Livros Espíritas
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Por isso mesmo, os homens e as mulheres, cuja alma se vai libertando dos cativeiros da forma física, escapam, gradativamente, do império absoluto das sensações carnais. Para eles, a união sexual orgânica vai deixando de ser uma imposição, porque aprendem a trocar os valores divinos da alma, entre si, alimentando-se reciprocamente, através de permutas magnéticas, não menos valiosas para os setores da Criação Infinita, gerando realizações espirituais para a eternidade gloriosa, sem qualquer exigência dos atritos celulares. Para esse gênero de criaturas, a união reconfortadora e sublime não se acha circunscrita à emotividade de alguns minutos, constituindo a integração de alma com alma, através da vida inteira, no campo da Espiritualidade Superior. Diante dos fenômenos da presença física, bastam-lhes, na maioria das vezes, o olhar, a palavra, o simples gesto de carinho e compreensão, para que recebam o magnetismo criador do coração amado, impregnando-se de força e estímulo para as mais difíceis edificações. Imprimiu Alexandre pequeno intervalo à palestra e, em seguida, abanando a cabeça, significativamente, observou: — Não há criação sem fecundação. As formas físicas descendem das uniões físicas. As construções espirituais procedem das uniões espirituais. A obra do Universo é filha de Deus. O sexo, portanto, como qualidade positiva ou passiva dos princípios e dos seres, é manifestação cósmica em todos os Círculos evolutivos, até que venhamos a atingir o campo da Harmonia Perfeita, onde essas qualidades se equilibram no seio da Divindade. Não ousei quebrar o silêncio que se seguiu. O venerando instrutor, engolfado em profundos pensamentos, não mais voltou ao assunto, compelindo-me, talvez, a meditações mais edificantes. Esperei, ansioso, o instante de tornar às observações do caso Segismundo. O estudo que encetara era verdadeiramente fascinador. Foi por isso, com justificada alegria, que recebi o convite de Alexandre para o regresso ao lar de Adelino. O bondoso orientador alegava que era preciso visitar o casal e o amigo em processo reencarnacionista, na véspera da primeira ligação com a matéria orgânica. Chegados à moradia nossa conhecida, encontramos Herculano e Segismundo em companhia de outras entidades. Alexandre informou-me tratar-se de Espíritos construtores, que iam cooperar na formação fetal do nosso amigo. Como da outra vez, banhava-se o ninho doméstico na luz crepuscular, mantendo-se a pequena família no mesmo ato de refeição. Adelino, porém, demonstrava diferente posição espiritual. Cercava-o claro ambiente de otimismo, delicadeza e alegria. Meu amável instrutor, muito satisfeito com a nova situação, passou a examinar os mapas cromossômicos, com a assistência dos construtores presentes. Em vão procurava compreender aqueles caracteres singulares, semelhantes a pequeninos arabescos, francamente indecifráveis ao meu olhar. Alexandre, porém, sempre gentil e benevolente, acentuou: — Este não é um estudo que você possa entender, por enquanto. Estou examinando a geografia dos genes nas estrias cromossômicas, a fim de certificar-me até que ponto poderemos colaborar em favor de nosso amigo Segismundo, com recursos magnéticos para a organização das propriedades hereditárias. Conformei-me e passei a observar Segismundo, que parecia extenuado, abatido. Não conseguia manter-se sentado. Assistido pela dedicação de Herculano, conversava dificilmente conosco, estirado numa cama, em grande prostração. Demonstrava-se satisfeito com a minha simpatia fraternal e, enquanto os demais lhe estudavam a situação, entretive com ele conversação rápida, que me deu a conhecer, mais uma vez, a penosa impressão dos que se encontram no limiar de nova experiência terrestre. — Já estive mais animado, — disse-me ele, triste; — entretanto, agora, falece-me a energia… Sinto-me fraco, incapacitado… Enquanto lutei por obter a transformação de meu futuro pai, experimentava mais confiança e serenidade… agora, porém… que consegui a dádiva do retorno à luta, tenho receio de fracassos novos… — Tenha calma, — respondi, confortando-o; — a sua oportunidade de redenção é das melhores. Além disso, muitos companheiros seguí-lo-ão de perto, colaborando em seu êxito no porvir. O interlocutor sorriu com dificuldade e observou: — Sim, reconheço. Dentre todos os irmãos que me assistem agora, Herculano me acompanhará com desvelo e constância… Bem sei. No entanto, o renascimento na carne, com os valores espirituais que já possuímos, representa um fato gravíssimo em nosso processo de elevação… Ai de mim, se cair outra vez!