Livros Espíritas
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A prisão que recebera as nossas personagens, em Corinto, era um velho casarão de corredores úmidos e escuros, mas a sala destinada aos três, conquanto desprovida de qualquer conforto, apresentava a vantagem de uma janela gradeada, que comunicava o ambiente desolado com a natureza exterior. Jochedeb estava cansadíssimo e, servindo -se do manto que apanhara ao acaso, ao retirar-Se, Jeziel improvisou-lhe um leito sobre as lajes frias. O velho, atormentado por uma aluvião de pensamentos, descansava o corpo dolorido, entregue a penosas meditações sobre os problemas do destino humano. Sem saber externar suas dores pungentes, engolfara -se em angustioso mutismo, evitando o olhar dos filhos. Jeziel e Abigail aproximando -se da janela segurando-lhe as grades inflexíveis e abafando, com dificuldade, a justa inquietação. Ambos olharam, instintivamente, o f irmamento, cuja imensidade sempre resumiu a fonte das mais ternas espe ranças para os que choram e sofrem na Terra. O jovem abraçou a irmã, com imensa ternura, e disse comovido: — Abigail, lembras-te da nossa leitura de ontem? — Sim — respondeu ela com a ingênua serenidade dos seus olhos negros e profundos -, tenho agora a impressão de que os Escritos nos davam uma grande mensagem, pois nosso ponto de estudo foi justamente aquele em que Moisés contemplava, de longe, a terra da Promissão sem poder alcançá -la. O rapaz sorriu satisfeito por sentir -se identificado nos seus pensamentos e confirmou: — Vejo que estamos de perfeito acordo, O céu, esta noite, oferece -nos a perspectiva de uma pátria lumi nosa e distante. Lá — continuava apontando o zimbório estrelado — organiza Deus os triunfos da verdadeira justiça: dá paz aos tristes; conforto aos desalentados da sorte. Certamente, nossa mãe está com Deus, espe rando por nós. Abigail mostrou-se muito impressionada com as pa lavras do irmão- e acentuou: — Estás triste? Ficaste agastado com o proceder de nosso pai? — De modo algum — atalhou o moço afagando -lhe os cabelos —, estamos em experiências que devem ter a melhor finalidade para a nossa redenção, porque, de outro modo, Deus não no -las mandaria. — Não nos aborreçamos com o pai — tornou a jovem —; estive pensando que, se a mamãe estivesse conosco, ele não chegaria a reclamações de tão tristes conseqüências. Nós não temos aquele poder de persuasão com que ela, carinhosa sempre, iluminava a nossa casa. Lembras-te? Sempre nos ensinou que os filhos de Deus devem estar prontos para a execução das divinas -vontades. Os profetas, por sua vez, nos esclarecem que os homens são varas no campo da criação. O Todo -Poderoso é o lavrador e nós devemos ser os galhos floridos ou fr utíferos, na sua obra. A palavra de Deus nos ensina a ser bons e amáveis. O bem deve ser a flor e o fruto, que o Céu nos pede. Nessa altura, a bela jovem fez uma pausa signi ficativa. Seus grandes olhos estavam velados por um tênue véu de pranto, que não c hegava a cair. — Entretanto, continuou ela, emocionando o irmão carinhoso: sempre desejei fazer algum bem, sem jamais o conseguir. Quando nossa vizinha enviuvou, quis auxiliá-la com dinheiro, mas não o possuia; sempre que me surge uma oportunidade de abri r as mãos, tenho-as pobres e vazias. Então, agora, penso que foi útil a nossa prisão. Não será uma felicidade, neste mundo, podermos sofrer alguma coisa por amor de Deus? Quem nada tem, inda possui o coração para dar. E estou convicta de que o Céu nos abe nçoará pela nossa resolução em servi-lo com alegria. O rapaz aconchegou-a ao peito e exclamou: — Deus te abençoe pelo entendimento das suas leis, irmãzinha! Longa pausa estabelecera -se entre ambos, enquanto mergulhavam no infinito da noite clara os olhos t ernos e ansiosos. Em dado instante, voltou a jovem a considerar: — Por que será que os filhos de nossa raça são perseguidos em toda parte, provando injustiça e sofri mentos? — Suponho — respondeu o moço — que Deus o permite a exemplo do pai amoroso que, para educar os filhos mais jovens e ignorantes, toma por base os filhos mais experientes. Enquanto os outros povos amortecem forças na dominação pela espada, ou nos prazeres condenáveis, nosso testemunho ao Altíssimo, pelas dores e amarguras, multiplica em nosso espírito a capacidade de resistência, ao mesmo tempo que os outros homens aprendem a considerar, com o nosso esforço, as verdades religiosas. E, fixando o olhar sereno no firmamento, acres centou: — Mas eu creio no Messias Redentor, que virá esclarec er todas as coisas. Os profetas nos afirmam que os homens não o compreenderão; entretanto, ele há de vir ensinando o amor, a caridade, a justiça e o perdão. Nascerá entre os humildes, exemplificará entre os pobres, iluminará o povo de Israel, levantará os tristes e oprimidos, tomará, com amor, todos os que pade cem no abandono do coração. Quem sabe, Abigail, estará ele no mundo, sem o sabermos? Deus opera em silêncio e não concorre com as vaidades da criatura. Temos fé e a nossa confiança no Céu é uma font e de força