Livros Espíritas
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Tendo subido de um salto, às 4:24 o balão elevou-se a 700 metros. Foi então que rebentou e começou a descer com velocidade maior do que aquela com que subira e às 4:27 afundou-se pela casa número 20 do beco do Cavaleiro, em Saint-Ouen. “Depois de ter atirado fora tudo quanto podia complicar a situação, diz-nos o Sr. Cottin,(132) apossou-se de mim uma espécie de quietação, de inércia talvez; mil recordações remotas afluem, comprimem-se, chocam-se diante da minha imaginação; depois as coisas acentuam-se e o panorama de minha vida vem desenrolar-se diante do meu espírito atento. É tudo exato: os castelos no ar, as decepções, a luta pela existência; e tudo isso dentro do caixilho inexorável imposto pelo destino... Quem acreditará, por exemplo, que eu me tornei a ver, aos vinte anos, sargento no 22º de Linha?... Tornei a ver-me de mochila às costas na estrada de Vendôme. Em menos de três minutos vi desfilar toda a minha vida diante da memória.” Podem explicar-se esses fenômenos por um princípio de exteriorização. Nesse estado, como na vida do espaço, a subconsciência une-se à consciência normal e reconstitui a consciência total, a plenitude do “eu”. Por um instante, restabelece-se a associação das idéias e dos fatos, reata-se a cadeia das recordações. Pode-se obter o mesmo resultado pela experimentação; mas, então, o sujet precisa ser auxiliado em suas pesquisas por uma vontade superior à dele em poder, que se lhe associa e lhe estimula os esforços. Nos fenômenos do transe é esse papel desempenhado ou pelo Espírito-guia ou pelo magnetizador, cujo pensamento atua sobre o sujet como uma alavanca. As duas vontades, combinadas, sobrepostas, adquirem, então, uma intensidade de vibrações que põe em abalo as camadas mais profundas e mais ocultas do subconsciente. Outro ponto essencial deve prender a nossa atenção. É o fato, estabelecido por toda a ciência fisiológica, de existir íntima correlação entre o físico e o mental do homem. A cada ação física corresponde um ato psíquico e vice-versa. Ambos são registrados ao mesmo tempo na memória subconsciente de tal maneira que um não pode ser evocado sem que surja imediatamente o outro. Essa concordância aplica-se aos menores fatos da nossa existência integral, tanto no que diz respeito ao presente, como no que toca aos episódios do passado mais remoto. A compreensão desse fenômeno, pouco inteligível para os materialistas, é-nos facilitada pelo conhecimento do perispírito ou invólucro fluídico da alma. É nele que se gravam todas as nossas impressões, e não no organismo físico composto de matéria inconsistente, incessantemente variável nas suas células constitutivas. O perispírito é o instrumento de precisão que aponta com fidelidade absoluta as menores variações da personalidade. Todas as volições do pensamento e todos os atos da inteligência têm nele a sua repercussão. Os seus movimentos e os seus estados vibratórios distintos deixam nele traços sucessivos e sobrepostos. Certos experimentadores compararam esse modo de registro a um cinematógrafo vivo sobre o qual se fixam sucessivamente nossas aquisições e recordações. Desenrolar-se-ia por uma espécie de empuxo ou abalo causado quer pela ação de uma sugestão, quer por uma auto-sugestão, ou então em conseqüência de um acidente, como vimos. A influência do pensamento sobre o corpo já nos é revelada por fenômenos observáveis em nós mesmos e em volta de nós. O medo paralisa os movimentos; a admiração, a vergonha e o susto provocam a palidez ou o rubor; a angústia aperta-nos o coração, a dor profunda faz-nos correr as lágrimas e pode causar com o tempo uma depressão vital. Aí estão outras tantas provas manifestas da ação poderosa da força mental sobre o invólucro material. O Hipnotismo, desenvolvendo a sensibilidade do ser, demonstra-nos ainda com maior nitidez a ação reflexa do pensamento. Vimos que a sugestão de uma queimadura pode produzir num sujet tantas desordens como a própria queimadura. Provoca-se, à vontade, a aparição de chagas, estigmas, etc.(133) Se o pensamento e a vontade podem exercer tal influência sobre a matéria corporal, compreender-se-á que essa influência seja ainda maior e produza efeitos mais intensos quando for aplicada à matéria fluídica, imponderável, de que o perispírito é formado. Menos densa, menos compacta que a matéria física, obedecerá com muito mais flexibilidade, mais docilidade, às menores volições do pensamento. É em virtude dessa lei que os Espíritos podem aparecer com qualquer das formas que revestiram no passado e com todos os atributos da individualidade extinta. Basta-lhes pensarem com vigor numa fase qualquer das suas existências para se mostrarem aos videntes, tais quais eram na época evocada em sua memória; e, embora a força psíquica necessária lhes seja fornecida em pequena quantidade por um ou mais médiuns, as materializações tornam-se possíveis. O Coronel de Rochas, conseguindo, em suas experiências, insular o corpo fluídico, demonstrou ser ele a sede da sensibilidade e das recordações.