Livros Espíritas
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Os irmãos Davenport, que neste momento cativam a atenção em tão alto grau, são dois jovens de vinte e quatro e vinte e cinco anos, nascidos em Buffalo, no Estado de Nova Iorque, e que se apresentam em público como médiuns. Todavia, sua faculdade é limitada a efeitos exclusivamente físicos, dos quais o mais notável consiste em se fazerem amarrar com cordas de maneira inextrincável e se acharem desatados instantaneamente, por uma força invisível, malgrado todas as precauções tomadas para garantir que são incapazes de o fazer eles próprios. A isto juntam outros fenômenos mais conhecidos, como o transporte de objetos no espaço, o toque espontâneo de instrumentos de música, a aparição de mãos luminosas, a apalpação por mãos invisíveis, etc. Os Srs. Didier, editores de O Livro dos Espíritos, acabam de publicar uma tradução de sua biografia, contendo o relato minucioso dos efeitos que produzem e que, salvo as cordas, têm pontos muito numerosos de semelhança com os do Sr. Home. A emoção que a presença deles causou na Inglaterra e em Paris dá a essa obra um poderoso interesse de atualidade. Seu biógrafo inglês, o Dr. Nichols – não foram eles que escreveram o livro, mas lhe forneceram os documentos – limitou-se ao relato dos fatos, sem explicações. Os editores franceses tiveram a feliz idéia de juntar à sua publicação, para compreensão das pessoas estranhas ao Espiritismo, nossos dois opúsculos: Resumo das leis dos fenômenos espíritas e O Espiritismo na sua expressão mais simples, além de numerosas notas explicativas no corpo do texto26. Assim, encontrarão nessa obra as informações que desejarem sobre a atuação desses senhores e em cujos detalhes não podemos entrar, pois temos de encarar a questão de outro ponto de vista. Apenas diremos que sua aptidão para produzir esses fenômenos se revelou desde a infância, de maneira espontânea. Durante vários anos percorreram as principais cidades da América setentrional, onde adquiriram certa reputação. Pelo mês de setembro de 1864 vieram à Inglaterra, onde produziram viva sensação. Sucessivamente foram aclamados, denegridos, ridicularizados e mesmo injuriados pela imprensa e pelo público. Notadamente em Liverpool, foram objeto da mais insigne malevolência, a ponto de verem comprometida a sua segurança pessoal. Sobre eles as opiniões se dividiram; segundo alguns, não passavam de hábeis charlatães; conforme outros, eram de boa-fé e podia-se admitir uma causa oculta para seus fenômenos; mas, em suma, ali conquistaram muito poucos prosélitos à idéia espírita propriamente dita. Naquele país, essencialmente religioso, o bom-senso natural repelia o pensamento de que seres espirituais viessem revelar sua presença por exibições teatrais e proezas admiráveis. Sendo ali pouco conhecida a filosofia espírita, o público confundiu o Espiritismo com essas representações, delas fazendo uma opinião mais contrária do que favorável à doutrina. É verdade que na França o Espiritismo começou pelas mesas girantes, mas em condições muito diferentes. Tendo a mediunidade se revelado imediatamente em grande número de pessoas, de todas as idades e de ambos os sexos, e nas famílias mais respeitáveis, os fenômenos se produziram em condições que excluíam qualquer pensamento de charlatanismo; cada um pôde certificar-se por si mesmo, na intimidade e por observações repetidas, da realidade dos fatos, aos quais se ligou um interesse poderoso quando, saindo dos efeitos puramente materiais, que nada diziam à razão, viram as conseqüências morais e filosóficas deles decorrentes. Se, em vez disto, esse gênero de mediunidade primitiva tivesse sido privilégio de alguns indivíduos isolados, e que tivesse sido preciso comprar a fé nos palcos improvisados, há muito que não se cogitaria mais dos Espíritos. A fé nasce da impressão moral. Ora, tudo que é susceptível de produzir uma má impressão, a repele em vez de a provocar. Haveria hoje muito menos incrédulos, em relação ao Espiritismo, se os fenômenos sempre tivessem sido apresentados de maneira séria. O incrédulo, naturalmente predisposto à zombaria, não pode ser levado a tomar a sério o que está cercado de circunstâncias que nem impõem respeito nem confiança. Não se dando ao trabalho de aprofundar, a crítica forma sua primeira opinião sobre uma primeira aparência desfavorável e confunde o bom e o mau numa mesma reprovação. Muito poucas convicções se formaram nas reuniões de caráter público, ao passo que a imensa maioria saiu das reuniões íntimas, cuja notória honorabilidade de seus membros podia inspirar toda confiança e desafiar qualquer suspeita de fraude. Na última primavera, e depois de ter explorado a Inglaterra, os irmãos Davenport vieram a Paris. Algum tempo