inesgotÀvel. Os filhos da nossa raça muito têm padecido, mas Deus saberá por quê, e não nos enviaria problemas de que não necessitássemos. A jovem pareceu meditar longamente e obtemperou, depois de alguns instantes: — E já que falamos em sofrim entos, como deveremos esperar o dia de amanhã? Prevejo grandes contra riedades no interrogatório e, afinal, que farão os juizes de nosso pai e de nós próprios? — Não deveremos aguardar senão desgostos e de cepções, mas não esqueçamos a oportunidade de obe decer a Deus - Quando experimentou a ironia de sua mulher. nas desditas extremas, Job teve a boa lembrança de que, se o Criador nos dá os bens para nossa alegria, pode enviar -nos igualmente os dissabores para nosso proveito. Se o papai for acusado, direi q ue fui eu o autor do delito. — E se te flagelarem por isso? — perguntou ela de olhos ansiosos. — Entregar-me-ei ao flagício com a paz da cons ciência - Se estiveres junto de mim, nesse instante, can tarás comigo a prece dos que se encontram em aflição — E se te matarem, Jeziel? — Pediremos a Deus que nos proteja. Abigail abraçou mais ternamente o irmão, que, por sua vez, dissimulava a custo a emoção que lhe ia nalma. A irmã querida constituíra sempre o tesouro afetivo de toda a sua vida. Desde que a morte l hes arrebatara a genitora, dedicara-se à irmã, com todas as veras do coração. Sua vida pura dividia -se entre o trabalho e a obediência ao pai; entre o estudo da lei e a afeição meiga companheira da infância. Abigail contemplava -o. ternamente, enquanto ele a abraçava com o enlevo da amizade pura, que reúne duas almas afins. Depois de meditar longos minutos, Jeziel falou co movido: — Se eu morrer, Abigail, hás de prometer-me seguir à risca aqueles conselhos da mamãe, para que tivéssemos a vida sem mácula, ne ste mundo. Lembrar-te-ás de Deus e da nossa vida de trabalho santifi cador, e nunca ouvirás a voz das tentações que arrastam as criaturas à queda nos abismos do caminho. Recordas-te das últimas observações da mamãe no leito da morte? — Se recordo — respondeu Abigail com uma lágri ma. — Tenho a impressão de ouvir ainda as suas últimas palavras: “e vocês, meus filhos, amarão a Deus acima de tudo, de todo o coração e de todo o entendimento”. Jeziel sentiu os olhos úmidos, com aquelas recorda ções, e murmurou: — Feliz de ti que não esqueceste. E como quem desejava mudar o rumo da conversa, acrescentou sensibilizado: — Agora precisas descansar. Embora ela se recusasse ao repouso, tomou -lhe o manto pobre, improvisou um leito à luz baça do luar que penetrava pela s grades e, osculando -lhe a fronte com indizível ternura, advertiu afetuosamente: — Descansa, não te impressiones com a situação, nosso destino pertence a Deus. Abigail, para lhe ser agradável, aquietou -se como pôde, enquanto ele se aproximava da janela pa ra contemplar a beleza da noite polvilhada de luz. Seu coração moço, atufava -se de angustiosas cogitações. Agora que o pai e a irmãzinha repousavam na sombra, dava curso às idéias profundas que lhe empolgavam o espírito generoso. Buscava, ansiosamente, um a resposta às interrogações que mandava às estrelas distantes. Esperava, com sinceridade e confiança, no seu Deus de sabedoria e misericórdia, que os pais lhe haviam dado a conhecer. A seus olhos, o Todo -Poderoso sempre fora infinita mente justo e bom. Ele, que esclarecera o genitor e con solara a irmãzinha, perguntava também, por sua vez, dentro de si, o porquê das suas provas dolorosas. Como se justificava, por causa tão comezinha, a prisão ines perada de um ancião honesto, de um homem trabalhador e de uma criança inocente? Que delito irreparável haviam praticado para merecer expiação tão penosa? O pranto correu -lhe copioso ao relembrar a humilhação da irmã, mas também não procurou enxugar as lágrimas que lhe inundavam o rosto, de maneira a escondê -las de Abigail, que talvez o observasse na sombra. Rememorava, um a um, todos os ensinamentos dos Escritos Sagrados. As lições dos profetas consolavam -lhe a alma ansiosa. Entretanto, vagava-lhe no coração uma saudade infinita. Lembrava-se do carinho materno que a morte lhe arre batara. Se presente àquele transe, a mãe saberia como confortá -los. Quando criança, nas suas pequenas contrariedades, ela ensinava que, em tudo, Deus era bom e misericordioso; que, nas enfermidades, corrigia o corpo, e nas angústi as da alma esclarecia, iluminava o coração; no desfile das reminiscências, considerava igualmente que ela sempre o incitara à coragem e à alegria, fazendo-lhe sentir que a criatura convicta da paternidade divina anda, no mundo, fortalecida e feliz. Edificado na fé, cobrou ânimo e, depois de longas reflexões, aquietou -se na laje fria, procurando o repouso possível no silêncio augusto da noite. O dia amanheceu prenhe de lúgubres expectativas. Dentro de poucas horas, Licínio Minúcio, rodeado de numerosos guard as e satélites, recebeu os prisionei ros na sala destinada aos criminosos comuns, onde se ostentavam alguns instrumentos de punição e suplício.
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