… Dirigia-lhe exortações de coragem e bom ânimo, quando o meu orientador, dando por findo o exame da documentação, aproximou-se de nós ambos e falou-lhe com afetuosa autoridade: — Segismundo, é incrível que desfaleça no momento culminante de suas atuais realizações. Restaure a sua fé, regenere a esperança, porque você não pode entrar na corrente material, à maneira dos nossos irmãos ignorantes e infelizes, que requisitam quase absoluto estado de inconsciência para penetrarem, de novo, o santuário maternal. Não deixe de cooperar com a sua confiança em nosso trabalho para o seu próprio benefício. Dê trabalho à sua imaginação criadora. Mentalize os primórdios da condição fetal, formando em sua mente o modelo adequado. Você encontrará na maternidade nobre de Raquel os mais eficientes auxílios e receberá, de nós outros a mais decidida colaboração; entretanto, lembre-se de que o seu trabalho individual será muito importante, no setor da adaptação e da recepção, para que triunfe na presente oportunidade. Não perca tempo em expectativas ansiosas, cheias de dores e apreensões. Levante o padrão de suas forças morais. Segismundo ouviu, respeitoso, a advertência. Reconheci que as palavras reconfortantes de Alexandre se fizeram seguir de maravilhoso efeito. Segismundo melhorou repentinamente, esforçando-se por alijar a carga de preocupações inúteis. Impressionado com o esclarecimento do prestimoso mentor, não hesitei em dirigir-lhe nova consulta. — Existem, então, — perguntei sob forte interesse, — aqueles que reencarnam inconscientes do ato que realizam? — Certamente, — respondeu ele, solícito, — assim também como desencarnam diariamente na Crosta milhares de pessoas sem a menor noção do ato que experimentam. Somente as almas educadas têm compreensão real da verdadeira situação que se lhes apresenta em frente da morte do corpo. Do mesmo modo, aqui. A maioria dos que retornam à existência corporal na Esfera do Globo é magnetizada pelos benfeitores espirituais, que lhe organizam novas tarefas redentoras, e quantos recebem semelhante auxílio são conduzidos ao templo maternal de carne como crianças adormecidas. O trabalho inicial, que a rigor lhes compete na organização do feto, passa a ser executado pela mente materna e pelos amigos que os ajudam de nosso Plano. São inúmeros os que regressam à Crosta nessas condições, reconduzidos por autoridades superiores de nossa Esfera de ação, em vista das necessidades de certas almas encarnadas, de certos lares e determinados agrupamentos. A explicação não podia ser mais lógica e, uma vez ainda, admirei no amoroso amigo o dom da clareza e da simplicidade. Demoramo-nos, por mais algum tempo, naquele ninho acolhedor e, ao despedir-se, quase à meia-noite, após reconfortar o Espírito de Segismundo, Alexandre dirigiu-se a Herculano e aos construtores, nestes termos: — Voltaremos na noite de amanhã, para a ligação inicial, fazendo a entrega de nosso irmão reencarnante aos nossos amigos. Um dos Espíritos Construtores, que parecia o chefe do grupo em operações, abraçou-o, comovidamente, e falou: — Contamos com o seu concurso para a divisão da cromatina no útero materno. — Com muito prazer! — Redarguiu, bem-humorado. Voltando a outras ocupações, não continha as ideias novas que a experiência de Segismundo despertava em mim. Como seria feito o auxílio naquelas circunstâncias? Raquel estaria consciente de nossa colaboração? Como interpretaria o casal as atividades de nosso Plano, caso viesse a conhecer a extensão de nossa tarefa? Alexandre, porém, incumbiu-se de interromper minhas indagações interiores, acrescentando, como se estivesse ouvindo os meus pensamentos: — Em casos dessa natureza, André, a nossa intervenção desenvolve-se com a mesma santidade que caracteriza o concurso de um médico responsável e honesto, ao praticar a intervenção no parto comum. A modelagem fetal e o desenvolvimento do embrião obedecem a leis físicas naturais, qual ocorre na organização de formas em outros reinos da Natureza, mas, em todos esses fenômenos, os ascendentes de cooperação espiritual coexistem com as leis, de acordo com os planos de evolução ou resgate. Nosso concurso, portanto, em processos tais, é uma das tarefas mais comuns. Compreendi a elevação do esclarecimento e pacifiquei a mente, esperando o dia seguinte. Escoadas, porém, as horas do dia, a curiosidade voltou a espicaçar-me. Em que momento deveríamos buscar a moradia de Adelino? Sem qualquer intenção menos digna, preocupava-me o instante da primeira ligação de Segismundo à matéria. Agiria Alexandre no momento da união sexual ou o fenômeno obedeceria a diferentes determinações? Meu orientador sorria em silêncio, compreendendo-me a tortura mental. As horas sucediam-se umas às outras e, observando-me a impaciência, Alexandre esclareceu-me, bondoso: — Não é necessária a nossa presença ao ato de união celular.
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[Vide no , um exemplo do que se passa quando um dos cônjuges, de reta conduta, consegue proteger o tálamo conjugal de ligações com entidades inferiores.]
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