Livros Espíritas
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Buffon DEFESA DE LAMENNAIS PELO VISCONDE DE LAUNAY (Médium – Sr. d’Ambel) Nota – Na conversa havida na Sociedade sobre as comunicações precedentes, foi pronunciado o nome da Sra. de Girardin, a propósito do assunto em discussão, embora não tenha sido mencionada pelos Espíritos interlocutores. É o que explica o começo da nova intervenção. – Nas últimas sessões, senhores espíritas, vós me pusestes ligeiramente em causa e creio que me destes o direito, como se diz no Tribunal, de intervir nos debates. Não foi sem prazer que ouvi a profunda dissertação de Lamennais e a resposta um tanto incisiva do Sr. Buffon. Mas falta uma conclusão a essa troca de argumentos. Assim, intervenho e me arvoro em juiz de campo, estribado na minha autoridade particular. Aliás, pedíeis um crítico. Respondo-vos: Cuidado ao me envolverdes nesta questão, porquanto, se bem vos lembrais, em vida desempenhei, de maneira considerada magistral, esse temível posto de crítico executivo. Agrada-me imensamente retornar a esse terreno tão amado. Assim, pois, era uma vez... mas, não; deixemos de lado as banalidades do gênero e entremos seriamente no assunto. Senhor de Buffon, satirizais de maneira graciosa; vê-se logo que procedeis do grande século. Mas, por mais elegante que sejais como escritor, um visconde de minha raça não teme aceitar o desafio e enfrentar a pena convosco. Vamos, meu gentil-homem! Fostes muito duro para com esse pobre Lamennais, que tratastes como desclassificado! É culpa desse gênio extraviado se, depois de haver escrito com mão de mestre esse estudo admirável que lhe censurais, tenha-se voltado para outras regiões, para outras crenças? Certamente, as páginas da Indiferença em matéria de religião seriam assinadas com ambas as mãos pelos melhores prosadores da Igreja; mas se essas páginas permaneceram de pé quando o padre perdeu as estribeiras, não reconheceis a causa, logo vós, tão rigoroso? Ah! olhai Roma, lembrai-vos de seus costumes dissolutos e tereis a chave dessa reviravolta que vos surpreendeu. Oh! Roma está tão longe de Paris! Os filósofos, os investigadores do pensamento, todos esses rudes e incansáveis trabalhadores do eu psicológico jamais devem ser confundidos com os escritores de estilo impecável. Estes escrevem para o deleite do público, aqueles para a ciência impenetrável; estes últimos não se preocupam senão com a verdade; os outros não se vangloriam de ser lógicos: fogem à uniformidade. Em suma, o que buscam é o que vós mesmos buscáveis, meu belo senhor, isto é, a divulgação, a popularidade e o sucesso, que se resumem em belos escudos. Aliás, salvo isto, vossa resposta espirituosa é por demais verdadeira para que eu não a aplaudisse com todo o prazer. Apenas aquilo pelo qual tornais o indivíduo responsável, eu transfiro a responsabilidade ao meio social. Enfim, eu tinha de defender o meu contemporâneo que, como bem o sabeis, não participou de saraus, não freqüentou cabarés, não transitou pelos pequenos salões das damas elegantes, nem, muito menos, tomou parte nas assembléias tumultuosas de baixa categoria. Alcandorado em sua mansarda, sua única distração era esmigalhar o pão e oferecer os pedacinhos aos pardais barulhentos que o vinham visitar em sua cela da rua de Rivoli. Mas sua suprema alegria era sentar-se defronte da mesa pouco firme e fazer a pena vaguear sobre as folhas virgens de um caderno de papel! Oh! certamente teve razão para se lamentar esse grande Espírito doente que, para evitar a sujidade de um século material, havia esposado a Igreja Católica e que, após tê-lo feito, encontrou a sujeira sentada nos degraus do altar. É culpa sua se, lançado jovem entre as mãos do clericato, não pôde sondar a profundeza do abismo onde o precipitavam? Sim, ele tem razão de manifestar os seus amargos lamentos, como dizeis. Não é a imagem viva de uma educação mal dirigida e de uma vocação imposta? Padre renegado! Sabeis quantos burgueses ineptos lhe hão lançado ao rosto essa injúria, porque obedeceu às suas convicções e ao impulso da consciência? Ah! crede-me, feliz naturalista, enquanto corríeis atrás das mulheres e a vossa pena, célebre pela conquista do cavalo, era elogiada por lindas pecadoras e aplaudida por mãos perfumadas, ele subia penosamente o seu Gólgota! Porque, assim como o Cristo, sorveu o cálice da amargura e carregou com dificuldade a sua cruz! E vós, Sr. Buffon, não ofereceis um pouco o flanco à crítica? Vejamos. Ora essa! Vosso estilo é fanfarrão, como vós e, como vós, todo vestido de ouropéis! Mas, então, que intrépido viajante não fostes? Visitastes países!... não; bibliotecas desconhecidas? Que pioneiro infatigável! Desbravastes florestas!... não; manuscritos inéditos, jamais vistos! Reconheço que cobristes os vossos ricos despojos com um verniz brilhante, que é bem vosso. Mas de todos esses volumes enfadonhos, o que há de seriamente vosso como estudo, como fundo? A história do cão, do gato ou do cavalo, talvez? Ah! Lamennais escreveu menos