Livros Espíritas
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Trazendo sistematicamente o estudo do homem físico às condições do estudo dos corpos organizados; não vendo nas forças vivas de cada parte do organismo senão propriedades da matéria; localizando essas forças em cada uma dessas partes; não considerando a vida senão como uma manifestação física, um resultado, quando ela talvez seja um princípio; afastando a unidade do princípio de vida como uma hipótese, quando pode ser uma realidade, cai-se, sem dúvida, no materialismo fisiológico, para depois escorregar rapidamente no materialismo filosófico; mas se conclui por uma enunciação e um exame incompleto dos fatos; acreditou-se marchar apenas apoiado na observação, e afastou-se o fato capital que domina e determina todos os fatos particulares. O materialismo da nova escola não é, pois, um resultado demonstrado do estudo; é uma opinião preconcebida. O fisiologista não admite o espírito; mas que há de admirável? é uma causa, e ele se pôs no estudo com um método que lhe interdita precisamente a pesquisa das causas. Não queremos submeter a causa do espiritualismo a uma questão de fisiologia controvertida, e sobre a qual nos poderiam recusar em bom direito. O sentido íntimo me revela a existência da alma com uma autoridade bem diversa. Ainda que o materialismo fisiológico fosse tão verdadeiro quanto é discutível, nem por isso nossas convicções espiritualistas ficariam menos inteiras. Fortalecido pelo testemunho do senso íntimo, confirmado pelo assentimento de mil gerações que se sucederam na Terra, repetiríamos o velho adágio: “A verdade não destrói a verdade”, e esperaríamos que a conciliação se fizesse com o tempo. Mas, de que peso não nos sentimos aliviados quando vemos que, para negar a alma e dar esta declaração como um resultado da Ciência, o sábio, por confissão própria, partiu metodicamente dessa idéia de que a alma não existe! Lemos muitos livros de fisiologia, em geral muito mal escritos; o que nos chamou a atenção foi o vício constante dos raciocínios do fisiologista organicista, quando sai do seu assunto para se fazer filósofo. Vê-se-o constantemente tomar um efeito por uma causa, uma faculdade por uma substância, um atributo por um ser, confundir as existências e as forças, etc., e raciocinar em conseqüência. Dir-se-ia uma aposta. Algumas vezes ele transpõe distâncias incríveis sem desconfiar do caminho que faz. Que espírito exato e claro, por exemplo, jamais pôde compreender esse pensamento tão conhecido de Cabanis e de Broussais, que “o cérebro produz, secreta o pensamento?” Outras vezes, o homem positivo, o homem da ciência, o homem da observação e dos fatos, nos dirá seriamente que o cérebro “armazena as idéias.” Ainda um pouco, ele as desenhará. É metáfora ou mixórdia? Jamais será pedido à ciência natural que tome partido pró ou contra a alma humana; mas por que ela não se resolve a ignorar o que não é objeto de suas investigações? Com que direito ousa jurar que não há nada depois dela, após ter decretado não querer vê-la? Por que não guarda um pouco dessa reserva, que nos convém tão bem a todos, sobretudo aos que têm a pretensão de não avançar senão com certeza? Com que autoridade o anatomista poderá declarar que a alma não existe, porque não a encontrou sob o seu escalpelo? Pelo menos começou ele a demonstrar rigorosamente, cientificamente, por experiências e por fatos, segundo o método que preconiza, que o seu escalpelo pode atingir tudo, até mesmo um princípio imaterial? Seja como for com todas estas questões, o materialismo, dizendo-se científico, sem por isto valer mais, se espalha à luz do dia e nos deixa ver o que seria o direito materialista. Ai! o estado social materialista nos ofereceria um bem triste e vergonhoso espetáculo. Antes de mais, uma coisa é certa: se o homem não existe senão por seu organismo, essa massa material e automática, em que doravante se tornará todo homem, provido de um encéfalo para secretar idéias, será irresponsável por todos os movimentos que produzir.27 Com ela não será preciso que o encéfalo de uma outra massa material se decida a secretar idéias de justiça ou de injustiça; porque essas idéias de justiça ou de injustiça só são aplicáveis a uma força livre, existente por si mesma, capaz de querer e de se abster. Não se contesta a torrente ou a avalanche. Então a liberdade, isto é, a vontade de agir ou não agir, não existirá aqui, nem tampouco o direito. Nesse estado, todas as forças terão um pleno e absoluto poder de expansão. Tudo será legítimo, lícito, permitido, mesmo ordenado, digamos; porque