Livros Espíritas
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Poderíamos provar a insuficiência de uma causa puramente material para explicar o mal de Morzine por muitas outras comparações, que os próprios leitores farão. Que então se reportem aos nossos artigos precedentes sobre o mesmo assunto, ao que dizemos da maneira por que se opera a ação dos Espíritos obsessores, dos fenômenos resultantes dessa ação e a analogia ressaltará com a última evidência. Se, para os habitantes de Morzine, o desconhecido que interfere é o diabo é porque lhes disseram que era o demônio e eles só conheciam isto. Sabe-se, aliás, que certos Espíritos de baixo nível divertem-se em tomar nomes infernais para amedrontar. A este nome substituí em sua boca a palavra Espírito, ou, melhor ainda, Espíritos maus e tereis a reprodução idêntica de todas as cenas de obsessão e de subjugação que relatamos. É incontestável que, numa região onde imperasse a idéia do Espiritismo, os doentes se diriam impelidos pelos Espíritos maus e passariam por loucos aos olhos de muita gente, caso sobreviesse uma epidemia semelhante. Dizem que é o diabo; é uma afecção nervosa. É o que teria acontecido em Morzine, se o conhecimento do Espiritismo ali tivesse precedido a invasão dos Espíritos. Seus adversários protestariam; mas a Providência não lhes quis dar essa satisfação passageira: ao contrário, quis provar-lhes sua impotência para combater o mal pelos meios ordinários. Afinal de contas, recorreram ao afastamento das doentes, que foram levadas aos hospitais de Thonon, Chambéry, Lyon, Mâcon, etc. Era um bom recurso, porquanto, uma vez transferidas de Morzine, podiam jactar-se de que não existiam mais doentes na região. A medida podia basear-se num fato observado, o da cessação das crises fora da comuna; mas parece ter sido estribada em outra consideração: o isolamento das doentes. Aliás, a opinião do Dr. Constant é categórica. Diz ele: “Segundo um velho amigo meu, o Dr. Bouchut, deveria haver uma espécie de lazareto, onde pudessem ser escondidas, assim que se mostrassem, as desordens morais e nervosas, cuja propriedade contagiosa é estabelecida. Enquanto se aguarda coisa melhor, esse lazareto foi encontrado no asilo de alienados. É o único lugar realmente conveniente para o tratamento racional e completo das enfermas de que se trata, quer se admita seja sua doença uma forma, uma variedade de alienação, quer mesmo não admitindo que fossem, sob qualquer título, tomadas como alienadas. É necessário que nelas se produza um certo grau de intimidação; que seu espírito seja ocupado de modo a quase não deixar tempo para se entregarem a preocupações; subtraí-las absolutamente a toda influência religiosa irrefletida e desmedida, às conversas, conselhos ou observações susceptíveis de lhes fomentar o erro, que, ao contrário, deve ser combatido diariamente; dar-lhes um regime apropriado; enfim, obrigá-las a se submeterem às prescrições que seria útil associar a um tratamento puramente moral, e ter os meios de execução. Onde encontrar reunidas todas essas condições necessárias, essenciais, senão num hospício? Teme-se para essas doentes o contato com os verdadeiros alienados. Tal contato seria menos pernicioso do que se pensa e, afinal, teria sido fácil destinar uma ala provisória só para os doentes de Morzine. Se sua aglomeração tivesse qualquer inconveniente, poder-se-ia encontrar compensação na própria reunião; e estou convencido de que o nome de hospício, ou de asilo de loucos, por si só teria operado mais de uma cura e não haveria diabos que uma ducha não pusesse em fuga.” Estamos longe de partilhar do otimismo do Dr. Constant sobre a inocuidade do contato das alienadas e a eficácia das duchas em casos semelhantes. Ao contrário, estamos convencidos de que tal regime pode produzir uma verdadeira loucura, onde esta é apenas aparente. Ora, note-se bem que fora das crises as doentes mantêm o seu bom-senso e são sadias de corpo e espírito; assim, não há nelas senão uma perturbação passageira, sem nenhuma das características da loucura propriamente dita. Seu cérebro, necessariamente enfraquecido pelos ataques freqüentes que experimenta, seria ainda mais facilmente impressionável pela visão dos loucos e pela só idéia de achar-se entre eles. O Dr. Constant atribui o desenvolvimento e a evolução da doença à imitação, à influência das conversas das doentes entre si e aconselha a pô-las entre loucos ou segregá-las num pavilhão do hospital! Não é uma evidente contradição? e é isto que ele entende por tratamento moral? Em nossa opinião, o mal se deve a uma causa inteiramente diversa e requer meios curativos completamente diferentes. Tem a sua fonte na reação incessante que existe