Livros Espíritas
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Regina o vê sair dessa reunião furioso, mas impotente. Não tinha como desafiar o poderio da Igreja. Aí termina o sonho ... C) CAPÍTULOS EGÍPCIOS DA 'NOVELA' Já as duas existências em Anjou lhe foram narradas em mais de uma oportunidade, em desdobramento consciente, por um espírito tranqüilo e amável que fora, em uma daquelas vidas, o notário que dera forma e conteúdo jurídico às disposições testamentárias do duque em favor da camponesa com a qual se casara. A narrativa foi feita ao ar livre - Regina diz que nos próprios jardins do castelo - debaixo de uma árvore de dois troncos que se bifurcavam a partir do solo, formando um V. O simpático notário encerrou o relato da romântica história com expressões tipicamente jurídicas: - Tudo isto é verdade - disse ele - e dou fé. E eu sei. Eu fui o notário! Em outra recordação, ela se vê em um hospital. Desta vez é uma freira-enfermeira. Veste um hábito branco, amarrado por um cordão à cintura, do qual pende um rosário. Sobre uma cama está uma menina de quatorze ou quinze anos de idade. É esguia, clara e loura. E linda. Regina sabe que ela sofre de uma doença incurável e está agonizante, mas ainda lúcida. Encontra-se também ali um homem que ela supõe ser médico, mas tem certeza de que é eterna personagem dos seus sonhos e vidências, o milenar amado de muitas vidas. O assunto da conversa é a menina, obviamente. Regina sabe que a jovem é tida como bastarda. Seus pais nem mesmo são oficialmente conhecidos. No entanto, é filha da própria Regina e do médico, embora ela não se lembre, depois, em vigília, em que circunstâncias a teria concebido, ainda que e soubesse enquanto esteve mergulhada na vivência do episódio. - Não é justo que ela morra assim, humilhada, sem saber - diz a freira ao homem - Ela tem o direito de saber. Temos de dizer-lhe a verdade. Ela tem pai, afinal de contas. É justo que tenha essa última alegria antes de morrer. Regina se lembra, ao acordar, que nenhum sentimento de remorso ou pecado a perturbava. Estava tranqüila, ainda que penalizada pelo sofrimento da menina. Não sabe se teria ficado grávida no convento - o que seria muito sério - ou se isto acontecera antes e a família a teria feito desfazer-se da criança antes de encaminhá -la para o convento, como se fez durante tantos séculos. Está convicta, contudo, de que servia ali, naquele hospital ou casa de caridade, como religiosa e enfermeira. Em uma existência no antigo Egito, ela se vê como esposa do faraó, na verdade a Grande Esposa Real, ou seja, a primeira, pois o filho dela é que estava destinado a ser o sucessor do pai, como prescreviam as leis locais. Mais uma vez - das muitas - ela e o amado são arrastados, irresistivelmente, pelo fortíssimo campo magnético que se criara entre eles ao longo de tantos séculos. Segundo seu desdobramento, ele era um sacerdote e costumavam encontrar-se em uma passagem secreta subterrânea que ligava o templo ao palácio. Foram apanhados lá (alguma denúncia?), e ela diz que ambos foram degolados sumariamente. Em outra existência, ainda no Egito, ela é preterida junto ao amado de sempre em favor de sua própria irmã, em casamento decidido pelo pai de ambas, como de hábito. Não houve o que convencesse o pai a mudar o esquema: nem choros, nem protestos, nem apelos! A irmã é que se casou com seu amado. Mudaram-se (a irmã e o marido) para local mais ou menos distante, que ela não identifica. Regina não conseguiu dominar a sensação de ódio pela irmã. Além do mais, a ditadura paterna fê-la casar-se com um jovem vizinho, pessoa excelente, rico e de marcante personalidade e que, ademais, a amava profundamente. Casou-se. Não tinha alternativa. O marido tudo fazia para agradá-la, mas o coração dela não estava ali. O ódio que dedicava à irmã transferiu-se, em parte, para o marido, como se ele também fosse responsável pela sua desgraça. Com o tempo, não obstante, ela passou a uma atitude de fria e calculada indiferença, na qual incluía também o filho que tiveram nesse casamento. Certa vez a irmã veio, com o marido e as filhas, visitá-la. Eram duas meninas, uma de três e outra de cinco anos de idade. O filho de Regina, o único, aliás, ainda era bebê a essa altura, e ela pôde observar o quanto ainda odiava a irmã e como era profundo seu ressentimento em relação ao seu próprio marido. Decidiu não receber a irmã, mas o pai a obrigou a mais esse penoso sacrifício. Jamais esqueceria a cena: ela, o marido, muito constrangidos, e as crianças. Tramou um plano sinistro de vingança. Levou