Livros Espíritas
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Assistimos a esta transformação, ao conflito que resulta da luta das idéias contrárias, que procuram implantar-se. Umas marcham com a bandeira do passado, outras com a do futuro. Se se examinar o estado atual do mundo, reconhecer-se-á que, tomada em seu conjunto, a Humanidade terrestre ainda está longe do ponto intermediário, em que as forças se contrabalançam; que os povos, considerados isoladamente, estão a uma grande distância uns dos outros, nesta escada; que alguns alcançam este ponto, mas nenhum ainda o ultrapassou. Aliás, a distância que o separa dos pontos extremos está longe de ser igual em duração, e uma vez transposto o limite, o novo caminho será percorrido com tanto mais rapidez, quanto uma imensidão de circunstâncias o virão aplainar. Assim se realiza a transformação da Humanidade. Sem a emigração, isto é, sem a partida dos Espíritos retardatários, que não devem voltar, ou que só voltarão depois de se terem melhorado, nem por isto a Humanidade terrena ficará indefinidamente estacionária, porque os Espíritos mais atrasados por sua vez progridem; mas, teriam sido precisos séculos, talvez milhares de anos, para atingir o resultado que meio século bastará para realizar. Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor ainda o que se passa nessa circunstância. Suponhamos um regimento, em sua grande maioria composto de homens turbulentos e indisciplinados: estes provocarão incessantes desordens, que a severidade da lei penal muitas vezes terá dificuldade em reprimir. Esses homens são os mais fortes, porque mais numerosos; sustentam-se, encorajam-se e se estimulam pelo exemplo. Os poucos bons não têm influência; seus conselhos são desprezados; são ultrajados, maltratados pelos outros e sofrem este contato. Não é a imagem da sociedade atual? Imaginemos que tais homens sejam retirados do regimento, um a um, cem a cem, e substituídos por igual número de bons soldados, mesmo pelos que tiverem sido expulsos, mas que se tenham emendado seriamente: ao cabo de algum tempo ter-se-á sempre o mesmo regimento, mas transformado; a boa ordem nele terá sucedido a desordem. Dar-se-á o mesmo com a Humanidade regenerada. As grandes partidas coletivas não apenas terão como objetivo ativar as saídas, mas transformar mais rapidamente o espírito da massa, desembaraçando-a das más influências, e dar maior ascendente às idéias novas. Eis por que muitos partem, a despeito de suas imperfeições, a fim de se retemperarem numa fonte mais pura, porque estão maduros para esta transformação. Se tivessem ficado no mesmo meio e sob as mesmas influências, teriam persistido em suas opiniões e em sua maneira de ver as coisas. Basta uma estada no mundo dos Espíritos para lhes abrir os olhos, porque aí vêem o que não podiam ver na Terra. O incrédulo, o fanático, o absolutista poderão, assim, voltar com idéias inatas de fé, de tolerância e de liberdade. Em seu regresso, encontrarão as coisas mudadas e sofrerão o ascendente do novo meio onde nascerem. Em vez de fazer oposição às idéias novas, serão seus auxiliares. Assim, a regeneração da Humanidade não necessita absolutamente da renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais. Esta modificação se opera em todos os que a isto forem predispostos, quando subtraídos à influência perniciosa do mundo. Nem sempre os que voltarem serão outros Espíritos, mas, muitas vezes, os mesmos Espíritos, pensando e sentindo diversamente. Quando essa melhora é isolada e individual, passa desapercebida e não tem influência ostensiva no mundo. Outro será o efeito, quando operada simultaneamente em grandes massas, porque, então, conforme as proporções, em uma geração as idéias de um povo ou de uma raça poderão ser modificadas profundamente. É o que se nota quase sempre depois dos grandes abalos que dizimam as populações. Os flagelos destruidores só destroem o corpo, mas não atingem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, em conseqüência, o movimento progressivo dos Espíritos encarnados e desencarnados. É um desses movimentos gerais que se opera neste momento, e que deve desencadear o remanejamento da Humanidade. A multiplicidade das causas de destruição é um sinal característico dos tempos, porque deve apressar a eclosão dos novos germes. São as folhas de outono que caem, e às quais sucederão novas folhas, cheias de vida, pois a Humanidade tem as suas estações, como os indivíduos as suas idades. As folhas mortas da Humanidade caem, levadas pela ventania, para renascer mais vivazes, sob o mesmo sopro de vida, que não se extingue, mas se purifica. Para o materialista, os flagelos destruidores são calamidades sem compensação, sem resultados úteis, porquanto, segundo ele, aniquilam os seres sem retorno. Mas para o que sabe que a