Livros Espíritas
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Sentia que não tinha tempo a perder e não o perdi nem em visitas inúteis, nem em cerimônias ociosas; foi a obra de minha vida: a ela dei todo o meu tempo, sacrifiquei meu repouso, minha saúde, porque o futuro estava escrito diante de mim em caracteres irrecusáveis. Fi-lo por meu próprio impulso, e minha mulher, que nem é mais ambiciosa, nem mais interesseira do que eu concordou plenamente com meus pontos de vista e me secundou em minha tarefa laboriosa, como o faz ainda, por um trabalho muitas vezes acima de suas forças, sacrificando sem pesar os prazeres e distrações do mundo, aos quais sua posição de família a tinham habituado. Sem nos afastarmos de nosso gênero de vida, nem por isso esta posição excepcional deixou de nos criar menos dificuldades, às quais somente os meus recursos não me permitiriam prover. Seria difícil imaginar a multiplicidade das despesas que ela suscita e que, sem isso, eu teria evitado. A necessidade de residir em dois locais diferentes é, como já disse, um acréscimo de gastos, pela obrigação de ter um duplo mobiliário, sem contar uma porção de despesas miúdas exigidas por essa dupla habitação e as perdas que resultam de meus interesses materiais, negligenciados em razão dos trabalhos que absorvem todo o meu tempo. Não é uma queixa que articulo, visto que minhas ocupações atuais são voluntárias, mas um fato que constato em resposta aos que afirmam que tudo é lucro para mim no Espiritismo. Quanto aos gastos especiais decorrentes de minha posição, seria impossível enumerá-los; mas se se considerar que tenho anualmente mais de oitocentos francos de despesas em porte de cartas, independentemente das viagens, da necessidade de me associar a alguém para me secundar, e outros pequenos gastos, compreender-se-á que não exagero ao dizer que minhas despesas anuais, que têm crescido sem cessar, hoje estão mais que triplicadas. Pode-se fazer uma idéia aproximada de quanto se elevou este excedente em oito anos, considerando a média de 6000 francos por ano. Ora, ninguém contestará a utilidade destas despesas para o sucesso da Doutrina que, evidentemente, teria enlanguescido, se eu tivesse permanecido no meu retiro, sem ver ninguém e sem as numerosas relações que mantenho diariamente. E, contudo, é o que eu teria sido obrigado a fazer, se nada me tivesse vindo em auxílio. Pois bem, senhores! o que me proporcionou esse suplemento de recursos foi o produto de minhas obras. E o digo com satisfação, pois foi com o meu próprio trabalho, com o fruto de minhas vigílias que provi, pelo menos em maior parte, às necessidades materiais do estabelecimento da Doutrina. Assim, eu trouxe uma larga cota-parte à caixa do Espiritismo. Quis Deus que ele encontrasse em si mesmo seus primeiros meios de ação. No princípio, eu lamentava que minha pouca fortuna não me permitisse fazer o que queria fazer pelo bem da causa; hoje aí vejo o dedo da Providência e a realização dessa predição tantas vezes repetida pelos Espíritos bons: Não te inquietes com coisa alguma; Deus sabe o que te é preciso e saberá provê-lo. Se eu tivesse empregado o produto de minhas obras no aumento de meus prazeres materiais, teria sido em prejuízo do Espiritismo; não obstante, ninguém teria tido o direito de me censurar, porque eu era bem senhor de dispor à vontade daquilo que só devia a mim mesmo; mas, porque me privava antes, também podia privar-me depois; aplicando-o na obra, creio que ninguém achará que seja dinheiro mal-empregado e os que ajudam a propagar as obras não poderão dizer que trabalham para me enriquecer. Prover o presente não era tudo: era necessário pensar no futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse ajudar aquele que me substituirá na grande tarefa que terá de cumprir. Esta fundação, sobre a qual devo calar-me ainda, liga-se à propriedade que possuo, e é em vista disto que aplico uma parte de meus produtos em melhorá-la. Como estou longe dos milhões com que me gratificaram, e a despeito de minhas economias, duvido muito que meus recursos pessoais me permitam dar a esta fundação o complemento que em vida lhe queria destinar. Mas, desde que sua realização está nos planos de meus guias espirituais, se eu mesmo não a fizer, é provável que um dia ou outro isto seja feito. Enquanto espero, elaboro os projetos no papel. Longe de mim, senhores, o pensamento de tirar a menor vaidade do que acabo de vos expor. Foi preciso a perseverança de certas diatribes para me engajar, embora a contragosto, para romper o silêncio sobre alguns fatos que me dizem respeito. Mais tarde, todos quantos a malevolência aprouve desnaturar serão trazidos à luz por documentos autênticos; mas o tempo dessas explicações ainda não