as meninas para passear e não sabe ao certo o que ocorreu, pois sua censura Íntima bloqueou a lembrança da tragédia em sua memória de vigília. Ela se lembra de ter saído com as crianças de casa. Daí em diante, apenas fragmentos inconclusivos, nos quais percebe, vagamente, um templo e um volume de água. Teria afogado as crianças? É o que parece. De volta ao corpo, após essa tétrica vidência onírica, estava ainda consciente de tudo, inclusive da tragédia com as meninas, porém algo muito curioso aconteceu. Ela tomou com a mão um objeto, que não sabe o quê, mas parecia uma 'boneca de pano' ou ainda uma trouxinha destinada a apagar ou limpar alguma coisa. Aproximou-se de corpo físico, ainda desdobrada e consciente. Como sempre, via o cérebro todo iluminado, como uma casa de força com inúmeras lampadazinhas acesas. Munida do tal objeto, foi tocando em certos pontos específicos do cérebro físico, como que apagando certas memórias ali depositadas. Ela sabia perfeitamente que a partir do momento em que saíra de casa para passear com as meninas não deveria mais lembrar-se de nada, no corpo físico, ou seja, no estado de vigília. Era como se estivesse aplicando, cuidadosamente, sobre determinados pontos de uma fita magnética, a ponta sutil e precisa de um desmagnetizador eletrônico ou de uma anestesia que insensibilizasse os pontos críticos. Em seguida, assumiu os controles do corpo e despertou, ainda com a certeza de que havia apagado deliberadamente certos pormenores que, certamente, lhe seriam muito penosos e perturbadores de lembrar. Por mais que se concentrasse no assunto, somente tinha a 'boiar', nos oceanos da memória remota, as vagas imagens de um templo e certo volume de água. Isto se 'encaixa' com precisão na estrutura e na dinâmica proposta em A memória e o tempo, segundo a qual o inconsciente é o depósito das lembranças das vidas anteriores: o subconsciente, o arquivo da vida atual; e o consciente, a unidade de passagem como um cabeçote de gravador que tanto grava como lê as fitas do nosso cassete pessoal. Regina acabara de trazer do inconscieme para o subconsciente lembranças que estariam, dali em diante, à disposição do consciente, se não fossem neutralizadas. Por isso - provavelmente instruída a respeito - desmagnetizou os pontos mais traumatizantes, deixando no subconsciente apenas a essência da história, o suficiente para levá-la ao esforço de perdoar a antiga irmã cuja única 'culpa' fora a de ter amado o mesmo homem que ela amava. A antiqüíssima irmã egípcia também foi identificada na vida atual. E foi exatamente a sensação de inexplicável rejeição que experimentou pela mulher que resultou na consulta aos arquivos da memória integral. Regina se lembra de que, mal terminara a regressão, seu amigo espiritual de sempre lhe disse: - "Você jamais a perdoou. Daí a atual aversão. Você não acha que já é tempo de perdoar?" Outra observação instrutiva. Embora haja apagado do cérebro físico, a lembrança de detalhes perturbadores, a consciência de Regina lhe diz ele, claramente que ela fez algo de terrível com aquelas crianças. Foi uma vingança irracional, como todas as vinganças, agravada por uma crueldade fria e calculada, motivada pelo que ela considerava uma traição. Afinal de conta a moça não tem tanta culpa. Também ela gostava do jovem e a decisão de se casar com ele fora tomada pelo pai, autoridade incontestável naqueles longínquos tempos, ao considerar que, sendo a irmã bem mais velha do que Regina, teria poucas possibilidades de arranjar outro casamento. É até possível que ela tivesse manobrado por trás dos bastidores para que isso acontecesse, porque o grande ressentimento de Regina baseava-se no fato de que a irmã, sabedora do seu imenso amor e que ambos já se haviam prometido casamento (a irmã era sua confidente, pois Regina fora criada sem a mãe, que morrera quando ela ainda era bebê e mal começava a andar), poderia ter evitado o casamento. Mas isto não justifica a crueldade de Regina. Mesmo sem saber dos detalhes, é evidente que o gesto ainda lhe dói na consciência. Ela reconhece perfeitamente que foi uma atitude lamentável e espera já ter resgatado, após tantas existências sofridas, o crime cometido no Egito contra duas criaturas que mal se iniciavam na aventura de viver. Mas isto ela pensa hoje. Naquela época, a paixão, o ciúme, o rancor que trazia no coração - paradoxalmente, por amor -, levaram-na a ver nas duas meninas apenas um instrumento de vingança, trágica e mesquinha ao mesmo tempo. D) A DIDÁTICA DO PASSADO
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