Livros Espíritas
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Os trabalhadores da desobsessão não devem ignorar a realidade da magia negra, a fim de não serem tomados de surpresa nas suas tarefas redentoras. Com frequência, terão oportunidade de observar tentativas de envolvimento do grupo e de seus componentes, ou de pessoas que dele se socorrem, promovidas por antigos magos e feiticeiros que, no mundo espiritual, persistem nas suas práticas e rituais. Extremamente complexo e delicado, especialmente porque é escassa, nesse particular, a literatura doutrinária de confiança existente, o assunto precisa ser abordado com muita prudência e lucidez. O tema não ficou indiferente a Kardec, como podemos verificar do exame das questões números 551 a 557, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, sob o título “Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros”. Os Instrutores do eminente Codificador colocaram a questão naquele clima de prudência e lucidez de que há pouco falávamos. Obviamente, a época não estava madura para o aprofundamento do problema, nem seria isto apropriado no livro básico da Doutrina Espírita, cujo escopo era o de entregar aos homens uma síntese didática acerca do Espírito e suas manifestações, do seu relacionamento com Deus e com o Universo. Disseram, porém, o suficiente para formular- se um juízo sobre a matéria, levando em conta as superstições que prevaleciam àquele tempo. Foram muito sóbrios os Espíritos, limitando-se a respostas sumárias que, não obstante, deixaram aberturas para futuros desdobramentos. Ensinaram, por exemplo, que um “homem mau” não poderia, “com o auxílio de um mau Espírito que lhe seja dedicado, fazer mal ao seu próximo”, porque “Deus não o permitiria”. A despeito da notável economia de palavras, o pensamento contido nesse período é, ao mesmo tempo, amplo e exato. Naquilo que Deus não o permite, realmente, nada podem fazer os Espíritos ainda voltados para o mal — e essa é a nossa proteção, pois o que seria de nós se tudo lhes fosse permitido? Quando, porém, nos credenciamos a esse amparo? Talvez seja melhor reformular a questão: Quando nos tornamos vulneráveis e, portanto, expostos à cobrança? A partir do momento em que nos atritamos com as leis divinas, colocando-nos, portanto, não fora de sua proteção, não abandonados por Deus, mas submetidos às consequências de nossas próprias ações. É assim que um Espírito faltoso coloca-se, por exemplo, ao alcance de dores inomináveis, como a da obsessão. Realmente, seria desastroso que qualquer Espírito desajustado pudesse fazer conosco o que bem entendesse, mas estejamos certos de que, ao cometer nossos desatinos, abrimos a eles as portas da nossa intimidade. O próprio Cristo advertiu-nos de que, se não nos reconciliássemos com os nossos adversários, eles nos levariam ao juiz, e o juiz nos mandaria à prisão, donde somente seríamos liberados depois de cumprida toda a pena, até o último centavo. Quanto à crença no poder de enfeitiçar, os Espíritos foram cautelosos, declarando que tais fatos são naturais, mal observados e, sobretudo, mal compreendidos, mas que “algumas pessoas dispõem de grande força magnética, de que podem fazer mau uso, se maus forem seus próprios Espíritos, caso em que possível se torna serem secundados por outros Espíritos maus”. Sobre as fórmulas, esclarecem que todas são mera charlatanaria, e prosseguem: “Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.” Kardec, no entanto, insistiu, com a pergunta 554, assim formulada: “Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa confiança, visto que, então, o que atua é o pensamento, não passando o talismã de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?” “É verdade — respondem os Espíritos —; mas, da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do Espírito que é atraído.” Do que se depreende que o talismã, em si, nada vale, mas funciona como uma espécie de condensador de energias psíquicas emanadas do operador que, pelo pensamento, atrai os seres desencarnados que lhe são afins. Realmente, como muito bem observa Kardec, em nota de sua autoria, em seguida à Questão número 555, “O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela imaginação.” Lamentavelmente não temos ainda um estudo aprofundado dessa curiosa temática, mas é certo que o Espiritismo tem condições para desmistificar muito da complicada e, às vezes, ingênua ritualística da magia, retirando-lhe a aura de mistério e ocultismo, para explicá-la em termos de conhecimento científico, aberto, racional, dentro do contexto das leis naturais. O Espiritismo não ignora o fenômeno, nem o nega, como vimos. A Doutrina