Livros Espíritas
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Por aí se pode ver com que idéias o Dr. Constant foi a Morzine. Certamente não o levaremos a pensar como nós; apenas lhe diremos que está demonstrado pela experiência que o resultado da leitura das obras espíritas é completamente diferente do que ele espera, pois tal leitura, em vez de fazer pronta justiça a essa pretensa ciência, anualmente multiplica os adeptos aos milhares; que hoje são contados no mundo inteiro por cinco ou seis milhões, dos quais a décima parte só na França. Se ele objetasse que todos são tolos e ignorantes, nós lhe perguntaríamos por que essa doutrina conta no número de seus mais firmes partidários tão grande número de médicos em todos os países, tanto dos que assinam a Revista, como o atesta a nossa correspondência, quanto dos que presidem ou fazem parte de grupos e sociedades espíritas, sem falar do número não menos expressivo de adeptos pertencentes a posições sociais, aonde só se chega pela inteligência e pela instrução. Isto é um fato material que ninguém pode negar. Ora, como todo efeito tem uma causa, a causa desse efeito está no fato de o Espiritismo não parecer a toda a gente assim tão absurdo, levando alguns a dizerem: – Infelizmente é verdade, exclamam os adversários da doutrina; assim, não temos mais de cobrir o rosto pela sorte da Humanidade em sua marcha para a decadência. Resta a questão da loucura, o lobisomem de hoje, com o auxílio do qual se procura amedrontar as populações, que quase já não se alvoroçam, como bem se vê. Quando esse meio estiver esgotado, certamente conceberão outro; enquanto se espera, chamamos a atenção dos leitores para o artigo publicado no número de fevereiro de 1863, intitulado A Loucura Espírita. Os primeiros sintomas da epidemia de Morzine se manifestaram em março de 1857, em duas meninas de cerca de dez anos. No mês de novembro seguinte o número de doentes era de vinte e sete e em 1861 atingiu a cifra máxima de cento e vinte. Se déssemos conta dos fatos segundo o que vimos, poderiam dizer que vimos o que quisemos ver. Aliás, chegamos no declínio da doença e ali não ficamos o bastante para tudo observar. Citando as observações alheias, não nos acusarão de somente ver pelos próprios olhos. Tomamos as observações que se seguem do relatório cujo extrato fizemos acima: “Essas moçoilas falam francês durante a crise com admirável facilidade, mesmo as que, fora daí, só conhecem algumas palavras. “Uma vez em crise, as jovens perdem completamente a reserva, seja para o que for; também perdem inteiramente toda afeição de família. “De ordinário a resposta é pronta e fácil; dir-se-ia que vem antes da interrogação. Esta resposta é sempre ad rem, exceto quando quem fala responde por tolices, insultos ou uma recusa afetada. “Durante a crise o pulso fica calmo e, no maior furor, a personagem tem um ar de domínio, como alguém que tivesse a cólera sob o seu comando, sem parecer exaltada nem tomada por um acesso de febre. “Notamos durante as crises uma insolência extraordinária, que ultrapassa qualquer limite, em mocinhas que, fora desse estado, são doces e tímidas. “Durante a crise há em todas as meninas um caráter de impiedade permanente, levado além de todo o limite, dirigido contra tudo o que lembra Deus, os mistérios da religião, Maria, os santos, os sacramentos, a prece, etc.; o caráter dominante desses momentos terríveis é o ódio a Deus e a tudo quanto a ele se refere. “Constatamos muito bem que essas jovens revelam coisas que chegam de longe, bem como fatos passados de que não tinham conhecimento; também revelaram pensamentos de várias pessoas. “Algumas vezes anunciaram o começo, a duração e o fim das crises, o que farão mais tarde e o que não farão. “Sabemos que deram respostas exatas a perguntas feitas em línguas que elas desconheciam, como alemão, latim, etc. “No estado de crise essas jovens são dotadas de uma força desproporcional à sua idade, pois são precisos três ou quatro homens para conter, durante o exorcismo, meninas de dez anos. “É de notar-se que, durante a crise, as meninas não sofrem danos materiais, nem pelas contorções, que parecem capazes de deslocar os membros, nem pelas quedas, nem pelas pancadas que se dão com violência. “Em suas respostas há sempre a distinção de várias personagens: a filha e ele, o demônio e o danado. “Fora da crise essas meninas não guardam nenhuma lembrança do que disseram ou fizeram, quer a crise tenha durado todo o dia, quer tenham feito trabalhos prolongados ou incumbências dadas no estado de crise. ...................................................................................................................... “Para concluir, diremos: “Que a nossa impressão é de que tudo isto é sobrenatural, na causa e nos efeitos; e, conforme as regras da lógica e de tudo quanto nos ensinam a teologia, a história eclesiástica e o Evangelho, “Declaramos que, em nossa opinião, há uma verdadeira possessão do demônio. “Em testemunho do que, Assinado: *** Morzine, 5 de outubro de 1857. Eis