morte apenas destrói o envoltório, eles não têm as mesmas conseqüências e não lhe causam o menor pavor, porque compreende o seu objetivo e sabe também que os homens não perdem mais morrendo em conjunto do que isoladamente, uma vez que, de uma ou de outra maneira, é preciso sempre lá chegar. Os incrédulos rirão destas coisas e as tratarão como quimeras. Mas, digam o que disserem, não escaparão à lei comum; cairão por sua vez, como os outros e, então, o que acontecerá? Dizem: nada. Mas viverão, a despeito de si mesmos, e um dia serão forçados a abrir os olhos. Nota – A comunicação seguinte nos foi dirigida durante a viagem que acabamos de fazer, da parte de um de nossos caros protetores invisíveis. Embora tenha um caráter pessoal, também se liga à grande questão que acabamos de tratar, e que a confirma. Por isso é colocada aqui. As pessoas perseguidas em razão de suas crenças espíritas nela encontrarão úteis encorajamentos. “Paris, 1o de setembro de 1866. “Já faz bastante tempo que não me mostro em vossas reuniões, dando uma comunicação assinada com o meu nome. Não julgueis, caro mestre, que seja por indiferença ou por esquecimento, mas eu não via necessidade de manifestar-me e deixava a outros mais dignos o cuidado de vos dar instruções úteis. Entretanto lá estava e seguia com o maior interesse os progressos desta cara Doutrina, à qual devo a felicidade e a calma dos últimos anos de minha vida. Eu lá estava, e o meu bom amigo, o Sr. T... vos deu mais de uma vez a certeza, durante as suas horas de sono e de êxtase. Ele inveja minha felicidade e também aspira a vir para o mundo que habito agora, quando o contempla brilhando no céu estrelado e refere o seu pensamento às suas rudes provas. “Eu também as tive muito penosas. Graças ao Espiritismo eu as suportei sem me queixar e as bendigo agora, pois lhes devo o meu adiantamento. Que ele tenha paciência. Dizei-lhe que para cá virá um dia, mas que antes ainda deve voltar à Terra, para vos ajudar na inteira realização de vossa tarefa. Mas, então, como tudo estará mudado! Imaginar-vos-ei ambos num mundo novo. “Meu amigo, enquanto puderdes, repousai o espírito e o cérebro fatigados pelo trabalho; reuni forças materiais, pois em breve muito tereis que gastar. Os acontecimentos, que de agora em diante vão suceder-se com rapidez, vos chamarão à liça. Sede firme de corpo e de espírito, a fim de estardes em condições de lutar com vantagem. Então será preciso trabalhar sem descanso. Mas, como já vos disseram, não estareis só para levar o fardo; auxiliares sérios aparecerão, quando for tempo. Escutai, pois, os conselhos do bom doutor Demeure e evitai toda fadiga inútil ou prematura. Aliás, lá estaremos para vos aconselhar e advertir. “Desconfiai dos dois partidos extremos que agitam o Espiritismo, quer para o prender ao passado, quer para precipitar sua corrida para frente. Temperai os ardores prejudiciais e não vos deixeis sofrear pelas tergiversações dos timoratos, ou, o que é mais perigoso, mas que infelizmente é muito verdadeiro, pelas sugestões dos emissários inimigos. “Marchai com passo firme e seguro, como tendes feito até agora, sem vos inquietar com o que digam à direita ou à esquerda, seguindo a inspiração dos vossos guias e da vossa razão, e não vos arriscareis fazer sair dos trilhos o carro do Espiritismo. Muitos empurram esse carro cobiçado, para precipitarem sua queda. Cegos e presunçosos! ele passará, apesar dos obstáculos, e não deixará no abismo senão os seus inimigos e os que o invejam, embaraçados por terem servido ao seu triunfo. “Os fenômenos vão surgir de todos os lados, sob os mais variados aspectos, e já surgem. Mediunidade curadora, moléstias incompreensíveis, efeitos físicos inexplicáveis pela Ciência, tudo se reunirá num futuro próximo, para assegurar nossa vitória definitiva, para a qual concorrerão novos defensores. “Mas, quantas lutas ainda a sustentar e, também, quantas vítimas! não sangrentas, sem dúvida, mas feridas em seus interesses e em suas afeições. Mais de um desfalecerá ao peso das inimizades, desencadeadas contra tudo quanto leve o nome de espírita. Mas, também, ditosos os que tiverem conservado sua firmeza na adversidade! Por isto serão bem recompensados, mesmo aqui, materialmente. As perseguições são as provas da sinceridade de sua fé, de sua coragem e de sua perseverança. A confiança que tiverem posto em Deus não será vã. Todos os sofrimentos, todos os vexames, todas as humilhações que tiverem suportado pela causa serão títulos, dos quais nenhum será perdido.
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(22) Vide O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV.
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(20) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 527.
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