Livros Espíritas
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Abigail cobrou algum ânimo e, sentindo -se encorajada por aquela simpatia imprevista, perguntou extrema mente perturbada: — E meu pai? — Teu pai descansou para sempre — murmurou o generoso soldado. O pranto da jovem se fez mais copios o, borbulhando-lhe dos olhos tristes. Todavia, ansiosa por defender -se contra a perspectiva de solidão, perguntou ainda: — Mas... e meu irmão? — Ninguém volta do cativeiro das galeras — respondeu Justino com olhar significativo. Abigail levou as mãos peq ueninas ao peito, desejan do afogar a própria dor. Os gonzos de velha porta ran geram vagarosamente e o seu inesperado protetor exclamou, apontando a rua movimentada: — Vai em paz e que os deuses te protejam. A pobre criatura não tardou a sentir o insulam ento entre as fileiras de transeuntes que cruzavam, apressa dos, a via pública. Habituada aos carinhos domésticos, no lar onde o idioma paterno substituía a linguagem das ruas, sentiu-se estranha no meio de tantas criaturas inquietas, assoberbadas de interesses e preocupações ma teriais. Ninguém lhe notava as lágrimas, nenhuma voz amiga procurava inteirar -se das suas íntimas angústias. Estava só! Sua mãe fora chamada por Deus, anos antes; seu pai acabava de sucumbir covardemente assas sinado; o irmão, prisioneiro e cativo, sem esperança de remissão. Apesar do sol do meio -dia, tinha a sensação de intenso frio. Deveria regressar ao ninho doméstico? Mas, com que fim, se haviam sido expulsos? A quem confiar sua enorme desdita? Lembrou-se de uma velha amiga da fa mília. Procurou-a. A viúva Sostênia, muito afeiçoada à sua mãe, recebeu -a com o sorriso generoso da sua velhice bondosa. Desfeita em pranto, a infortunada contou -lhe todo o sucedido. A veneranda velhinha, acariciando -lhe a cabeleira anelada, falou comovida : — Nas perseguições passadas, nossos sofrimentos foram os mesmos. E dando a entender que não desejava reviver antigas e dolorosas reminiscências, Sostênia acentuou: — É indispensável o máximo de coragem nas situa ções penosas como esta. Não é fácil elevar o coração em meio de tão terríveis escombros; mas é preciso confiar em Deus nas horas mais amargas. Que contas fazer, agora que todos os recursos desapareceram? Por minha vez, nada te posso oferecer, senão o coração amigo, pois também aqui estou por esmo la da pobre família que me agasalhou caridosamente, na última tempestade da minha vida. — Sostênia — disse Abigail suspirando —, meus pais me prepararam para uma existência de corajoso esforço próprio. Estou pensando em recorrer ao legado e suplicar-lhe um cantinho da nossa chácara para ali viver uma vida honesta, na esperança de reaver Jeziel e sua fraterna companhia. Que pensas a respeito? Notando a indecisão da veneranda amiga, continuou: — Quem sabe o questor Licínio se condoerá da mi nha sorte? Minha resolução talvez o enterneça; voltarei para casa e levar -te-ei comigo. Ser-meias uma segunda mãe para o resto da vida. Sostênia conchegou-a de encontro ao coração e acen tuou de olhos úmidos: — Minha querida, tu és um anjo, mas o mundo ainda é propriedade dos maus. Viveria contigo eterna mente, minha boa Abigail; entretanto, não conheces o legado nem a sua camarilha. Ouve, filha! É preciso que fujas de Corinto, de modo a não incidires em mais duras humilhações. A moça teve uma exclamação de abatimento e, de pois de longa pausa, acrescentou: — Aceitarei teus conselhos, mas, antes de qualquer providência, necessito voltar a casa. — Para quê? — interrogou a amiga admirada. — É imprescindível que partas quanto antes. Não voltes ao lar. A esta hora, é possível já esteja ocupado por homens sem escrúpulos, que te não respeitariam. Con vém-te uma atitude de sincera fortaleza