entre o mundo visível e o invisível que nos rodeia, em cujo meio vivemos, isto é, entre os homens e os Espíritos, que mais não são que as almas dos que viveram e entre os quais há bons e maus. Esta reação é uma das forças, uma das leis da Natureza, e produz uma imensidão de fenômenos psicológicos, fisiológicos e morais incompreendidos, porque a causa era desconhecida. O Espiritismo nos dá a conhecer esta lei e, desde que os efeitos são submetidos a uma lei da Natureza, nada têm de sobrenatural. Vivendo no meio desse mundo, que não é tão imaterial quando o imaginam, uma vez que esses seres, conquanto invisíveis, têm corpos fluídicos semelhantes aos nossos, sentimos a sua influência. A dos Espíritos bons é salutar e benéfica; a dos maus é perniciosa, como o contato das criaturas perversas na sociedade. Em suma, dizemos que uma nuvem de seres invisíveis malfazejos abateu-se momentaneamente sobre Morzine, como ocorreu em muitas outras localidades; e não será com duchas nem alimentos suculentos que serão expulsos. Uns os chamam diabos ou demônios; nós os chamamos simplesmente Espíritos maus ou Espíritos inferiores, o que não implica uma melhor qualidade, embora seja muito diferente pelas conseqüências, considerando-se que a idéia ligada aos demônios é a de seres à parte, fora da Humanidade e perpetuamente votados ao mal, ao passo que eles são apenas as almas dos homens que foram maus na Terra, mas que acabarão por se melhorarem um dia. Vindo a essa localidade, fazem, como Espíritos, o que teriam feito se a ela tivessem comparecido em vida, isto é, o mal que faria um bando de malfeitores. Deve-se, pois, expulsá-los como se expulsaria uma tropa inimiga. Está na natureza desses Espíritos a antipatia à religião, porque temem o seu poder, como os criminosos não simpatizam com a lei nem com os juízes que os condenam; e exprimem esse sentimento pela boca de suas vítimas, verdadeiros médiuns inconscientes, absolutamente certos quando dizem não passar de ecos. O paciente é reduzido a um estado passivo; está na situação de um homem dominado por um inimigo mais forte, que o constrange a fazer a sua vontade. O eu do Espírito estranho neutraliza momentaneamente o eu pessoal. Há subjugação obsessiva, e não possessiva. Que absurdo! dirão certos doutores. Seja; mas nem por isso deixa de ser tido como verdade por grande número de médicos. Tempo virá, mais próximo do que se imagina, em que a ação do mundo invisível será reconhecida na sua generalidade e a influência dos Espíritos maus colocada entre as causas patológicas. Será levado em conta o importante papel desempenhado pelo perispírito na fisiologia e uma nova via de cura será aberta para uma imensidão de doenças consideradas incuráveis. Se assim é, perguntarão, de onde vem a inutilidade dos exorcismos? Isto prova uma coisa: é que os exorcismos, tais como são praticados, não valem mais que os remédios, porque sua eficácia não está no ato exterior, na virtude das palavras e sinais, mas no ascendente moral exercido sobre os Espíritos maus. Os doentes não diziam: “Não precisamos de remédios, mas de padres santos.” E os insultavam, dizendo que não eram bastante santos para ter ação sobre os demônios. Era a alimentação de batatas que os levava a falar assim? Não, mas a intuição da verdade. Em casos semelhantes a ineficácia do exorcismo é constatada pela experiência. E por quê? Porque consiste em cerimônias e fórmulas de que se riem os Espíritos maus, ao passo que cedem ao ascendente moral que lhe impõem; vêem que os querem dominar por meios impotentes e querem mostrar-se mais fortes. São como o cavalo assombradiço que derruba o cavaleiro inábil, ao mesmo tempo que se dobra quando encontra seu mestre. “Numa dessas cerimônias – diz o Dr. Chiara – houve na igreja, onde haviam reunido as doentes, um tumulto horrível. Todas as mulheres caíram em crise simultaneamente, derrubando, quebrando os bancos da igreja e rolando pelo chão, em completa desordem com homens e crianças, que em vão se esforçavam para contê-las. Proferem juras horríveis, inacreditáveis. Interpelem os sacerdotes nos mais injuriosos termos.” Neste momento cessaram as cerimônias públicas de exorcismo, mas foram exorcizar em casa, a qualquer hora do dia e da noite; como não produzisse melhores resultados, renunciaram definitivamente a essa atividade.
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(15) Ver os números de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro e abril de 1863. Ver também sobre o mesmo assunto o número de abril de 1862.
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(16) Os Diabos de Morzine, Livraria Mégret, quai de l’Hôpital, 51, Lyon.
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