Livros Espíritas
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A entidade infeliz parecia tocada nas mais recônditas fibras do ser. Após breve espaço, Luciana prosseguiu: — Com o sepultamento do corpo, começaram para vossa alma infinitos padecimentos. Permaneceis atormentado pela ansiedade, pela fome, pela sede, pela dor… Não posso precisar quanto tempo gastais em semelhante angústia. Sinto, porém, que a entidade sofredora de certa mulher vos visita o sepulcro. Estende-vos braços horrendos e, sob impressão de pavor, conseguistes desatar o laço ainda restante que vos prende ao corpo disforme, fugindo a praguejar. Vosso quadro consciencial modifica-se. Recordais o drama da infortunada que vos apareceu, suplicante. Oh! Foi também vítima de vosso poder fascinador… A leitura mental de vossas lembranças revela as particularidades da experiência final da tresloucada. Pobre mulher crédula e confiante! Vejo-a chegando ao presbitério em tempestuosa noite. Experimentais a emoção inferior do homem menos digno que sente o império absoluto sobre a presa… A pobrezinha, todavia, chora e roga-vos auxílio. Pronuncia palavras de comover corações de pedra, mostrando indefinível desalento. Percebo o que diz… Confiou excessivamente em vossas promessas e cedeu aos vossos caprichos de homem vulgar. A princípio, acreditou que não adviriam desagradáveis consequências, certa da possibilidade de fugir a quaisquer observações. Sabíeis engodar-lhe a inexperiência em assuntos afetivos e proclamáveis a inocência de semelhantes relações. Contudo, agora, anunciava-se um filhinho, preocupando-lhe o coração. Quem a socorreria? quem lhe restauraria a paz familiar? Não seria melhor a legalização dos laços existentes? não deveriam esperar, honrados, a dádiva de um filho abençoado por Deus? Escutastes as rogativas sem abalo moral. Com a frieza dos homens de fraseologia brilhante, invocastes o dever sacerdotal como justificativa da impossibilidade, comentastes as convenções humanas e, por fim, propusestes a conciliação do problema, com um casamento apressado e indigno entre a vítima e o último de vossos servos. A jovem soluça convulsivamente, afirmando justa repulsa. Continuais na argumentação prudente e preciosa, mas, com evidentes sinais de loucura, a infeliz abandona-vos, precipitada, ganhando a via pública, sob a chuva torrencial… Acompanho-a. Regressa ao lar paterno, fundamente desequilibrada pelo vosso golpe impiedoso. Ah! Que horror! Vale-se a desventurada da noite solitária e bulhenta e ingere grande dose de formicida, tentando o ato final da tragédia interior. Ninguém lhe escuta os rugidos de sofrimento selvagem, porque os trovões ribombam no céu. Ao amanhecer, todavia, um pai aflito corre ao vosso retiro repousante e coloca-vos ao corrente do fato. Morrera-lhe a filha, misteriosamente. Como aclarar a situação? não procedia com acerto, buscando o conselho sacerdotal? Recebeis a notícia disfarçando dificilmente a emoção, repetindo textos evangélicos para consolar o amigo confiante. Preocupado, ponde-vos a caminho da residência enlutada. No entanto, sinto-vos perfeitamente o estado mental. Não vos aflige a perda de alguém que vos poderia estorvar a tranquilidade, preocupa-vos a descoberta de algum recurso, aparentemente digno, que vos conserve a cavaleiro da situação imprevista. Pronunciando palavras confortadoras, montastes guarda ao cadáver e chamastes médico amigo. Ei-lo que chega! Oh! É o mesmo que vos examinou, no último dia, acreditando-vos suicida! Depois de longa conversação confidencial convosco, o clínico assevera que houve morte natural, com a ruptura de vasos do coração. Recuperais o bem-estar que transparece, de novo, em vossa expressão fisionômica. Vossas referências de consolação tornam-se mais vivas e inteligentes e seguis os funerais, calmo e contrito, embora os olhos esgazeados e terríveis da suicida vos contemplem do féretro, enquanto outros vultos negros, do Plano invisível aos homens comuns, vos acompanham no préstito! São almas vingadoras que vos seguem, tenazes!… Interrompeu-se Luciana, visivelmente comovida, e, dando-nos a entender que a paisagem mental de Domênico se modificara ao influxo de outras lembranças que a narração evocava, transferiu o curso das observações no tempo. — Ah! Sim, vejo bem, — continuou, alarmada, — destaca-se infeliz entidade que, certamente, vos consagrou funda afeição. Contempla-vos com desespero e enternecimento simultâneos. Parece-se extremamente convosco. Agora, compreendo. Não foi apenas vosso amigo, foi vosso pai. Reclama, insistente, determinada escritura que não apresentastes. Que vejo? Em torno dele há imagens vivas de recordações angustiosas. Contemplo-lhe a derradeira noite ao vosso lado. Fixa-vos, carinhoso e confiante. A dispneia concede-lhe