Livros Espíritas
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Terminaram os trabalhos de uma das reuniões comuns de estudos evangélicos, quando uma entidade muito simpática acercou-se de nós, cumprimentando o meu instrutor, que respondeu com espontânea alegria. Tratava-se de mãe afetuosa, que expôs, sem rebuços, as preocupações dolorosas que lhe assaltavam o espírito, solicitando o concurso valioso de Alexandre, logo após as primeiras palavras: — Oh! Meu amigo, até hoje permaneço em luta com o meu infortunado Marinho. Não obstante meus ardentes esforços, o pobrezinho continua prisioneiro dos poderes sombrios. Entretanto, esperançada agora em sua possível renovação, venho pedir-lhe a cooperação no serviço de auxílio à sua alma infeliz! — Uma nova doutrinação? — interrogou o mentor, solícito. — Sim, — disse a mãe angustiada, enxugando os olhos, — já recorri a diversos amigos que colaboram na oficina de trabalhos espirituais, onde conheço a sua atuação de orientador, e todos se prontificaram a prestar-me concurso fraterno. — Nota em Marinho sinais evidentes de transformação interior? — Perguntou Alexandre. Ela respondeu num gesto afirmativo, com a cabeça, e prosseguiu: — Há mais de dez anos procuro dissuadi-lo do mau caminho, influenciando-o de maneira indireta. Por mais de uma vez já o conduzi a situações de esclarecimento e iluminação, sem resultado, como é de seu conhecimento. Agora, porém, observo-lhe as disposições algo modificadas. Não sente o mesmo entusiasmo ao receber as sugestões malignas dos infelizes companheiros de revolta e desesperação. Sente inexprimível tédio na posição de desequilíbrio e, vezes diversas, tenho tido a satisfação de induzi-lo à prece solitária, embora sem conseguir furtá-lo ao fundo de rebeldia. A venerável entidade imprimiu ligeira pausa à conversação, continuando em tom de súplica: — Quem sabe terá chegado para ele o divino instante da luz íntima? Muito venho sofrendo por esse pobre filho, desviado da estrada reta, e é possível que o Senhor me conceda, presentemente, a graça de reintegrá-lo na senda do bem… Para esse fim, estou congregando as minhas afeições mais puras. Em seguida, fixando o mentor, com estranho brilho nos olhos, implorou: — Oh! Alexandre, conto com o seu apoio decisivo! Preciso trabalhar por Marinho, de cuja desventura me julgo culpada, até certo ponto! E confesso-lhe, meu amigo, que me sinto cansada, em profunda exaustão espiritual!… — Compreendo-a, — exclamou o interlocutor, comovido, — a luta incessante para arrebatar um coração amado, prisioneiro das trevas, dá para esgotar a qualquer um de nós. Tenha calma, porém. Se Marinho permanece agora entediado diante dos companheiros de criminoso desvio, então será fácil ajudar-lhe o espírito, recolocando-o a caminho da verdadeira elevação. De outro modo, não me abalançaria ao concurso ativo. Confie em nossa tarefa e façamos por ele quanto estiver ao alcance de nossas possibilidades. Tudo está pronto no campo preparatório? — Sim, — elucidou a respeitável matrona desencarnada, — alguns amigos me auxiliarão a traze-lo, enquanto outros se encarregarão de ajudar Otávia, encaminhando convenientemente o assunto, no agrupamento. — Pois bem, — concluiu Alexandre, atencioso, — na noite aprazada, estarei presente, cooperando a favor dele, quanto seja possível. Depois de comovedores agradecimentos, estávamos novamente a sós. — Porque a doutrinação em ambiente dos encarnados? — Indaguei. — Semelhante medida é uma imposição no trabalho desse teor? — Não, — explicou o instrutor, — não é um recurso imprescindível. Temos variados agrupamentos de servidores do nosso Plano, dedicados exclusivamente a esse gênero de auxílio. As atividades de regeneração em nossa colônia estão repletas de institutos consagrados à caridade fraternal, no setor de iluminação dos transviados. Os postos de socorro e as organizações de emergência, nos diversos departamentos de nossas Esferas de ação, contam com avançados núcleos de serviço da mesma ordem. Em determinados casos, porém, a cooperação do magnetismo humano pode influir com mais intensidade, em benefício dos necessitados que se encontrem cativos das zonas de sensação, na Crosta do Mundo. Mesmo aí, contudo, a colaboração dos amigos terrenos, embora seja apreciável, não constitui fator absoluto e imprescindível; mas, quando é possível e útil, valemo-nos do concurso de médiuns e doutrinadores humanos, não só para facilitar a solução desejada, senão também para proporcionar ensinamentos vivos aos companheiros envolvidos na carne, despertando-lhes o coração para a espiritualidade. O mentor fixou um sorriso e prosseguiu: — Ajudando as entidades em desequilíbrio, ajudarão a si mesmos; doutrinando, acabarão igualmente doutrinados. Satisfeito com as elucidações recebidas, passei a considerar o caso pessoal da terna entidade que nos visitara. Por que permaneceria um Espírito iluminado em serviços consecutivos por alguém que se comprazia