Livros Espíritas
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Foi na face em branco da folha que ele encontrou a ária, composta segundo o método e os sinais do tempo. As palavras são escritas com extrema precisão, cada sílaba colocada exatamente sob a nota correspondente. O todo está escrito a lápis. A escrita é muito fina, mas muito clara e muito legível; a forma das letras é característica: é a que se vê nos manuscritos da época. O Sr. Bach não era céptico, nem materialista e, ainda menos, ateu; mas, como muita gente, pertencia à numerosa classe dos indiferentes, muito pouca preocupada com as questões filosóficas. Só conhecia o Espiritismo de nome. Aquilo que acabava de testemunhar despertou sua atenção; longe de não ousar aprofundar o mistério, disse de si para si: aprofundemo-lo. Leu obras espíritas, começou a perceber e foi com o objetivo de ter mais amplas informações que nos honrou com sua visita. Hoje o fato não tem mais mistérios para ele e lhe parece muito natural; além disso, está muito feliz com a fé e os novos conhecimentos que a circunstância lhe permitiu adquirir. Eis o que ganhou. Sabe perfeitamente que nem a música, nem a letra, podiam vir dele; não duvidava que lhe tivessem sido ditadas pela personagem que lhe havia aparecido; mas se perguntava quem as tinha podido escrever, ou se não poderia ter sido ele mesmo em estado sonambúlico, conquanto jamais tivesse sido sonâmbulo. A coisa era possível, mas, admitindo-a, apenas provava melhor a independência da alma, como todos os fatos desse gênero, tão curiosos e tão numerosos e com os quais, no entanto, a Ciência jamais se preocupou. Uma particularidade parece destruir esta opinião, a de que a escrita não guarda nenhuma relação com a do Sr. Bach; seria preciso, no estado sonambúlico, que ele mudasse sua letra habitual para tomar a do século dezesseis, o que não é presumível. Seria brincadeira de alguém de sua casa? Mas, admitindo tal intenção, ele tem certeza de que ninguém tinha os conhecimentos necessários para a executar. Ora, se ele, que sonhara, tinha apenas uma lembrança insuficiente para transcrever a letra e a música, como uma pessoa estranha se teria recordado melhor? O cuidado com o qual a coisa estava escrita teria, aliás, exigido muito tempo e requerido uma grande habilidade prática. Outro ponto importante a esclarecer era o fato histórico dessa primeira paixão do rei, a que nenhuma história faz menção, e que lhe teria inspirado esse cântico melancólico. Tendo o filho do Sr. Bach se dirigido a um de seus amigos adido à biblioteca imperial, a fim de saber se existiria algum documento a respeito, foi-lhe respondido que, se o existisse, só poderia ser no jornal da Estoile, que se publicava na época. Pesquisas feitas imediatamente levaram à descoberta da passagem acima relatada. A mãe de Henrique III, temendo o domínio que aquela mulher, de um espírito superior, pudesse exercer sobre o seu filho, a fez enclausurar e depois matar. O rei não se conformou com essa perda, da qual conservou profunda magoa durante a toda a vida. Não é singular que esse canto relate precisamente um fato ignorado de todos e, por conseguinte, do Sr. Bach, e que mais tarde se ache confirmado por um documento da época, escondido numa biblioteca? Esta circunstância tem uma importância capital, pois prova de maneira irrecusável que a letra não pode ser uma composição do Sr. Bach, nem de nenhuma pessoa da casa. Toda suposição de fraude cai diante desse fato material. Só o Espiritismo podia dar a chave desse fato, pelo conhecimento da lei que rege as relações do mundo corporal com o mundo espiritual. Aí nada existe de maravilhoso nem de sobrenatural. Todo o mistério está na existência do mundo invisível, composto das almas que viveram na Terra, e que não interrompem suas relações com os sobreviventes. Mostrai a alguém, ignorante de eletricidade, que se pode corresponder a duzentas léguas em alguns minutos, e isto lhe parecerá miraculoso; explicai a lei da eletricidade e ele achará a coisa muito natural. Dá-se o mesmo com todos os fenômenos espíritas. Numa sessão da Sociedade Espírita de Paris, à qual assistia o Sr. Bach, o Espírito que lhe havia aparecido deu as explicações seguintes sobre o fato que acabamos de relatar. (Sociedade Espírita de Paris, 9 de junho de 1865 – Médium: Sr. Morin) P. – [Ao guia espiritual do médium]. Podemos chamar o Espírito que se manifestou ao Sr. Bach? Resp. – Meu filho, a grave questão que levou a essa manifestação espontânea é muito natural. Deve ser resolvida esta noite, a fim de não deixar qualquer dúvida sobre a maneira pela qual a música foi feita. O Espírito está aí e responderá muito claramente às perguntas que lhe forem dirigidas. P. – [Ao Espírito que se manifestou ao Sr. Bach]. Já que quisestes vir até nós, antecipando-se ao nosso apelo, nós vos