empenha-se em negar é o caráter sobrenatural que alguns procuram atribuir aos fenômenos, bem como as inúteis complicações dos ritos, fórmulas, invocações, posturas, símbolos, apetrechos e instrumentos de que se valem os operadores, que não passam de médiuns agindo em consonância com seus companheiros desencarnados. Sobre a influência dos astros, por exemplo, ensina Emmanuel12 que: — “As antigas assertivas astrológicas têm a sua razão de ser. O campo magnético e as conjunções dos planetas influenciam no complexo celular do homem físico, em sua formação orgânica e em seu nascimento na Terra; porém, a existência planetária é sinônimo de luta. Se as influências astrais não favorecem a determinadas criaturas, urge que estas lutem contra os elementos perturbadores, porque, acima de todas as verdades astrológicas, temos o Evangelho, e o Evangelho nos ensina que cada qual receberá por suas obras, achando-se cada homem sob as influências que merece.” Dentro dessa mesma linha de pensamento, reconhece, o esclarecido mentor, as influências que podem exercer, sobre Espíritos encarnados ou desencarnados, os nomes que recebem, por causa da “simbologia sagrada das palavras”. Também os números “possuem a sua mística natural”, segundo suas vibrações. Os próprios objetos armazenam energias que ainda não estão bem definidas para nós. — “Os objetos — responde Emmanuel à questão número 143 —, mormente os de uso pessoal, têm a sua história viva e, por vezes, podem constituir o ponto de atenção das entidades perturbadas, de seus antigos possuidores no mundo; razão por que parecem tocados, por vezes, de singulares influências ocultas, porém, nosso esforço deve ser o da libertação espiritual, sendo indispensável lutarmos contra os fetiches, para considerar tão somente os valores morais do homem na sua jornada para o Perfeito.” 12 O CONSOLADOR, questão numero 140. O assunto mereceu também observações, ainda que sumárias, de André Luiz, em EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS — livro que talvez ainda levemos meio século para desdobrar em todas as suas implicações. Diz o autor espiritual que, a certo ponto da história evolutiva... — ... “Iniciou-se o correio entre o plano físico e o plano extrafísico, mas, porque a ignorância embotasse ainda a mente humana, os médiuns primitivos nada mais puderam realizar que a fascinação recíproca, ou magia elementar, em que os desencarnados, igualmente inferiores, eram aproveitados, por via magnética, na execução de atividades materialonas, sem qualquer alicerce na sublimação pessoal.” E prossegue: — “Apareceu então a goecia ou magia negra, à qual as inteligências superiores opuseram a religião por magia divina, acentuando-se a formação da mitologia em todos os setores da vida tribal.” “A luta entre os Espíritos retardados na sombra e os aspirantes da luz encontrou seguro apoio nas almas encarnadas que lhes eram irmãs. Desde essas eras recuadas, empenham-se o bem e o mal em tremendo conflito que ainda está muito longe de terminar, com base na mediunidade consciente ou inconsciente, técnica ou empírica”. Essa digressão introdutória tornou-se indispensável para que a nossa penetração no lusco-fusco da magia conte com um suporte de bom senso e racionalismo, a funcionar como fio de Ariadne, que nos permita transitar pelos seus meandros, sem o menor temor de perder o caminho de volta. Não resta dúvida de que os fenômenos elementares de magia reportam-se às eras primitivas, como nos assegura André Luiz. Embora os autores especializados procurem distinguir magia de feitiçaria — e ainda veremos isto um pouco adiante — a Enciclopédia Britânica lembra que o termo inglês para esta última — witchcraft — quer dizer a arte ou ofício do sábio, de vez que a raiz semântica da primeira seção da palavra — witch — está associada com a palavra wit, saber . Realmente, os magos, originários, segundo Lewis Spence13, da antiga Pérsia, eram cultores da sabedoria de Zoroastro. Possivelmente da raça média, adquiriram enorme prestígio, especialmente, ao que parece, depois que Ciro os institucionalizou, ao fundar o império persa, sobre o qual exerceram considerável influência político-religiosa. É evidente que esse prestígio tinha que ser alicerçado em rico acervo de conhecimentos, pois o homem sempre respeita e, às vezes, teme aquele que sabe. “Religião, filosofia e ciência — escreve Spence — estavam todas em suas mãos. Eram médicos universais que curavam os doentes do corpo e do espírito e em estrita consistência com essas características, socorriam as mazelas do Estado que é apenas o homem em sentido mais amplo”.
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