Livros Espíritas
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Mas isto fica para discussão em outro ponto deste livro. Por ora, basta dizer que, embora o analista não ignorasse tais aspectos, pela sua formação doutrinária espírita - não sabemos em que nível e profundidade -, devia saber que havia ali fenômenos anímicos e fenômenos mediúnicos ou espíritas. Mantinha, contudo, sua postura técnica, e encaminhava suas conclusões avaliadoras para o terreno árido, mas 'científico' e 'seguro', da psicanálise ortodoxa e catalogava os episódios como produtos do inconsciente da moça. E daí? - perguntava-se ela. Como resolver aqueles conflitos, ainda que admitida a tese consagrada pelo terapeuta? Estaria ela irremediavelmente condenada a um progressivo agravamento de sua condição a ponto de tornar-se uma alienada? Após dois anos de assídua freqüência ao consultório do analista, a situação continuava a mesma. Os fenômenos se produziam com crescente intensidade e freqüência e ela prosseguia vivendo duas realidades, sendo que cada vez mais na realidade II, a subjetiva, a Íntima, alienante, em vez da realidade I, a objetiva e penosa, do mundo material. A certa altura, ela concluiu que estava indo sem rumo a lugar nenhum e resolveu interromper o tratamento e suspender a ingestão de drogas. Durante esses dois anos de ansiada busca, jamais o analista (espírita, repetimos) mencionou de leve conceitos doutrinários ou terminologia espírita, como mediunidade, animismo, reencarnação, causa e efeito e outros. Manteve-se rigorosamente dentro da área profissional, limitado à instrumentação do seu aprendizado acadêmico, sem mesmo tentar introduzir qualquer noção doutrinária, ainda que como simples hipótese exploratória de trabalho. Dois ou três episódios curiosos e reveladores merecem destaque no relato desta experiência de Regina com o analista. Percebeu ela, ao cabo de algum tempo, que ele começou a demonstrar profundo interesse pela variada fenomenologia que ela apresentava. Chegou mesmo à realização de algumas experimentações, como, por exemplo, comunicar-se com ela telepaticamente, funcionando ele como emitente e ela como receptora. O sistema funcionou. Bastava que ele se concentrasse, desejando que ela lhe falasse ao telefone que, onde quer que se encontrasse, ela procurava um aparelho e ligava para ele, perguntando se ele a havia chamado, o que ele confirmava. De outras vezes, mesmo sem ser dia de consulta, ele propunha telepaticamente que ela fosse ao consultório, e ela comparecia, movida pelo impulso de ir. Talvez estimulado por essa receptividade da parte dela, tenha ele decidido experimentar também com a hipnose, de modo a penetrar mais profundamente no seu psiquismo. Parece que pretendia levá-la a uma regressão de memória com a intenção de explorar suas vivências infantis ou, quem sabe, saltar a barreira e aprofundar-se na memória integral, onde se acham protegidos pelo inconsciente os arquivos secretos das vidas anteriores. Paradoxalmente, ela não se revelou um bom sujet, como seria de se esperar: tentaram o procedimento várias vezes, sem êxito. Certo dia, porém, quando começava já a mergulhar na zona crepuscular da hipnose, ela viu a porta do consultório 'abrir-se' e entrar um espírito. Era uma mulher de estatura mediana, vestida como enfermeira ou médica, cabelos curtos cuidadosamente penteados à Romeu. Aproximou-se, postou-se à direita de Regina e lhe disse que estava ali para impedir que ela fosse hipnotizada, pois não lhe convinha submeter-se ao procedimento. Prontamente ela ficou em estado de alerta. Fora-se a sonolência que prenunciava o mergulho nos estados mais profundos da hipnose. Como o médico insistisse nos comandos, ela informou-lhe de que ele não conseguiria hipnotizá-la. Ante seu desejo de saber das razões, uma vez que ele usava o procedimento com regularidade (e êxito) com vários pacientes, ela contou o que presenciava. Estava ali, à sua direita, uma senhora para impedi-lo. Dizia-lhe, ainda, que o método não convinha a Regina e que ela se recusasse terminantemente a submeter-se à experiência. Por certo que haveria boas razões para isso, ainda que ignoradas. O analista ficou desapontado e na maior frustração. Não se sabe se propôs algum termo científico para mais aquela 'alucinação'. Certa vez, ela lhe disse que, embora referindo-se freqüentemente a uma irmã, ele era filho único, o que ele, admirado, confirmou. Seus pais haviam criado como filha uma prima dele que fora para sua casa ainda infante. Aí estava, pois, sua irmã (de criação). De outra vez, ela lhe falou sobre um acidente grave que ele sofrera quando ainda criança, também confirmado. Como Regina sabia disso? Provavelmente era informada durante seus freqüentes desdobramentos. Tais 'revelações' emergiam