Livros Espíritas
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do Espiritismo (Ver o número de fevereiro de 1868) Tendo-nos sido dirigidas várias perguntas a respeito das comunicações sobre os messias, publicadas no último número da Revista, julgamos dever completá-las por alguns desenvolvimentos, que farão compreender melhor o seu sentido e o seu alcance. 1o – Como a primeira dessas comunicações recomendasse guardar segredo até nova ordem, embora a mesma coisa fosse ensinada em diferentes regiões, se não quanto à forma e as circunstâncias de detalhes, ao menos pelo fundo da idéia, perguntaram-nos se os Espíritos, num consentimento geral, tinham reconhecido a urgência desta publicação, o que teria uma significação de certa gravidade. A opinião da maioria dos Espíritos é um poderoso controle para o valor dos princípios da Doutrina, mas não exclui o do julgamento e da razão, cujo uso sério todos os Espíritos recomendam. Quando o ensino se generaliza espontaneamente sobre uma questão, num determinado sentido, é indício certo de que essa questão chegou ao seu tempo; mas a oportunidade, no caso de que se trata, não é uma questão de princípio e julgamos não dever esperar o conselho da maioria para esta publicação, já que a sua utilidade nos estava demonstrada. Seria puerilidade crer que, fazendo abnegação de nossa iniciativa, não obedecêssemos, como instrumento passivo, senão a um pensamento que se nos impunha. A idéia da vinda de um ou de vários messias era mais ou menos geral, mas encarada sob pontos de vista mais ou menos errôneos, por força das circunstâncias de detalhes, contidos em certas comunicações, e de uma assimilação demasiado literal, por parte de alguns, com as palavras do Evangelho sobre o mesmo assunto. Esses erros podiam ter inconvenientes materiais, cujos sintomas já se faziam sentir; importava, pois, não deixar que se propagassem. Eis por que julgamos útil dar a conhecer o verdadeiro sentido no qual essa previsão era entendida pela maioria dos Espíritos, retificando, assim, pelo ensinamento geral, o que o ensino isolado podia ter de parcialmente defeituoso. 2o – Disseram que os messias do Espiritismo, vindo após a sua constituição, apenas secundário seria o seu papel, e se perguntaram se este era bem o caráter dos messias. Aquele que Deus encarrega de uma missão pode vir utilmente quando o objeto de sua missão está realizado? Não seria como se o Cristo tivesse vindo depois do estabelecimento do Cristianismo, ou como se o arquiteto encarregado da construção de uma casa chegasse quando esta estivesse construída? A revelação espírita deveria realizar-se em condições diferentes de suas irmãs mais velhas, porque as condições da Humanidade não são as mesmas. Sem voltar ao que foi dito a respeito dos caracteres desta revelação, lembramos que em vez de ser individual, ela devia ser coletiva e, ao mesmo tempo, produto do ensino dos Espíritos e do trabalho inteligente do homem; não devia ser localizada, mas fincar raízes simultaneamente em todos os pontos do globo. Esse trabalho se realiza sob a direção dos grandes Espíritos, que receberam missão de presidir à regeneração da Humanidade. Se não cooperam na obra como encarnados, nem por isso deixam de dirigir os trabalhos como Espíritos, como disso temos as provas. Seu papel de messias, portanto, não se apagou, pois que o realizam antes de sua encarnação e não é senão maior. Sua ação, como Espíritos, é mesmo mais eficaz, porque podem estendê-la a toda parte, ao passo que, como encarnados, é necessariamente circunscrita. Hoje eles fazem, como Espíritos, o que o Cristo fazia como homem: ensinam, mas pelas mil vozes da mediunidade; a seguir virão fazer, como homens, o que o Cristo não pôde fazer: instalar sua doutrina. A instalação de uma doutrina chamada a regenerar o mundo não pode ser obra de um dia, e a vida de um homem não bastaria para isto. Primeiro é preciso elaborar os princípios ou, se se quiser, confeccionar o instrumento; depois limpar o terreno dos obstáculos e lançar os primeiros fundamentos. Que fariam esses Espíritos na Terra durante o trabalho, de certo modo material, de limpeza? Sua vida se consumiria nessa luta. Assim, eles virão mais utilmente quando a obra estiver elaborada e o terreno preparado; a eles, então, incumbirá pôr a última demão ao edifício e o consolidar; numa palavra, fazer frutificar a árvore que tiver sido plantada. Mas, enquanto esperam, não estão inativos: dirigem os trabalhadores. A encarnação não será, pois, senão uma fase de sua missão. Só o Espiritismo podia fazer compreender a cooperação dos Espíritos da erraticidade numa obra terrestre. 