários, se não encontrarem o que procuravam; ou então se farão de vítimas de seu devotamento fictício, e acusarão os espíritas de ingratidão por não os sustentar. Não seriam os últimos a explorar a caixa geral, para se indenizarem de especulações frustras ou repararem desastres causados por sua incúria ou sua imprevidência, e a lhe atirarem a pedra, se ela não os satisfaz. Não é para admirar, pois todas as opiniões contam com semelhantes auxiliares e vêem a representação de semelhantes comédias. Há também a massa considerável dos espíritas de intuição; os que o são pela tendência e a predisposição de suas idéias, sem estudo prévio; os indecisos, que ainda flutuam, esperando os elementos de convicção que lhes são necessários. Podemos, sem exagero, avaliá-los em um quarto da população. É o grande reservatório onde se recrutam os adeptos, mas ainda não contam no número. Entre os espíritas reais – os que constituem o verdadeiro corpo dos aderentes – há certas distinções a fazer. Em primeira linha deve-se colocar os adeptos de coração, animados de uma fé sincera, que compreendem o objetivo e o alcance da doutrina e lhe aceitam todas as conseqüências para si mesmos; seu devotamento é a toda prova e sem segunda intenção; os interesses da causa, que são os da Humanidade, lhes são sagrados e jamais os sacrificam a uma questão de amor-próprio ou de interesse pessoal. Para eles o lado moral não é simples teoria: esforçam-se por pregar pelo exemplo; não só têm a coragem de sua opinião: disto fazem uma glória e, se necessário, sabem pagar com sua pessoa. Em seguida vêm os que aceitam a idéia como filosofia, porque lhes satisfaz à razão, mas cuja fibra moral não é suficientemente tocada para compreender as obrigações que a doutrina impõe aos que a assimilam. O homem velho está sempre lá e a reforma de si mesmos lhes parece uma tarefa por demais pesada; mas como não estão menos firmemente convencidos, entre eles encontram-se propagadores e defensores zelosos. Depois há as pessoas levianas, para quem o Espiritismo está todo inteiro nas manifestações. Para estes é um fato, e nada mais; o lado filosófico passa despercebido; o atrativo da curiosidade é o seu principal móvel: extasiam-se perante um fenômeno e ficam frios diante de uma conseqüência moral. Finalmente, há o número ainda muito grande dos espíritas mais ou menos sérios, que não puderam colocar-se acima dos preconceitos e do que dirão, contidos pelo temor do ridículo; aqueles que considerações pessoais ou de família, com interesses por vezes respeitáveis a gerir, de algum modo são forçados a manter-se afastados. Todos esses, numa palavra, que por uma causa ou por outra, boa ou má, não se põem em evidência. A maior parte não desejaria mais do que se confessar, mas não ousam ou não o podem. Isto virá mais tarde, à medida que virem outros fazê-lo e que não houver perigo; serão os espíritas de amanhã, como outros são os da véspera. Todavia, não se pode exigir muito deles, porque é preciso uma força de caráter que não é dada a todos, para enfrentar a opinião em certos casos. É preciso, pois, levar em conta a fraqueza humana. O Espiritismo não tem o privilégio de transformar subitamente a Humanidade e se nos podemos admirar de alguma coisa, é do número de reformas que ele já operou em tão pouco tempo; enquanto nuns, onde ele encontra o terreno preparado, entra, por assim dizer, de uma vez, noutros só penetra gota-a-gota, conforme a resistência que encontra no caráter e nos hábitos. Todos esses adeptos contam no número, e por mais imperfeitos que sejam, são sempre úteis, embora em limites restritos. Até nova ordem, se só servissem para diminuir as fileiras da oposição, já seria alguma coisa. É por isso que não se pode desdenhar nenhuma adesão sincera, mesmo parcial. Mas, quando se trata de uma obra coletiva importante, onde cada um deve trazer seu contingente de ação, como seria a de uma caixa geral, por exemplo, convém ter em mente essas considerações, porque a eficácia do concurso que se pode esperar está na razão da categoria à qual pertencem os adeptos. É bem evidente que não se pode contar muito com os que não levam a sério o lado moral da doutrina e, ainda menos, com os que não ousam mostrar-se. Restam, pois, os adeptos da primeira categoria. Destes, certamente, tudo se pode esperar; são soldados de vanguarda, não esperando, na maioria das vezes, senão serem chamados, quando se trata de dar prova de abnegação e de devotamento. Mas numa cooperação financeira, cada um contribui conforme os seus recursos e o pobre só pode dar o seu óbolo. Aos olhos de Deus este óbolo tem grande valor, mas para as necessidades materiais tem apenas o seu valor intrínseco. Desfalcando todos aqueles cujos meios de subsistência são limitados, aqueles mesmos que só pensam no dia de hoje, o número dos que poderiam contribuir um pouco largamente e de maneira eficaz é relativamente restrito. Uma observação ao mesmo tempo interessante e instrutiva é a da proporção dos adeptos segundo as categorias. Essa proporção variou sensivelmente e se modifica em razão dos progressos da doutrina. Mas neste momento pode ser avaliada, aproximadamente, da maneira seguinte: 1a categoria – espíritas completos, de coração e devotamento: 10%; 2a categoria – espíritas incompletos, buscando mais o lado científico que o lado moral: 25%; 3a categoria – espíritas levianos, os que só se interessam pelos fatos materiais: 5% (esta proporção era inversa há dez anos); 4a categoria – espíritas não confessos ou que se ocultam: 60%. Relativamente à posição social, pode-se fazer duas classes gerais: de um lado, aqueles cuja fortuna é independente; do outro, os que vivem de seu trabalho. Em 100 espíritas da primeira categoria, há em média 5 ricos contra 95 trabalhadores; na segunda, 70 ricos e 30 trabalhadores; na terceira, 80 ricos e 20 trabalhadores; na quarta, 99 ricos e 1 trabalhador. Desse modo, seria ilusão pensar que em tais condições uma caixa geral pudesse satisfazer a todas as necessidades, quando a do mais rico banqueiro não seria suficiente. Não bastariam alguns milhares de francos anualmente, mas milhões.
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