Livros Espíritas
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Além dessas vastas solidões, com efeito, irradiam mundos magnificentes, tanto quanto nas regiões acessíveis às investigações humanas; para lá desses desertos, vagam esplêndidos oásis no éter límpido, renovando incessantemente as cenas admiráveis da existência e da vida. Sucedem-se lá os agregados longínquos de substância cósmica, que o profundo olhar do telescópio entrevê através de regiões transparentes do nosso céu e a que dais o nome de “nebulosas irresolúveis”, as quais vos parecem ligeiras nuvens de poeira branca, perdidas num ponto desconhecido do espaço etéreo. Lá se revelam e se desenvolvem mundos novos, cujas condições variadas e diversas das que são peculiares ao vosso globo lhes dão uma vida que as vossas concepções não podem imaginar, nem os vossos estudos comprovar. É lá que resplandece em toda a sua plenitude o poder criador. Aquele que vem das regiões que o vosso sistema ocupa se depara com outras leis em ação, cujas forças regem as manifestações da vida. E os novos caminhos que se nos apresentam em tão singulares regiões nos abrem surpreendentes perspectivas.⁵⁹
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(⁵⁹) Nota de Allan Kardec: Dá-se em Astronomia o nome de nebulosas irresolúveis àquelas em que ainda não se puderam distinguir as estrelas que as compõem. Foram, a princípio, consideradas acervos de matéria cósmica em vias de condensação para formar mundos; hoje, porém, geralmente se entende que essa aparência é devida ao afastamento e que, com instrumentos bastante poderosos, todas seriam resolúveis. Uma comparação familiar pode dar ideia, embora muito imperfeita, das nebulosas resolúveis: são os grupos de centelhas projetadas pelas bombas dos fogos de artifício no momento de sua explosão. Cada uma dessas centelhas nos representará uma estrela, e o conjunto delas a nebulosa, ou grupo de estrelas reunidas num ponto do espaço e submetidas a uma lei comum de atração e de movimento. Vistas de certa distância, mal se distinguem essas centelhas, tendo o grupo por elas formado a aparência de uma nuvenzinha de fumaça. Esta comparação não seria exata se se tratasse de massas de matéria cósmica condensada. A nossa Via Láctea é uma dessas nebulosas. Tem perto de 30 milhões de estrelas ou sóis [vide nota de rodapé 55], que ocupam nada menos de algumas centenas de trilhões de léguas de extensão e, entretanto, não é a maior. Suponhamos somente uma média de 20 planetas habitados circulando em torno de cada sol: teremos 600 milhões de mundos só para o nosso grupo. Se nos pudéssemos transportar da nossa nebulosa para outra, aí estaríamos como em meio a nossa Via Láctea, porém com um céu estrelado de aspecto completamente diverso, e este, apesar das suas dimensões colossais, nos pareceria, de longe, um pequenino floco lenticular perdido no infinito. Mas, antes de atingirmos a nova nebulosa, seríamos qual viajante que deixa uma cidade e percorre vasta região desabitada, antes que chegue a outra cidade. Teríamos transposto espaços incomensuráveis desprovidos de estrelas e de mundos, o que Galileu denominou os desertos do espaço. À medida que avançássemos, veríamos a nossa nebulosa afastar-se atrás de nós, diminuindo de extensão às nossas vistas, ao mesmo tempo que, diante de nós, se apresentaria aquela para a qual nos dirigíssemos, cada vez mais distinta, semelhante à massa de centelhas da bomba de fogos de artifício. Transportando-nos pelo pensamento às regiões do espaço além do arquipélago da nossa nebulosa, veremos em torno de nós milhões de arquipélagos semelhantes e de formas diversas contendo cada um milhões de sóis e centenas de milhões de mundos habitados. Tudo o que nos possa identificar com a imensidade da extensão e com a estrutura do Universo é de utilidade para a ampliação das ideias, tão restringidas pelas crenças vulgares. Deus se engrandece aos nossos olhos à medida que melhor compreendemos a grandeza de suas obras e nossa extrema pequenez. Estamos longe, como se vê, da crença que a Gênese mosaica implantou e que fez da nossa pequenina, imperceptível Terra, a criação principal de Deus, e dos seus habitantes os únicos objetos da sua solicitude. Compreendemos a vaidade dos homens que creem que tudo no Universo foi feito para eles e dos que ousam discutir a existência do Ser supremo. Dentro de alguns séculos, causará espanto que uma religião feita para glorificar a Deus o tenha rebaixado a tão mesquinhas proporções e que haja repelido, como concepção do espírito do mal, as descobertas que somente vieram aumentar a nossa admiração pela sua onipotência, iniciando-nos nos grandiosos mistérios da Criação. O espanto será ainda maior quando souberem que essas descobertas foram repelidas porque emancipariam o espírito dos homens e tirariam a preponderância dos que se diziam representantes de Deus na Terra.
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