é claro que tudo faz que não seja o ato de uma vontade livre, que não se produz como um ato moralmente obrigatório ou moralmente proibido; é um fato obrigado, que bem pode vir chocar-se com um fato contrário do mesmo caráter, mas que cai como todos os fatos físicos, sob o império inelutável das leis naturais. Basta expor tais idéias para lhes fazer justiça. É o sistema de Espinoza, que muito resolutamente estabeleceu o princípio do direito da força. Os fortes, diz Espinoza, são feitos para subjugar os fracos, como os peixes para nadar e os maiores para comer os menores. No sistema materialista, o que seria chamado direito não poderia ter um princípio diferente. Mas que homem dotado de senso ousaria confessar tal sistema que, por si só, bastaria para refutar o materialismo, pois que dele decorre necessariamente? Querem, entretanto, que esse princípio da força se ache, de fato, limitado por si mesmo? Nada será ganho, ou quase nada, com esse flagrante desmentido do princípio. Admitamos, se quiserem, que a substância pensante (continuamos a falar a língua dos materialistas) se combine nos indivíduos para regularizar essa expansão da força; a que chegará? No máximo a um conjunto de regras que terão por base o interesse e, ainda, como não há outras leis senão as leis da matéria, essa legislação não terá nenhum caráter obrigatório; cada um poderá infringi-la se sua matéria pensante lho aconselhar e se sua força lho permitir. Assim, nesta singular doutrina, não se teria nem mesmo um estado social construído sobre o plano da triste sociedade de Hobbes. Não falamos ainda senão das condições primeiras de todo estado social. Mas, em toda sociedade civil, consagra-se a propriedade individual; contrata-se, vende-se, aluga-se, associa-se, etc. O casamento funda a família; daí nasce toda uma ordem nova de relações. Pela educação do lar e pela educação pública, perpetuam-se as tradições. Assim se forma o espírito nacional e se desenvolve a civilização. Nossa sociedade materialista terá o seu direito civil? Impossível supô-lo, porquanto o direito civil, em seu conjunto, tem por princípio a justiça, e a justiça não pode ser senão uma palavra, ou uma contradição, numa doutrina que só conhece a matéria e as propriedades da matéria. Chega-se assim, inevitavelmente, a concluir (a menos que delirando a propósito) que o estado civil da sociedade materialista é o estado de bestialidade. Nada dizemos em demasia quando avançamos que o materialismo é destrutivo, não de tal moral, mas de toda moral; não de tal estado civil, mas de todo estado civil, de toda sociedade. É preciso recuar com ele além das regiões da barbárie, além da selvageria. Deve-se proscrevê-lo por isto? Que Deus não o permita. Reconhecido o seu caráter, não pediríamos, nada obstante, que o seu ensino fosse interditado; nós o defenderíamos, se necessário, contra toda restrição pela força, desde que o professor não falasse senão em seu próprio nome. A liberdade nos é tão cara (os leitores deste jornal o sabem); traz consigo tais benefícios; temos tal confiança no bom-senso público, que não conceberíamos nenhuma inquietação por ver toda cátedra, toda tribuna aberta a todas as idéias. Mas a questão já não se apresentaria nos mesmos termos se acontecesse que o professor falasse numa cátedra do Estado, retribuída pelo orçamento. Com ou sem razão, o Estado ensina. Pode ensinar doutrinas cujas conseqüências mais imediatas sejam destrutivas do Estado? Ficará ao arbítrio do professor fazer o Estado endossar todas as doutrinas que puder conceber? A questão não é simples. Os professores do Estado são funcionários públicos; seu ensino não pode ser e não é senão um ensino oficial. O estado é responsável pelo que dizem; responde perante a juventude e as famílias. Se com as grandes palavras de independência do professorado recusássemos seu controle, far-nos-íamos opressores do Estado, pela mais hipócrita das opressões, porque levaríamos à sua conta doutrinas que ele desaprova. Sem dúvida a autoridade superior deve aos seus professores, muitas vezes envelhecidos pelo estudo, cuidados, considerações e uma grande confiança, como deve aos seus generais, aos seus administradores e aos seus magistrados; mas ela não lhes deve o sacrifício do mandato, quando é de presumir-se que comande o país. O professor não é mais independente do Estado do que o general que pretendesse comandar uma insurreição. H. Thiercelin
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(27) Como o fígado não é responsável pela bile que secreta.
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