chegou. A única coisa que me importava no momento era que fôsseis esclarecidos sobre o destino dos fundos que a Providência fez passar às minhas mãos, seja qual for a sua origem. Não me considero senão como depositário, mesmo daqueles que ganho e, com mais forte razão, dos que me são confiados e dos quais prestarei contas rigorosas. Resumo, dizendo: para mim não necessito; significa dizer que deles não tiro proveito. Resta-me ainda falar, senhores, da caixa de beneficência. Sabeis que ela se formou, sem desígnio premeditado, por algumas quantias depositadas em minhas mãos para obras de caridade, mas sem aplicação especial, às quais junto as que, de vez em quando, se acham sem emprego determinado. O primeiro donativo feito com este objetivo foi o de uma quantia de 200 francos, enviados no dia 20 de agosto de 1863. No ano seguinte, em 17 de agosto de 1864, a mesma pessoa me remeteu idêntica soma de 200 francos. Em 1o de setembro, durante minha viagem, outra pessoa me enviou 100 francos. Quando das subscrições publicadas na Revista, várias pessoas juntaram às suas remessas quantias de menor importância, com emprego facultativo. Recentemente, em 28 de abril último, alguém me remeteu 500 francos. O total das receitas elevou-se hoje a 1317 francos. O total das despesas, em auxílios diversos, donativos ou empréstimos ainda não reembolsados, eleva-se a 1060 francos. Atualmente restam-me em caixa 257 francos. Alguém me perguntava um dia, sem curiosidade, é claro, e por mero interesse pela causa, o que eu faria de um milhão, se o tivesse. Respondi-lhe que hoje o seu emprego seria totalmente diferente do que teria feito no início. Outrora eu teria feito propaganda por uma larga publicidade; agora reconhecia que isto teria sido inútil, pois os nossos adversários se haviam encarregado disto à sua custa. Não pondo então grandes recursos à minha disposição, os Espíritos quiseram provar que o Espiritismo só devia o seu sucesso a si mesmo, à sua própria força, e não ao emprego de meios vulgares. Hoje, que o horizonte se ampliou, sobretudo que o futuro se desdobrou, fazem-se sentir necessidades de ordem completamente diversa. Um capital como o que supondes receberia um emprego mais útil. Sem entrar em detalhes, que seriam prematuros, direi simplesmente que uma parte serviria para converter minha propriedade numa casa especial de retiro espírita, cujos habitantes recolheriam os benefícios de nossa doutrina moral; a outra constituiria uma renda inalienável, destinada: 1o – a manter o estabelecimento; 2o – a assegurar uma existência a quem me suceder e aos que o ajudarem em sua missão; 3o – a prover às necessidades correntes do Espiritismo, sem recorrer aos produtos eventuais, como sou obrigado a fazer, já que a maior parte dos recursos assenta-se em meu trabalho, que terá um termo. Eis o que eu faria; mas se esta satisfação não me for dada, pouco me importa que seja concedida a outros. Aliás, de um modo ou de outro, sei que os Espíritos que dirigem o movimento proverão a todas as necessidades em tempo hábil; eis por que absolutamente não me inquieto com isto e me ocupo com o que, para mim, é essencial: a conclusão dos trabalhos que me restam por terminar. Feito isto, partirei quando a Deus aprouver chamar-me. É de admirar que certas personagens altamente colocadas, e notoriamente simpáticas à idéia espírita, não tomem abertamente, e oficialmente, a causa em questão. Dirão que seria o seu dever, uma vez que o Espiritismo é uma obra essencialmente moralizadora e humanitária. Esquecem que tais pessoas, por sua própria posição, mais que outras têm de lutar contra preconceitos que só o tempo fará desaparecer, e que cairão ante o ascendente da opinião. Digamos, ademais, que o Espiritismo ainda se encontra em estado de esboço e que não disse a última palavra; os princípios gerais estão assentados, mas só lhes entrevêem as conseqüências, que não são e nem podem ser ainda claramente definidos. Até agora não passa de uma doutrina filosófica, cuja aplicação deve ser aguardada para as grandes questões de interesse geral. Só então é que muitas pessoas compreenderão o seu verdadeiro alcance e utilidade e poderão pronunciar-se com conhecimento de causa. Até que o Espiritismo tenha completado sua obra, o bem que faz é limitado; não podendo ser senão uma crença individual, uma adesão oficial seria prematura e impossível. Aí, sim, muitos dos que hoje o consideram como uma coisa fútil, mudarão forçosamente a maneira de ver e serão levados, pela própria força das coisas, a fazer dele um estudo sério. Deixemo-lo, pois, crescer e não peçamos que seja homem antes de ter sido criança. Não peçamos à infância o que só a idade viril pode dar. A. K.
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