nas sombras? Seria justo acorrentar corações maternais a filhos impenitentes? O orientador, contudo, veio ao encontro de minhas interrogações, explicando: — A dedicada amiga que nos visitou é uma pobre mãe, em luta depois da morte física. — A quem se refere na intercessão? — perguntei. — A um filho que foi sacerdote na Crosta. — Sacerdote? — Indaguei, profundamente surpreendido. — Sim, — esclareceu Alexandre. — Os desvios das almas que receberam tarefas de natureza religiosa são sempre mais graves. Existem padres que, contrariamente a todas as esperanças de nosso Plano, se entregam completamente ao sentido literal dos ensinamentos da fé. Recebem os títulos sacerdotais, como os médicos sem amor ao trabalho de curar, ou como os advogados sem qualquer espécie de devotamento ao direito. Estimam os interesses imediatos, requisitam as honrarias humanas e, terminada a existência transitória, se encontram em doloroso fracasso da consciência. Habituados, porém, ao incenso dos altares e à submissão das almas encarnadas, não reconhecem, na maioria das vezes, a própria falência e preferem o encastelamento na revolta lamentável, que os converte em gênios das sombras. Neste particular, — acentuou o instrutor, modificando a inflexão de voz, — devemos reconhecer que semelhante condição, neste lado da vida, é a de todos os homens e mulheres, de inteligência notável, com primores de cultura terrestre, mas desviados do verdadeiro caminho de edificação moral. Comumente, as pessoas mais sensíveis e cultas criam o mundo que lhes é peculiar e esperam furtar-se à lei de testemunho próprio, no campo das virtudes edificantes. Acostumadas à fácil aquisição de vantagens convencionais na Crosta, pretendem resolver, depois da perda do corpo físico, os problemas espirituais pelo mesmo processo, e, encontrando tão somente a Lei, que manda conceder a cada um segundo as suas obras, () não raro agravam a situação, internando-se no escuro país do desespero, onde se reúnem a inúmeras companhias da mesma espécie. Dentre as criaturas dessa ordem, sobressai a elevada percentagem dos ministros de várias religiões. Referindo-nos tão só aos das escolas cristãs, verificamos que a maioria não pondera na exemplificação do próprio Mestre Divino. Cerram olhos e ouvidos aos sacrifícios apostólicos. Simão Pedro, João Evangelista, Paulo de Tarso, representam para eles figuras demasiadamente distantes. Apegam-se às decisões meramente convencionais dos concílios, estudam apenas os livros eclesiásticos e querem resolver todas as transcendentes questões da alma através de programas absurdos, de dominação pelo culto exterior. Erguem basílicas suntuosas, olvidando o templo vivo do próprio espírito; homenageiam o Senhor como os orgulhosos romanos reverenciavam a estátua de Júpiter, tentando subornar o poder celeste pela grandeza material das oferendas. Mas ai! Esquecem o coração humano, menosprezam o espírito de humanidade, ignoram as aflições do povo, a quem foram mandados servir. E, cegos aos próprios desvarios, ainda aguardam um Céu fantástico que lhes entronize a vaidade criminosa e a ociosidade cruel. Alexandre, neste ponto das elucidações, como se fora chamado a meditações mais profundas, silenciou por momentos, continuando em seguida: — Para estes, André, a morte do corpo é um acontecimento terrível. Alguns enfrentam, corajosos, a desilusão necessária e proveitosa. A maioria, porém, fugindo ao doloroso processo de readaptação à realidade, precipita-se nos campos inferiores da inconformação presunçosa, organizando perigosos agrupamentos de almas rebeladas, com os quais temos de lutar por nossa vez… Quase todas as escolas religiosas falam do inferno de penas angustiosas e horríveis, onde os condenados experimentam torturas eternas. São raras, todavia, as que ensinam a verdade da queda consciencial dentro de nós mesmos, esclarecendo que o Plano infernal e a expressão diabólica encontram início na esfera interior de nossas próprias almas. O orientador amigo fez novo intervalo, e, depois de pensar a sós, durante alguns instantes, considerou: — Você compreende… Os que caem por ignorância aceitam com alegria a retificação, desde que se mantenham em padrão de boa vontade sincera. Os que se precipitam no desequilíbrio, porém, atendendo à sugestão do orgulho, experimentam grande dificuldade para ambientar a corrigenda em si mesmos. Precisam edificar maior patrimônio de humildade, antes de levarem a efeito a restauração imprescindível. Observando que o mentor silenciara novamente, perguntei: — Mas se o erro voluntário pertence ao sacerdote, no caso em exame, como explicar o sacrifício materno?
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[Na 1ª edição desse livro, o linotipista repetiu o texto da linha anterior, omitindo o texto a seguir: “falava-lhe com serenidade cristã, revelando-lhe a”; texto que foi adicionado pela editora em edições posteriores.]
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