antes de sua chegada, uma pessoa veio ver-nos, da parte deles, para nos pedir que os apoiássemos em nossa Revista. Mas sabe-se que não nos entusiasmamos facilmente, mesmo pelas coisas que conhecemos e, com mais forte razão, pelas que não conhecemos. Assim, não pudemos prometer um concurso antecipado, já que temos por hábito só falar com conhecimento de causa. Na França, onde só eram conhecidos pelos relatos contraditórios dos jornais, a opinião, como na Inglaterra, estava dividida a seu respeito. Não podíamos, pois, formular prematuramente, nem uma censura, que poderia ter sido injusta, nem uma aprovação, da qual se teriam podido prevalecer. Por isto nos abstivemos. Ao chegarem, foram morar no pequeno castelo de Gennevilliers, perto de Paris, onde permaneceram vários meses, não informando o público de sua presença. Ignoramos os motivos dessa abstenção. Nos últimos tempos deram algumas sessões particulares, de que os jornais noticiaram de um modo mais ou menos pitoresco. Enfim, foi anunciada sua primeira sessão pública para 12 de setembro na sala Hertz. Conhece-se o resultado deplorável dessa sessão que, em escala menor, repetiu as cenas tumultuosas de Liverpool, e na qual um dos espectadores, pulando para o palco, quebrou o aparelho desses senhores, mostrou uma tábua e exclamou: “Eis o truque.” Esse ato, inqualificável num país civilizado, levou a confusão ao cúmulo. Não tendo terminado a sessão, devolveram o dinheiro ao público. Mas como tinham sido dados muitos bilhetes de favor, e o caixa constatasse um déficit de setecentos francos, ficou provado que setenta assistentes gratuitos tinham saído com dez francos a mais no bolso, sem dúvida para se indenizarem dos gastos do deslocamento. A polêmica que se estabeleceu a respeito dos irmãos Davenport oferece vários pontos instrutivos, que vamos examinar. A primeira pergunta que os próprios espíritas se fizeram é esta: Esses senhores são ou não são médiuns? Todos os fatos relatados em sua biografia entram no círculo das possibilidades mediúnicas, porque efeitos análogos, notoriamente autênticos, muitas vezes foram obtidos sob a influência de médiuns sérios. Se os fatos, por si mesmos, são admissíveis, as condições nos quais se produzem, é preciso convir, se prestam à suspeição. A que choca logo à primeira vista é a necessidade da obscuridade que, evidentemente, facilita a fraude; mas isto não seria uma objeção razoável. Os efeitos mediúnicos absolutamente nada têm de sobrenatural; todos, sem exceção, são devidos à combinação dos fluidos próprios do Espírito e do médium; esses fluidos, embora imponderáveis, não deixam de ser matéria sutil. Há, pois, aí uma causa e um efeito de certo modo materiais, o que sempre nos fez dizer que os fenômenos espíritas, por se basearem nas leis da Natureza, nada têm de miraculosos. Como tantos outros fenômenos, só nos pareceram miraculosos porque não se conheciam suas leis. Hoje conhecidas essas leis, desaparecem o sobrenatural e o maravilhoso, dando lugar á realidade. Assim, não há um só espírita que se atribua o dom dos milagres; é o que saberiam os críticos, se se dessem ao trabalho de estudar aquilo de que falam. Voltando à questão da obscuridade, sabe-se que em química há combinações que não podem operar-se à luz; que ocorrem composições e decomposições sob a ação do fluido luminoso. Ora, sendo todos os fenômenos espíritas, como dissemos, o resultado de combinações fluídicas, e sendo esses fluidos matéria, nada haveria de admirar que, em certos casos, o fluido luminoso fosse contrário a essa combinação. Uma objeção mais séria é a pontualidade com a qual os fenômenos se produzem, em dias e horas certos e à vontade. Esta submissão ao capricho de certos indivíduos é contrária a tudo quanto se sabe da natureza dos Espíritos, e a repetição facultativa de um fenômeno qualquer sempre foi considerada, e em princípio deve ser considerada, como legitimamente suspeita, mesmo em caso de desinteresse e, com mais forte razão, quando se trata de exibições públicas, feitas com fins especulativos, e às quais repugna à razão pensar que Espíritos possam submeter-se. A mediunidade é uma aptidão natural inerente ao médium, como a faculdade de produzir sons é inerente a um instrumento; mas, assim como se precisa de um músico para que um instrumento toque uma ária, necessita-se de Espíritos para que um médium produza efeitos mediúnicos. Os Espíritos vêm quando querem e quando podem, donde resulta que o médium mais bem dotado por vezes nada obtém; é como um instrumento sem músico. É o que se vê todos os dias; é o que acontecia ao Sr. Home, que muitas vezes ficava meses inteiros sem nada produzir, a despeito de seu desejo, ainda que em presença de um soberano.
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