(134) O Hipnotismo e a Fisiologia combinados permitem-nos, de ora em diante, estudar a ação da alma despida do seu invólucro grosseiro e unida ao corpo sutil; não tardarão em ministrar-nos os meios de elucidarmos os mais delicados problemas do ser. A experimentação psíquica encerra a chave de todos os fenômenos da vida; está destinada a renovar inteiramente a ciência moderna, lançando luz viva sobre grande número de questões obscuras até ao presente. Vamos ver agora, nos fenômenos hipnóticos e particularmente no transe, que as impressões registradas pelo corpo fluídico de maneira indelével formam íntimas associações. As impressões físicas estão ligadas às impressões morais e intelectuais, de tal modo que não é possível chamar umas sem aparecerem as outras. A sua reaparição é sempre simultânea. Essa íntima correlação do físico e do moral, na sua aplicação às lembranças gravadas em nós, é demonstrada por experiências numerosas. Citemos primeiro as de sábios positivistas, que, apesar de suas prevenções a respeito de toda teoria nova, a confirmam sem darem por isso. Pierre Janet, professor de Fisiologia na Sorbonne, expõe os fatos que se seguem.(135) As experiências são feitas em seu sujet, Rosa, adormecido: “Sugiro a Rosa que não estamos em 1888, mas em 1886, no mês de abril, para verificar simplesmente modificações de sensibilidade que poderiam produzir-se; mas, nisso, produz-se um acidente muito singular. Ela geme, queixa-se de estar cansada e de não poder andar. – Então, que é que tem? – pergunto-lhe. – Oh! não é nada... Em que estado me acho! – Que estado? Responde-me com um gesto. O ventre crescera-lhe de repente e distendera-se por um acesso súbito de timpanite histérica. Sem saber, eu a transportara a um período da sua vida, em que ela estava grávida. Estudos mais interessantes foram feitos em Maria por esse meio. Pude, fazendo-a voltar sucessivamente a diferentes períodos da sua existência, verificar todos os diversos estados da sensibilidade pelos quais ela passou e as causas de todas as modificações. Assim, está agora completamente cega do olho esquerdo e pretende que assim se encontra desde que nasceu. Fazendo-a voltar à idade de sete anos, verifica-se que padece ainda anestesia no olho esquerdo; mas, se lhe sugerir que tem seis anos, nota-se que vê bem com ambos os olhos e pode-se determinar a época e as circunstâncias bem curiosas em que perdeu a sensibilidade do olho esquerdo. A memória realizou automaticamente um estado de saúde do qual o sujet julgava não haver conservado nenhuma recordação.” A possibilidade de despertar na consciência de um sujet em estado de transe as recordações esquecidas de sua infância conduz-nos, logicamente, à renovação das recordações anteriores ao nascimento. Essa ordem de fatos foi pela primeira vez assinalada no Congresso Espírita de Paris, em 1900, por experimentadores espanhóis. Fazemos um extrato do relatório lido na sessão de 25 de setembro:(136) “Entrando o médium em sono profundo por meio de passes magnéticos, Fernandez Colavida, presidente do Grupo de Estudos Psíquicas de Barcelona, ordenou-lhe que dissesse o que tinha feito na véspera, na antevéspera, uma semana, um mês, um ano antes e, sucessivamente, fê-lo remontar até à infância e descrevê-la com todos os pormenores. Sempre impulsionado pela mesma vontade, o médium contou a sua vida no espaço, a sua morte na última encarnação e, continuamente estimulado, chegou até quatro encarnações, a mais antiga das quais era uma existência inteiramente selvagem. Em cada existência, as feições do médium mudavam de expressão. Para trazê-lo ao estado habitual, fez-se com que voltasse gradualmente até à sua existência atual; depois foi despertado. Algum tempo depois, de improviso, com o intento de contraprova, o experimentador fez magnetizar o mesmo paciente por outra pessoa, sugerindo-lhe que as suas precedentes descrições eram histórias. Sem embargo da sugestão, o médium reproduziu a série das quatro existências como o fizera antes. O despertar das recordações e o seu encadeamento foram idênticos aos resultados obtidos na primeira experiência.” Na mesma sessão desse Congresso, Esteve Marata, presidente da União Espírita de Catalunha, declara ter obtido fatos análogos pelos mesmos processos, sendo paciente, em estado de sono magnético, sua própria esposa. A propósito de uma mensagem dada por um Espírito e que tinha relação com uma das vidas passadas do sujet, ele pôde despertar, na consciência dela, os vestígios das suas existências anteriores.
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(132) Extraído de Le Spiritisme et l'Anarchie, por J. Bouvery, pág. 405.
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(133) Ver No Invisível, cap. XX.
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(134) Ver A. de Rochas - L'Extériorisation de la Sensibilité.
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Nota 4:
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(135) P. Janet - L'Automatisme Psychologique, pág. 160.
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(136) Ver Compte rendu du Congrès Spirite et Spiritualiste de 1900, Leymarie, editor, págs. 349 e 350.
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