Livros Espíritas
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Como sabeis, senhores, a Sociedade sentia vivamente os inconvenientes de não ter um local especial para as sessões e onde seus arquivos pudessem estar à mão. Para trabalhos como os nossos é preciso, por assim dizer, um local consagrado, onde nada possa perturbar o recolhimento. Cada um deplorava a necessidade em que nos encontrávamos de nos reunirmos num estabelecimento público, em desarmonia com a seriedade de nossos estudos. Desse modo, julguei fazer uma coisa útil, proporcionando-lhe os meios de dispor de um local mais conveniente, com o auxílio dos fundos que havia recebido. Por outro lado, o progresso do Espiritismo traz à minha casa um número cada vez maior de visitantes, nacionais e estrangeiros, número que pode ser calculado em mil e duzentos a mil e quinhentos por ano, sendo preferível recebê-los na própria sede da Sociedade, nela concentrando todos os negócios e todos os documentos relativos ao Espiritismo. Quanto a mim, acrescentarei que, consagrando-me inteiramente à doutrina, tornava-se de certo modo necessário, para evitar perda de tempo, que aí tivesse o meu domicílio ou, pelo menos, uma pousada. Para mim pessoalmente não havia a menor necessidade, pois tenho em casa um apartamento que nada me custa, mais agradável sob todos os aspectos, e onde habito tanto quanto mo permitem minhas ocupações. Um segundo aparta-mento teria sido uma despesa inútil e onerosa. Assim, sem o Espiritismo, eu estaria tranqüilamente em casa, na Avenida Ségur, e não aqui, obrigado a trabalhar da manhã à noite e, muitas vezes, da noite à manhã, sem mesmo poder repousar um pouco, o que me seria bastante necessário. Sabeis que sou sozinho para dar conta de uma tarefa cuja extensão dificilmente as pessoas imaginam, e que necessariamente aumenta com o desenvolvimento da doutrina. Este apartamento reúne as vantagens desejáveis por suas disposições internas e sua situação central. Sem nada ter de suntuoso, é muito conveniente; mas sendo os recursos da Sociedade insuficientes para pagar o aluguel integralmente, vi-me forçado a completá-lo com os fundos da doação. Sem isto a Sociedade teria de permanecer na situação precária acanhada e incômoda em que antes se achava. Graças a esse suplemento, foi possível imprimir aos seus trabalhos desenvolvimentos prontamente acolhidos pela opinião pública, de maneira vantajosa e proveitosa para a doutrina. É, pois, o emprego passado e a destinação futura dos fundos da doação que julgo dever comunicar-vos. O aluguel do apartamento custa 2.500 francos por ano e, com os acessórios, 2.530 francos. As contribuições perfazem 198 francos, totalizando 2.728 francos. A Sociedade paga de sua parte 1.200 francos; resta, pois, a completar, uma diferença de 1.528 francos. O contrato foi feito por três anos, seis ou nove, a contar o de 1 de abril de 1860. Calculando-o por apenas seis anos a 1.528 francos, temos 9.168 francos, ao que devemos acrescentar 900 francos para a compra de móveis e despesas de instalação; para doações e auxílios diversos, 80 francos. Total das despesas: 10.148 francos, sem contar os imprevistos, a pagar com o capital de 10.000 francos. Portanto, no fim do contrato, isto é, daqui a quatro anos, haverá um excedente de despesa. Vedes, senhores, que não podemos desviar a menor soma, se quisermos chegar ao fim. Que faremos, então? Aquilo que Deus e os Espíritos bons quiserem, e que não me inquietasse, conforme me disseram estes últimos. Quero frisar que a importância destinada à compra do material e às despesas de instalação não ultrapassa 900 francos, soma que gastei rigorosamente do capital. Se tivéssemos de adquirir todo o mobiliário aqui existente – refiro-me apenas às peças de recepção – haveria necessidade de três ou quatro vezes mais e, então, a Sociedade, em vez de seis anos de contrato, teria apenas três anos de aluguel. É, pois, o meu mobiliário pessoal que constitui a maior parte e que, devido ao uso, vem se desgastando severamente. Em resumo, esta soma de 10.000 francos, que alguns julgavam inesgotável, acha-se quase inteiramente absorvida pelo aluguel que, antes de tudo, importava garantir por certo tempo, sem que tivesse sido possível desviar uma parte para outros fins, principalmente para a compra de obras antigas e modernas, francesas e estrangeiras, necessárias à formação de uma grande biblioteca espírita, como era projeto meu. Este único objetivo não teria custado menos de 3.000 a 4.000 francos. Disso resulta que, exceto o aluguel, todas as despesas, tais como viagens e uma porção de gastos necessários ao Espiritismo, e que não chegam a menos de 2.000 francos por ano, estão pessoalmente a meu cargo, soma que não deixa de ser importante num orçamento restrito, que só se salda à custa de ordem, economia e mesmo de privações. Não creiais, senhores, que eu queira conquistar méritos; assim agindo, sei que sirvo a uma causa, junto à qual a vida material nada é e pela qual estou pronto a sacrificar a minha. Talvez um dia eu tenha imitadores; aliás, estou bem recompensado pela visão dos resultados obtidos. Só lamento uma coisa: a exigüidade de meus recursos não me permite fazer mais. Com suficientes meios de execução, bem empregados, com ordem e em coisas verda-deiramente úteis, avançaríamos meio século no estabelecimento definitivo da doutrina.
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