como o Dr. Constant descreve as crises dos doentes, de acordo com suas próprias observações: “Em meio à mais completa calma, raramente à noite, de repente sobrevêm bocejos, espreguiçamentos, alguns tremores, pequenos solavancos de aspecto coréico nos braços; pouco a pouco, e em curto espaço de tempo, como por efeito de descargas sucessivas, esses movimentos se tornam mais rápidos, depois mais amplos e logo não parecem mais que um exagero dos movimentos fisiológicos; a pupila se dilata e se contrai alternadamente e os olhos participam dos movimentos gerais. “Nesse momento as doentes, cujo aspecto a princípio parecia exprimir terror, entram num estado de furor, que vai sempre crescendo, como se a idéia que as domina produzisse dois efeitos quase simultâneos: depressão e excitação logo depois. “Elas batem nos móveis com força e vivacidade, começam a falar, ou, melhor, a vociferar; o que dizem, mais ou menos todas, quando não superexcitadas por perguntas, reduz-se a palavras indefinidamente repetidas: ‘S... não! S... ch... gne! S... vermelho!’ (Elas chamam vermelhos aqueles em cuja piedade não acreditam). Algumas acrescentam juramentos. “Se junto delas não se acha nenhum espectador estranho; se não lhes fizerem perguntas, repetem incessantemente a mesma coisa, sem nada acrescentar; caso contrário, respondem ao que pergunta o espectador e mesmo aos pensamentos que lhes atribuem, às objeções que prevêem, mas sem se afastarem da idéia dominante, a esta referindo tudo o que elas dizem. Assim, muitas vezes: ‘Ah! tu crês, b... descrente, que somos loucas, que apenas sofremos da imaginação! Somos danadas, s... n... de D...! Somos os diabos do inferno!’ “E como é sempre um diabo que fala pela sua boca, o suposto diabo algumas vezes conta o que fazia na Terra, o que fez depois no inferno, etc. “Em minha presença acrescentavam invariavelmente: “Não são os teus s... médicos que nos curarão! Nós nos f... muito bem de teus remédios! Podes perfeitamente fazer a menina tomar; eles a atormentarão e a farão sofrer. Mas a nós eles nada farão, porque somos diabos! É de santos padres e de bispos que precisamos, etc. “O que não os impede de insultar os sacerdotes, quando estes estão presentes, sob o pretexto de que não são bastante santos para ter ação sobre os demônios. Perante o prefeito e os magistrados, era sempre a mesma idéia, mas com outras palavras. “À medida que elas falam, sempre com a mesma veemência, suas fisionomias não têm outro aspecto senão o do furor. Por vezes o pescoço incha e a face se injeta; noutras, empalidece, como sói acontecer às pessoas normais que, conforme a constituição, coram ou empalidecem durante um violento acesso de cólera; freqüentemente os lábios estão úmidos de saliva, o que leva a dizer que as doentes espumavam. “Limitados inicialmente às partes superiores, os movimentos ganham sucessivamente o tronco e os membros inferiores, a respiração torna-se ofegante; as doentes redobram o furor, tornam-se agressivas, deslocam móveis e atiram cadeiras, tamboretes, isto é, tudo que lhes cai às mãos, sobre os assistentes; precipitam-se sobre estes para lhes bater, tanto nos parentes quanto nos estranhos; jogam-se ao chão, sempre continuando com os mesmos gritos; rolam-se, batem as mãos no solo e mesmo no próprio peito, no ventre, na região anterior do pescoço e procuram arrancar algo que parece incomodá-las nesses pontos. Viram-se e reviram-se de um salto só; vi duas que, levantando-se como que impulsionadas por uma mola, se inclinavam para trás de tal modo que a cabeça tocava o solo ao mesmo tempo que os pés. “Esta crise dura mais ou menos dez, vinte minutos, meia-hora, conforme a causa que a provocou. Se é a presença de um estranho, sobretudo um padre, é muito raro que termine antes que a pessoa se tenha afastado; neste caso os movimentos convulsivos não são contínuos: depois de terem sido violentos, enfraquecem e param para recomeçar imediatamente, como se, esgotada, a força nervosa repousasse um momento para se refazer. “Durante a crise, o pulso e os batimentos cardíacos não estão acelerados; dá-se comumente o contrário: o pulso se concentra, torna-se fraco, lento e as extremidades se esfriam; apesar da violência da agitação e dos golpes furiosos desferidos de todos os lados, as mãos ficam geladas.
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(10) Vide os números de dezembro de 1862, janeiro e fevereiro de 1863.
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(11) Brochura in-8, Livraria de Adrien Delahaye, place de l’École-de- Médecine. Preço: 2 fr.
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(12) N. do T.: A palavra paróquia (paroisse) não deve ser aqui entendida na sua acepção ordinária, de “circunscrição eclesiástica”, mas como “unidade administrativa rural do Antigo Regime (Ancien Régime) francês.”
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(13) N. do T.: A grafia correta é Morzine, e não Morzines, como muitas vezes aparece no texto original.
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