3o – Além disso, perguntaram se não seria para temer que o anúncio desses messias não tentassem alguns ambiciosos, que se atribuiriam pretensas missões, e realizariam esta predição: Haverá falsos cristos e falsos profetas? A resposta disto é muito simples; está inteirinha no capítulo XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo. Lendo esse capítulo, ver-se-á que o papel do falso cristo não é tão fácil quanto se poderia supor, porque aqui é o caso de dizer que o hábito não faz o monge. Em todos os tempos houve intrigantes que se quiseram fazer passar por aquilo que não eram; sem dúvida podem imitar a forma exterior, mas, quando se trata de justificar o fundo, sucede com eles o que se dá com o jumento vestido com pele de leão. Diz o bom-senso que Deus não pode escolher seus messias entre os Espíritos vulgares, mas entre os que sabe capazes de realizar seus desígnios. O que pretendesse ter recebido tal favor deveria, então, justificá-lo pela eminência de suas capacidades e de suas virtudes, e sua presunção seria o primeiro desmentido dado a essas mesmas virtudes. Que diriam de um versejador que se desse como o príncipe dos poetas? Dar-se por cristo ou messias seria dizer-se o homem mais virtuoso do Universo, e não se é virtuoso quando não se é modesto. É verdade que a virtude é simulada pela hipocrisia; mas há uma coisa que desafia toda imitação: é o gênio, porque deve afirmar-se por obras positivas; quanto à virtude de fachada, é uma comédia que não se pode representar muito tempo sem se trair. Na primeira linha das qualidades morais que distinguem o verdadeiro missionário de Deus, deve-se colocar a humildade sincera, o devotamento sem limites e sem segundas intenções, o desinteresse material e moral absoluto, a abnegação da personalidade, virtudes pelas quais não brilham nem os ambiciosos, nem os charlatães, que, antes de tudo, buscam a glória ou o lucro. Podem ter inteligência e dela precisam para vencer pela intriga; mas não é essa inteligência que coloca o homem acima da Humanidade terrestre. Se o Cristo voltasse a encarnar na Terra, viria com todas as suas virtudes. Se, pois, alguém se desse por ele, deveria igualá-lo em tudo. Uma só qualidade de menos bastaria para desmascarar a impostura. Assim como se reconhece a qualidade da árvore por seu fruto, o verdadeiro messias será reconhecido pela qualidade de suas obras, e não por suas pretensões. Não são os que se proclamam, porque, talvez, eles próprios se ignorem; vários estarão na Terra sem ter sido reconhecidos. É vendo o que terão sido e o que terão feito que os homens dirão, como disseram do Cristo: Aquele devia ser um messias. Há cem pedras-de-toque para reconhecer os messias e os profetas de contrabando. A definição do caráter dos que são verdadeiros é antes feita para desencorajar os contrafatores, do que para os excitar a representar um papel que não têm força para desempenhar, e só lhes acarretaria dissabores. É, ao mesmo tempo, dar aos que tentassem abusar os meios de evitar serem vítimas de sua velhacaria. 4o – Parece que algumas pessoas temeram que a qualificação de messias espalhasse sobre a Doutrina um verniz de misticismo. Para quem conhece a Doutrina, ela é, de ponta a outra, um protesto contra o misticismo, pois tende a reconduzir todas as crenças para o terreno positivo das leis da Natureza. Mas, entre os que não a conhecem, há pessoas para as quais tudo o que sai da humanidade tangível é místico. Não temos que nos preocupar com a sua opinião. A palavra messias é empregada pelo Espiritismo em sua acepção literal de mensageiro, enviado, abstração feita da idéia de redenção e de mistério, particular aos cultos cristãos. O Espiritismo não tem que discutir esses dogmas, que não são de sua alçada; diz o sentido no qual emprega essa palavra, para evitar qualquer equívoco, deixando cada um crer conforme a sua consciência, que não procura perturbar. Assim, para o Espiritismo, todo Espírito encarnado para cumprir uma missão especial junto à Humanidade é um messias, na acepção geral da palavra, isto é, um missionário ou enviado, com a diferença, entretanto, que o vocábulo messias implica mais particularmente a idéia de uma missão direta da Divindade e, conseqüentemente, a da superioridade do Espírito e da importância da missão. Daí se segue que há uma distinção a fazer entre os messias propriamente ditos, e os Espíritos simples missionários. O que os distingue é que, para uns, a missão ainda é uma prova, porque podem falir, enquanto para os outros é um atributo de sua superioridade. Do ponto de vista da vida corporal, os messias entram na categoria das encarnações ordinárias de Espíritos, e a palavra não tem qualquer caráter de misticismo.
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