Livros Espíritas
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Mesmo que alguém se aproximasse dela tentando fazer-se passar por ele - isto, aliás, nunca aconteceu - ela saberia distinguir o verdadeiro do falso. Além do mais, orava com freqüência, pedia assistência e proteção para que pudesse entender e controlar todo o conjunto de fenômenos, para ela desconhecidos, que ocorriam à sua volta. Queria compreender aquilo, saber que teorias e explicações haviam por trás de tantas experiências curiosas. Desejava saber como cultivar tais faculdades, o que fazer delas, como selecioná-las e discipliná-las. Se numa página psicografada o espírito pusesse uma assinatura, ela sabia perfeitamente que o nome não fora inventado por ela nem acrescentado por mero palpite. O manifestante que não desejasse assinar, não o fazia; o que quisesse fazê-la, identificava-se. Qual o problema? Nunca lhe passara pela cabeça que pudesse receber um soneto de Auta de Souza, no seu estilo, com sua métrica, no ritmo e com as imagens próprias da autora, tratando de temática elevada, respeitados todos os princípios doutrinários e a pequena peça literária não ser de Auta de Souza. Por quê? Estaria ela falsificando a poesia da grande escritora? Alguém invisível estaria fazendo isso? A troco de quê? E que falsário competente seria esse! E moralizado! Se advertiam, contudo, é porque desconfiavam de suas faculdades ou de sua honestidade pessoal. E aquilo a deixava não apenas confusa e desencantada, mas também insegura. Em suma: a crítica era desastrada e inibidora, em vez de ser cautelosa e construtiva. Aquilo marcou-a muito fundo. Com o tempo e ampliação de sua experiência, readquiriu a melhor parte da perdida confiança em si mesma. Nunca mais, porém, conseguiria considerar os fenômenos mediúnicos que por ela se produziam com a mesma tranqüila e espontânea segurança de outrora, quando recorria à sua própria crítica pessoal e aos seus raciocínios, a fim de avaliar os fenômenos insólitos, buscando em primeiro lugar a explicação mais óbvia, mais natural, menos sofisticada.. Ocasionalmente, valia-se da competente opinião de seu amigo espiritual, mas não se sentia à vontade para importuná-lo a cada momento, como se ele estivesse permanentemente à sua disposição. Tinha, contudo, íntima e inabalável convicção de que não estava fraudando, nem era vítima da ilusão ou de alucinações sensoriais. Sua mente continuava a funcionar normalmente; ela dava perfeita conta de todos os seus deveres profissionais e pessoais, comportava-se exemplarmente, não era dada a vícios de espécie alguma, entregava-se com regularidade à prece e à meditação. Por que e para que iria mistificar ou estimular a produção de fenômenos que, afinal de contas, muitas vezes, só lhe traziam dissabores e angústias, representavam mistérios impenetráveis ao seu entendimento ou estavam fora e além do seu próprio conhecimento? No estado de vigília jamais teria sido capaz de escrever, em minutos, um soneto no estilo de Auta de Souza ou de quem quer que fosse; ou uma comunicação como as de seu amigo ou do Dr. Bezerra, que traziam conceitos e informações que ela ignorava ou até contrariavam posturas pessoais dela. 18. O CRIVO DA RAZÃO A sensação de insegurança quanto à autenticidade de suas faculdades, colocadas sob suspeita e bloqueadas por freios e proibições, acabou por criar em seu espírito um exagerado sentimento de autocrítica que ela levaria muito tempo não para eliminar de todo, mas para superar. E aqui abordamos outro aspecto que vale a pena destacar. Claro que o médium não deve (e não pode, senão se perde) ser crédulo e irresponsável, aceitando como bom tudo quanto lhe ocorra, ou qualquer texto que produza, ou qualquer visão que tenha, simplesmente porque provém (ou assim ele supõe) dos espíritos. A realidade é bem outra. Se os fenômenos provêm dos espíritos, deve examiná-los com a maior atenção e senso crítico, para evitar envolvimentos indesejáveis e até obsessões, ainda menos desejáveis. Se são produtos de sua fantasia e automistificação, então a coisa é ainda mais grave, pois está sofrendo de distúrbios mentais ou emocionais. Terá de ter bom senso para identificar a falsidade e a coragem de rejeitá-la sumariamente, se é que deseja e pretende preservar sua própria integridade e identidade. Bom senso como? Se, por exemplo, um texto psicografado for confuso, inconclusivo, mal escrito, ridículo, fantasioso, é certo provir de espíritos desarmonizados e perturbados. Já tive oportunidade de ter em mãos textos assim, que pretendiam ser - segundo