trégua mais longa e o moribundo entrega-vos grande testamento, em que relaciona suas últimas vontades. Fala-vos, afetuoso e humilde, de seu passado oculto. Não foi simplesmente o genitor feliz dum sacerdote e de filhos outros que lhe honram o nome, declara. Foi moço arrojado, a comprometer-se em aventuras diferentes. Possuía alguns filhos, a distância do lar, e não desejava partir sem legitimá-los devidamente. Além disso, pretendia garantir-lhes futuro próspero. Escutais com indisfarçável interesse. Em seguida, a pedido do genitor, ledes a discriminação de pequenos legados a pupilos dele. O agonizante acompanha-vos, atento, com o olhar. Tendes agora belas palavras nos lábios, justificando-lhe os erros do passado. Sabeis consolar com primores verbalísticos que lhe provocam admiração. Por fim, prometeis ao coração paterno exato cumprimento de seus derradeiros desígnios. Edificado, confessa-vos ele os deslizes que omitira, declara-vos seu arrependimento “in extremis” e diz de sua esperança no Céu, onde Jesus lhe receberá os sinceros desejos de reparação. Palavras entrecortadas por suprema aflição, reitera-vos a súplica de amparo constante a certa mulher, cercada de filhinhos, que esperam dele o sustento necessário… Ajudado por vós, abraça-se ao crucifixo, que contempla de olhos nevoados. Recitais longa e comovente oração, acariciando-lhe a cabeça grisalha. Mais alguns momentos, esforçando-se por ver-vos pela última vez, o moribundo cerra os olhos no ato final do corpo. Estás sozinho com o cadáver. Conservais o polegar e o indicador da mão direita sobre os olhos do morto, a fim de imprimir-lhe boa postura fisionômica. Antes, porém, de qualquer comunicado ao interior doméstico, sepultais o documento em móvel pesado, com intenções francamente hostis aos retos propósitos do desencarnado. Desde esse instante, parece-me que ele vos seguiu, sempre de perto, reclamando, reclamando… Permanece, angustiado, na tela mental de vossas lembranças vivas… A clarividente para, de novo, fixando particularidades diversas, enquanto o infeliz Domênico entremostra insopitável comoção. — Oh! Agora, — prosseguiu Luciana, dando conta da tarefa que lhe fora cometida, — é outro perseguidor severo! Salienta-se à minha visão. É um velho eclesiástico, que deixou o aparelho físico endereçando-vos intensas vibrações de ódio. Vossas reminiscências esclarecem o fato. Desejáveis, a qualquer preço, o curato que lhe pertencia. Variados interesses pessoais prendiam-vos o pensamento à pequena cidade sob a orientação do antigo pároco. Intentais a realização do desejo por métodos suasórios. Em longo diálogo, propondes a compra da paróquia, em caráter particular. Alegais dispor de bastante influência política para efetuar a transferência, sem abalos, remunerando-lhe a adesão incondicional ao projeto. O velhinho, porém, recusa e justifica-se. Permanece junto àquele rebanho, desde muitos anos. Além disso, está velho, doente. Servira à Igreja com as melhores forças de seus bons tempos de saúde física e espera a possibilidade de morrer ali, respirando o ar amigo do seu pequeno pomar. Reconhece vossa superioridade na questão, considerando-vos as relações prestigiosas no seio do clero e da administração pública e assegura que, se outras fossem as condições, cederia o lugar sem qualquer remuneração ou relutância. Os médicos, entretanto, recomendam-lhe a residência no litoral, para que a atmosfera marinha lhe facilite o esforço do coração. A rogativa comoveria a qualquer. Ouvistes, concordastes e apresentais despedidas arquitetando novo plano. Dali mesmo, sem qualquer escrúpulo, partis em visita pessoal ao bispo da diocese, a quem expondes, com fingida humildade, a solicitação que vos preocupa. Enganado, o dignitário da Igreja ouve, atenciosamente, e aceita o que propondes, recomendando, porém, prévia audiência de seus assessores diretos. Não tendes dúvidas ou ponderações de qualquer natureza. Gratificando companheiros altamente colocados, conseguistes que o antigo sacerdote fosse removido, compulsoriamente, para longínqua paróquia de montanha, onde o ancião morreu, sem delongas, odiando-vos de morte. Intoxicado pela cólera e pelos reiterados desejos de vingança, está cego às manifestações da espiritualidade superior, cercando-vos com ira implacável… Novo intervalo da clarividente. Luciana, porém, recomeça a exposição, mais alarmada: — Agora, surge determinada mulher. Parece-me que desencarnou depois de melindrosa operação nos olhos. Sim, a vossa tela de reminiscências fala bem alto. Foi vítima do vosso poder fascinante de homem dominador. Ei-la ao vosso lado no último encontro, ainda na Esfera carnal. Acabastes a refeição lauta da manhã, quando alguém bate à porta paroquial.
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