que vós, mas tudo é realmente dele, Sr. Buffon: a forma e o fundo. Outro dia vos acusavam de haver ignorado o valor das obras do bom Bernardin de Saint-Pierre. Desculpaste-vos um tanto jesuiticamente; mas não dissestes que se recusastes vitalidade a Paulo e Virgínia foi porque, em obras desse gênero, ainda não estáveis na Grande Scudéri, no Grande Cyrus e no país do Tendre, enfim, em todos esses trastes sentimentais, que fazem tanto bem hoje aos alfarrabistas, esses negociantes de roupas da literatura. Ah! Sr. Buffon, começais a cair muito baixo na estima desses senhores, ao passo que o utopista Bernardin conservou uma posição elevada. A Paz Universal, uma utopia! Paulo e Virgínia, uma utopia! Vamos, vamos! Vosso julgamento foi anulado pela opinião pública. Não falemos mais disso. Palavra de honra, tanto pior! Pusestes a pena em minha mão; uso-a e abuso. Isto vos ensinará, caros espíritas, a vos inquietardes com uma mulher pedante e aposentada como eu, e a pedir notícias minhas. Esse caro Scribe nos chegou de todo estupefato com esses últimos meio-sucessos; queria que nos erigíssemos em Academia. Falta-lhe a palma verde. Era tão feliz na Terra que ainda hesita em assumir a sua nova posição. Ah! ele se consolará vendo que suas peças voltam a ser apresentadas e, por algumas semanas, não aparecerá mais. Ultimamente Gérard de Nerval vos deu uma encantadora fantasia inacabada. Esse Espírito caprichoso irá terminá-la? Quem sabe! Todavia, queria concluir que o verdadeiro do sábio não estando no verdadeiro, o belo do pintor não estando no belo e a coragem da criança sendo mal recompensada, ele fez muito bem em seguir os desvios de sua cara Fantasia. Visconde de Launay (Delphine de Girardin) Nota – Ver mais adiante Fantasia, por Gérard de Nerval. RESPOSTA DE BUFFON AO VISCONDE DE LAUNAY Convidais-me a voltar a um debate ao qual firmemente recusei, por não ter o que dizer. Confesso que prefiro ficar no ambiente sossegado onde me encontrava a me expor a semelhante incômodo. Em meu tempo a gente participava de uma brincadeira mais ou menos ateniense, mas hoje, que horror! vai-se a golpes de chicote chumbado. Obrigado! eu me retiro; tenho mais do que preciso, pois ainda estou completamente marcado pelos golpes do visconde. Havereis de concordar que, embora me tenham sido administrados com muita generosidade, pela graciosa mão de uma mulher, não são menos dolorosos. Ah! senhora, a mim lembrastes a caridade de maneira muito pouco caridosa. Visconde! sois muito temível; deponho as armas e humildemente reconheço meus erros. Concordo que Bernardin de Saint-Pierre foi um grande filósofo. Que digo? Encontrou a pedra filosofal e eu não sou, como não fui, mais que um indigesto compilador! E então? Estais contente agora? Vejamos, sede gentil e doravante não me humilheis mais; não sendo assim, obrigareis um gentil-homem, amigo do nosso grupo parisiense, a abandonar a praça, o que não faria sem grande pesar, porque ele tem de aproveitar também os ensinamentos espíritas e conhecer o que aqui se passa. Ah! Hoje ouvi o relato de fenômenos tão estranhos que em meu tempo teriam sido queimados vivos, como feiticeiros, os atores e até os narradores desses acontecimentos. Aqui, entre nós, serão mesmo fenômenos espíritas? A imaginação de um lado e o interesse do outro não valerão alguma coisa? Eu não juraria. Que pensa o espirituoso visconde? Quanto a mim, lavo as mãos. Aliás, se creio no meu senso de naturalista, por mais que me chamem naturalista de gabinete, os fenômenos dessa ordem só devem ocorrer raramente. Quereis minha opinião sobre o caso de Havana? Pois bem! lá existe uma camarilha de gente mal-intencionada, que tem todo o interesse em desacreditar a propriedade, a fim de que possa ser vendida a preço vil, e proprietários medrosos e tímidos, apavorados com uma fantasmagoria muito bem preparada. Quanto ao lagarto: lembro-me bem de lhe haver escrito a história, mas confesso jamais os ter encontrado diplomados pela Faculdade de Medicina. Há aqui um médium de cérebro fraco, que tomou de sua imaginação fatos que, em substância, não tinham nenhuma realidade. Buffon Nota – Este último parágrafo faz alusão a dois fatos narrados na mesma sessão; por falta de espaço, adiaremos a sua transcrição para outro número. A respeito, Buffon dá espontaneamente a sua opinião.
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(39) N. do T.: Liga – Alusão ao movimento político-religioso que se opôs a Henrique III (Valois) e prosseguiu contra seu sucessor e ex- cunhado, Henrique IV (Bourbon), no período mais exacerbado das chamadas Guerras de Religião, na França.
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(40) Alusão a uma série de comunicações ditadas por Lamennais, sob o título de Meditações filosóficas e religiosas, que publicaremos no próximo número.
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(41) N. do T.: Ora aparece grafado Visconde Delaunay, ora Visconde de Launay. Preferimos esta última.
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