espontâneas e sem artificialismos ou 'montagens' especiais para impressionar. Nem era intenção de Regina impressioná-lo com fatos insólitos. Os fenômenos fluíam, tão autênticos como inesperados, e sem demonstrações espetaculares ou transes. Eram mencionados no decorrer da conversa, de passagem, como simples comentário sem maiores conseqüências. Daí, provavelmente, seu propósito de estudar mais a fundo aquele curioso psiquismo que guardava tantos segredos e mistérios. Regina decidiu, por esse tempo, que ali não havia nada do que ela buscava, ou seja, explicações que a ajudassem a entender e eventualmente resolver seus conflitos emocionais. Foi nessa fase que dois episódios da maior repercussão ocorreram na sua vida: a descoberta do espiritismo e o reencontro com a personagem central das suas vidências, que o analista preferira considerar alucinações ou fantasias subliminares. É o que veremos a seguir. 4. O REENCONTRO A evidência de que o método psicanalítico falhara com ela na tentativa de reordenar suas emoções causou-lhe decepção e angústia. Onde buscar, então, o socorro de que tanto necessitava? A situação agravou-se substancialmente a partir da identificação do homem que desempenhava tão importante papel nos seus sonhos. É bem verdade que ela sempre soube que ele era uma pessoa real e concreta e que, portanto, existia em algum lugar à sua espera. De repente viu-se diante dele, ao vivo, atropelada pelas emoções. Além do mais, se nutrira propósitos de uma eventual união, logo verificou essa impossibilidade, pois ele já assumira compromissos de família. O impacto desse encontro foi tão dramático que ela ficou dois dias recolhida, com febre. Parece ter experimentado ali uma regressão espontânea de memória provocada pela presença física dele. Ou uma espécie de psicometria? Talvez. O certo é que esse reencontro inesperado - e do qual ele não tomara conhecimento - acabou por abrir de vez as janelas através das quais ela, até então, havia contemplado cenas esparsas, como que observadas pelas frestas entreabertas. Além do esposo, via agora dois filhos e, em vez de mera observadora que assiste ao espetáculo da objetivação da memória, ela vivia de novo os episódios da vida doméstica com suas minúcias, alegrias e ternuras. Contemplava as crianças com os mesmos olhos e o mesmo coração de mãe e de tudo participava com as emoções frescas e vivas, como se aquilo fosse presente. E era. Lá fora daquele mundo ideal e feliz, contudo, permanecia à sua espera a dura realidade das lutas, da pobreza, do desconforto, das humilhações e da solidão. Era difícil conciliar as duas faces dissonantes da mesma realidade total. Muitas vezes desejou adormecer naquele sonho para nunca mais despertar. Mais grave que isso é que, quanto mais se refugiava nas visões de uma perdida felicidade no tempo e no espaço, mais se afastava da realidade I, como um barco que, solto das amarras, distancia-se das praias onde se chocava com as rochas. Por um imperceptível mas crescente processo de envolvimento, começou a ser dominada pelas visões. Já não mais as convocava ao sabor de sua vontade e de suas disponibilidades de tempo; elas ocorriam, agora, à sua revelia, impondo-se por si mesmas. Tinha, às vezes, a impressão de ser duas pessoas distintas. Uma, a personalidade que vivia aquela história, tinha um lar, marido e filhos; era branca, bonita, adornada por vasta cabeleira sedosa, inteligente e imensamente feliz. A outra lá estava, inarredável, à sua espera, cada vez que ela retornava da realidade II; era feia, estranha e - segundo ela - também burra, além de infeliz. Um verdadeiro estorvo. Não fosse aquela mulher tão desagradável, talvez ela pudesse viver, na sua plenitude, a vida do sonho. 5. TERAPIA DA CONVERSA Foi quando começou a temer pelo seu futuro. Já experimentava certa dificuldade em deixar o mundo paralelo para enfrentar os compromissos, carências e frustrações deste. Era preciso encontrar ajuda competente e com urgência, enquanto ainda estava lúcida e podia distinguir uma realidade da outra. Sentia, contudo, que no contexto da psicanálise clássica não teria muita chance de encontrar o socorro de que tanto necessitava, pois sua experiência anterior fora uma decepção, como vimos. Recorreu aos amigos espirituais, no caso ao Dr. Bezerra de Menezes, com o qual, diz ela, "não tinha nenhuma intimidade"! Pedia-lhe que a "ajudasse, em nome de uma pessoa que sabia ser muito amiga dele". Foi, assim, um fenômeno mediúnico que a encaminhou a alguém que procurava ajudar companheiros em dificuldade, não com teorias esdrúxulas e rótulos eruditos, mas com os singelos postulados da doutrina dos espíritos e os conceitos fundamentais dos ensinamentos do Cristo.
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