seremos reconhecidos se nos derdes a explicação do fenômeno que se produziu por vossa intervenção. Também desejaríamos saber por que o Sr. Bach foi escolhido de preferência para esta manifestação e que participação teve na produção do fenômeno? Resp. – Agradeço a benevolência com que me acolheis entre vós. Compreendo a importância que dais a esse fato, que, entretanto, não vos deve espantar, já que esse gênero de manifestação é hoje quase geral e conhecido por muita gente. Inicialmente, respondo à vossa primeira pergunta. O Sr. Bach foi escolhido por duas razões: a primeira é a simpatia que me une a ele; a segunda é toda no interesse da Doutrina Espírita. Situado como está no mundo, sua idade, sua longa carreira tão honradamente exercida, suas relações com a imprensa e o mundo erudito, dele fizeram o melhor instrumento para dar publicidade a fatos que, até hoje, só eram impressos em jornais espíritas. Já vos disseram muitas vezes que era chegado o dia em que o Espiritismo, conquistando imunidade em toda parte onde há raciocínio, lógica e bom-senso, seria aceito mesmo nos jornais que o denegriram. Quanto à segunda questão: sim, tendes razão de procurar saber, a fim de não serdes vítimas de equívocos. O transporte – pois é um transporte – foi feito e dele participa o Espírito, que sou eu, e o Sr. Bach, no sonho puro e só em relação com os Espíritos. Nota – Esta última frase tem sua explicação no artigo adiante, sobre os sonhos. Eu trouxe ao Sr. Bach o papel de música, que obtive numa peça vizinha de seu quarto, e então a música foi escrita pelo próprio Espírito Bach, que se serviu de seu corpo como meio de transmissão. Eu escrevi a letra, que conhecia. A obra assim feita pode ser considerada como complemento espiritual, visto como o Sr. Bach, em seu sonho, estava quase que completamente desmaterializado. P. – Qualquer pessoa dotada de mediunidade teria servido nesta circunstância? Resp. – Não, certamente, porque se o Sr. Bach não tivesse reunido todas as qualidades requeridas, é provável que nem ele nem eu tivéssemos sido escolhidos para essa propagação. P. – Como se serviu o Sr. Bach de seu corpo para escrever a música? Tê-lo-ia feito em estado de sonambulismo? Resp. – Eu disse que ele se tinha servido de seu corpo como meio de transmissão, porque seu Espírito ainda está encarnado e não pode agir como Espírito desencarnado. O Espírito encarnado só pode servir-se de seus membros, e não do seu perispírito, pois é o mesmo perispírito que mantém o Espírito ligado ao corpo. P. – Podeis dizer quem compôs a letra? Resp. – Se tivesse sido eu, minha grande dose de orgulho lhe guardaria a honra. Mas não; expliquei-me claramente, dizendo: “Escrevi a letra, que conhecia.” Essa letra, assim como a música, são, realmente, como vos foi dito, composição e inspiração própria de meu então senhor, o rei Henrique. P. – Seria indiscrição pedir que nos esclarecêsseis sobre a vossa personalidade e nos dissésseis o que éreis sob Henrique III? Resp. – Nunca há indiscrição, desde que esteja em jogo um ensinamento moral. Responderei que, tendo partido de minha terra, que era Florença, vim à França e fui introduzido na corte por uma princesa que, tendo-me ouvido cantar, quis agradar ao delfim, pois que ainda o era, fazendo que ouvisse o pobre trovador. O prazer foi tão vivo que resolveram pôr-me à sua disposição, e eu fiquei muito tempo junto a ele a título de músico, mas, na realidade, como amigo; porque ele me quis muito e eu lhe fiz bem. Tendo morrido antes dele, adquiri então a certeza de seu apego a mim, pelo pesar que sentiu com a minha perda. Meu nome foi pronunciado aqui: eu era Baltazarini. A Sra. Delanne, que assistia à sessão, recebia pela audição respostas idênticas às que eram dadas ao Sr. Morin. No dia seguinte, em sua casa, ela escreveu a comunicação seguinte, que confirma e completa a de Baltazarini. “Quando é chegada a hora, Deus se serve de todos os meios para fazer penetrar a ciência divina em todas as classes da sociedade. Seja qual for a opinião que se professe em relação às idéias novas, cada um deve servir à causa, ainda que à sua revelia, no meio onde está colocado. Tendo o Espírito Bach vivido sob Henrique III, e tendo sido ligado à pessoa do rei, como amigo íntimo, gostava apaixonadamente de ouvir esses versos e, sobretudo, a música. Preferia a espineta aos outros instrumentos; é por isso que o Espírito que lhe apareceu, e que é mesmo o de Baltazarini, serviu-se desse instrumento, a fim de trazer o Espírito Bach à época em que vivia e lhe mostrar, bem como à Ciência, que a doutrina da reencarnação é confirmada todos os dias por novas provas. O fato da música só teria sido insuficiente para forçar o Sr.
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(22) N. do T.: Grifo nosso.
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