moral, pois vivemos uma época em que necessitamos fugir da perdi ção, como Lot e seus familiares, correndo o risco de sermos transformados em es tátua inútil, se olharmos para trás. A irmã de Jeziel bebia-lhe as palavras com dolo rosa estranheza, em face do imprevisto da situação. Passado um momento, Sostênia levou a mão à fron te, como a recordar uma providência oportuna e falou com animação: — Lembras-te de Zacarias, filho de Hanan? — Aquele amigo da estrada de Cencréia? — Ele mesmo. Fui informada de que, em compa nhia da esposa, prepara-se para deixar definitivamente a Acaia, por haver sido assassinado pelos romanos irresponsáveis, nestes últimos dias, o seu único filho. Confortada por ardente esperança, concluía com ansiedade: — Corre à casa de Zacarias! Se ainda o encontra res, fala-lhe em meu nome. Pede-lhe acolhimento. Ruth é um coração generoso e não deixará de estender-te as mãos generosas e fraternais; sei que ela te receberá com afagos maternos!... Abigail tudo ouvia, parecendo indiferente à própria sorte. Mas Sostênia fê la considerar a necessidade do recurso e, decorridos minutos de consolações recíprocas, a jovem, sob o calor ca usticante das primeiras horas da tarde, pôs se a caminho para Cencréia, dando a im pressão de um autômato que vagasse na estrada, a que vários veículos e inúmeros pedestres imprimiam considerável movimento. O porto de Cencréia ficava a certa distância do c entro de Corinto. Situado de maneira a servir às comunicações com o Oriente, seus bairros populosos estavam cheios de famílias israelitas, fixadas de longa data nas regiões da Acaia, ou em trânsito para a capital do Império e adjacências. A irmã de Jeziel chegou à casa de Zacarias dominada por terrível abatimento. Aliado à vigília da última noite e às angústias do dia, penoso cansaço físico lhe agravava os desalentos. Pernas trôpegas, a relembrar o pai morto e o irmão prisioneiro, não reparava em si própria , no mísero estado do seu organismo enfermo e desnutrido. Somente ao defrontar a modesta morada do amigo, verificou que a febre come çava a devorar-lhe as entranhas, obrigando -a a refletir nas suas dolorosas necessidades. Zacarias e Ruth, sua mulher, atend endo ao chamado, receberam -na espantados e aflitos. — Abigail!... O grito de ambos revelava grande surpresa, com o aspecto da jovem despenteada, face esfogueada, olhos fundos e vestes em desalinho. A filha de Jochedeb, perturbada pela fraqueza e pela febre , rojou-se aos pés do casal, exclamando em tom lancinante: — Meus amigos, tende piedade do meu infortú nio!... Nossa boa Sostênia lembrou-me vosso afeto, no transe doloroso por que passo. Eu, que já não tinha mãe, tive hoje meu pai assassinado e Jeziel esc ravizado sem remissão. Se é verdade que partireis de Corinto, levai -me, por compaixão, em vossa companhia! Abigail abraçava-se agora a Ruth, ansiosamente, enquanto a amiga a acarinhava entre lágrimas. Soluçante, a jovem relatou os fatos da véspera e os tri stes episódios daquele dia. Zacarias, cujo coração paterno acabava de sofrer tremendo golpe, abraçou a com afeto e amparou-a sensibilizado, exclamando solícito: — Dentro de uma semana voltaremos à Palestina. Ainda não sei bem onde nos vamos fixar, mas nós , que perdemos o filho querido, teremos em ti uma filha estremecida. Acalma-te! Irás conosco, serás nossa filha para sempre. Incapaz de traduzir seu jubiloso agradecimento, ator mentada pela febre alta, a jovem ajoelhou -se, em pranto, procurando ex ternar sua gratidão carinhosa e sincera. Ruth tomou -a ternamente nos braços e, qual desvelado anjo maternal, conduziu-a a um leito macio, onde Abigail, assistida pelos dois amigos generosos, delirou três dias. entre a vida e a morte.
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