as assinaturas neles existentes, de autoria das maiores figuras do pensamento universal na filosofia e na teologia, como Sócrates, por exemplo. Faltou aí bom senso, como também espírito crítico, por mínimo que fosse, e sobrou confiança, ingenuidade ou vaidade. Faltou o "crivo da razão" de que nos falou Kardec. Não é nada difícil para um espírito (ou uma equipe deles) promover fenômenos insólitos em grupamentos humanos despreparados, fazer revelações pessoais, prever acontecimentos de pequena monta, que acabam por ocorrer mesmo, e até promover curas. Por meio de tais artifícios acabam por conquistar a confiança ilimitada dos incautos. Daí em diante, será simples continuidade, impingindo tranqüilamente instruções, impondo rituais, formulando doutrinas exóticas, criando até uma nova seita. A habilidade e a malícia de alguns desses espíritos só é superada pela ingenuidade e excesso de confiança dos encarnados que a eles se submetem. Sei de caso em que se identificaram, para uso externo, com nomes modestos e anônimos, 'revelando', contudo, a uns poucos iniciados, suas 'verdadeiras' identidades, estas, sim, rotuladas com alguns nomes do maior relevo histórico. O relacionamento torna-se uma espécie de deliciosa cumplicidade, na qual apenas alguns escolhidos a dedo 'sabem' com quem estão falando, ao passo que para a massa ignara prevalece o 'nome de guerra', modesto, obscuro, anônimo. Feito isso, é só produzir comunicações aparentemente eruditas, adornadas de revelações científicas, religiosas ou pessoais, sem esquecer fartos elogios aos presentes, a título de 'estímulo'. Aliás, cuidados muito especiais e severa atenção devem cercar esses aspectos das comunicações escritas ou faladas, em qualquer grupo, em que lugar for, seja qual for o médium ou o espírito que se diz seu autor. Cuidado com 'revelações' mais ou menos sensacionais, com informações acerca de vidas anteriores dos componentes do grupo e, principalmente, com elogios que o destinatário quase sempre considera justos e merecidos, mas que trazem o sutil e insidioso excitante da vaidade pessoal. Em mais de duas décadas de trabalho junto a grupos mediúnicos nunca ouvi de qualquer amigo espiritual um elogio sequer. Seria porque não correspondi às suas expectativas? É possível, mas se assim fosse, ter-me-iam dito com a mesma serenidade, educação e firmeza, que era melhor encerrar as tarefas ou procurar outras. Se uma vez ou outra mostraram-se agradecidos pela nossa modestíssima colaboração, limitaram-se a dizer que o trabalho era do Cristo, sem o qual não poderia ter sido jamais feito e, portanto, os resultados também a ele pertenciam. E devíamos estar muito felizes por servir, dado que o serviço, por si mesmo, já é um privilégio. Não estamos fazendo favor a ninguém em especial, senão a nós mesmos, ainda mais que cada tarefa tem, invariavelmente, sua própria lição, implícita ou explícita. É na imperfeição alheia que se reflete a nossa própria, como num espelho baço, mas suficiente para nos contemplarmos em toda a nossa inadequação. Não há, pois, de que se orgulhar. Portanto, cuidado com os elogios, os segredos, as identificações, as revelações e as profecias. 19. Os EXCESSOS DA AUTO CRÍTICA No caso de Regina, tais coisas não estavam acontecendo. Os amigos espirituais não exibiam identidades espetaculares, não lhe traziam revelações admiráveis nem promoviam fenômenos dramáticos para impressionar; muito menos, prodigalizavam-lhe elogios ou pegavam-na pela mão para resolver qualquer problema pessoal ou mesmo doutrinário. Limitavam-se a uma presença amorosa, confiante, tranqüila e indicavam- lhe o roteiro a seguir: estudo, observação, vigilância, prece constante, procedimento correto, pureza de sentimentos e a dose certa de humildade. Nas comunicações psicográficas que passaram a transmitir por intermédio dela, após a dramática cena no grupo suburbano, eram encontradas observações de caráter doutrinário e uma firme postura evangélica, sem artificialismos ou misticismos duvidosos. Tudo espontâneo, claro, sem rebuscamentos ou enfeites. Acostumada a essa convivência descontraída, embora atenta e confiante, mas não crédula, Regina ficou chocada com as suspeitas de que passou a ser alvo quando começou a exercer aquelas mesmas faculdades no centro que lhe foi indicado por quem tinha condições para isso. Já vimos que se tornou insegura e muito crítica quanto à sua própria mediunidade. E até um tanto inibida quanto ao seu exercício, que até então fora controlado, mas descontraído.
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