Livros Espíritas
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Senti que a pergunta era mais dirigida a ele próprio do que a mim, mas, disse-lhe que sim, podemos pôr um ponto final nesses círculos viciosos, que buscam eternizar-se dentro de nós, por um esforço da nossa vontade, que só é possível depois de compreendermos a inutilidade do ódio e a força invencível do amor. Às vezes, o Espírito acha-se tão profundamente condicionado ao clima vibratório mais grosseiro, que se torna necessário aos benfeitores utilizar ectoplasma, produzido por médiuns de efeitos físicos, não apenas para adensar as formas perispirituais de companheiros desencarnados, que devem tornar-se visíveis, como verificamos no texto de André Luiz, acima transcrito, como para formar os próprios “quadros”. Num caso particularmente difícil que tivemos, um dos médiuns começou a expelir ectoplasma, enquanto eu dialogava com o Espírito incorporado. A certa altura, o ectoplasma formou, para a sua visão, as letras de um nome de mulher, antigo amor, cuja lembrança ele procurava recalcar nos porões da memória. Em outro caso, de vigorosa dramaticidade, o Espírito viu, sobre a mesa, um grosso livro, encadernado em capa de madeira, sobre a qual estava seu nome, escrito em belos caracteres de bronze. Era a história de sua própria vida. Ele sabia que precisava abri-lo, mas não se sentia encorajado. Era, evidentemente, um recurso, para levá-lo ao reexame de seus atos, ao passado, enfim. Depois de muita relutância, fez o gesto de virar a capa. A primeira página estava em branco! Fez uma pausa e virou mais uma: também em branco. — Todo o livro estava em branco... A lição era por demais óbvia: nada construíra naquela existência tumultuada, durante a qual dominara povos, ao poder da espada impiedosa. As cenas são mostradas com todo o seu realismo: o movimento, os sons, as cores, como se um “vídeotape” as reproduzisse, com toda a sua intensidade e emotividade. Com muita frequência, os Espíritos relutam em contemplá-las, e procuram fugir das visões que, não obstante, tornam-se irrecusáveis, e impõem-se, a despeito deles próprios. A um deles a visão era de uma folha de papel e uma pena. Cabia-lhe assinar o documento, que ele sabia ser uma sentença de morte. Fizera-o, certamente, no passado, e agora revia o momento dramático, com uma diferença: alguém contemplava, a curta distância, fixando nele um par de olhos tranquilos, cheios de amor fraterno, provavelmente os de sua vítima. Seu desespero é atroz. Pede que lhe tirem da frente o papel e a pena. Que lhe cortem a mão que assinou a sentença e que fique cego, para não contemplar mais aqueles olhos... Diz que matou uma santa, e informa: “uns são canonizados e outros queimados”. * Muito frequente é a presença de antigos e esquecidos amores: mães, esposas, filhos, ou amigos muito chegados ao coração. Se fosse realizada uma pesquisa estatística sobre tais manifestações, estou certo de que as mães ocupariam o primeiro lugar, destacadamente. A pureza do amor materno permanece inalterável, ao longo dos séculos e das vicissitudes, arrosta as ingratidões, suporta as humilhações, vence o ódio, vence tudo. Lembram-se das cenas finais de LIBERTAÇÃO? É a mãe que vai buscar o filho amado, nas profundezas de seus tenebrosos domínios. Ela alcançara, já há muito, as regiões da felicidade; mas, e a dor de ter o seu amado preso ainda às paixões do mundo? Vai ao seu encontro, numa descida sacrificial às difíceis regiões em que ele vive e sobre as quais reina, incontestado. — “Sou Matilde — diz ela — alma de tua alma, que, um dia, te adotou por filho querido e a quem amaste como dedicada mãe espiritual.” Quantas vezes temos assistido a reencontros emocionados, que nos velam de lágrimas os olhos! Lembro-me de um deles, em particular. O Espírito vinha assediando-nos há tempos, semana após semana. Manifestou-se, primeiro aparentemente muito calmo e tranquilo. Disse que ia passando por ali e resolvera fazer-nos uma visita. Nada queria de especial: iria apenas observar- nos e, se fosse o caso, tomar suas providências”. Deixou no ar a ameaça ô partiu. Mal suspeitava eu da demorada aventura que ali começava... Por algumas semanas, observou-nos. Pouco falava nas suas manifestações. Revelou, apenas, que já tinha sob seu controle alguns daqueles que dispunham de maior quantidade de “massa cinzenta”, mas começava a deixar transparecer, também, certa preocupação, porque algum delator, a seu ver, havia contado a nós os seus propósitos e objetivos. Na vez seguinte suas preocupações estavam ampliadas, porque descobriu que, através de processos de regressão de memória, de nosso conhecimento, estávamos penetrando certos núcleos. Nessa mesma noite, tem a primeira visão de algo que muito o perturba. Adormece e parte. Na semana seguinte não consegue mais manter-se calmo, como das vezes anteriores. Está indignado, furioso. Diz que tudo ruiu em torno dele. Tinha o poder de um semideus, e “fomos mexer com a sua família!” Dá murros na mesa, dominado pelo ódio e espicaçado pela humilhação. Se pudesse, me pegaria, para mandar queimar-me vivo! Acaba em pranto, de revolta e de impotência. Em seguida, por outro médium, manifesta-se um Espírito feminino e conta a sua dolorosa história. Foi mãe daquele que acaba de retirar-se. Foi, por certo, a sua presença ali, junto dele, que o perturbou há duas semanas. — Ele é bom — diz ela —, mas muito vaidoso. Ainda vê nele o filho querido de quatro séculos atrás. Ela mesma ainda não está bem. Sofre muito e foi trazida somente para encontrar-se com ele. No passado, enquanto encarnados, também teve um encontro dramático com ele. Ele a abandonara à sua própria sorte e ela enveredara pela degradação mais abjeta. Quando já se encontrava na sarjeta, procurou-o e foi repelida. Ele se havia tornado muito importante na hierarquia eclesiástica. Os séculos se passaram, e tudo quanto ela esperava, agora, era merecer novamente a oportunidade de ser mãe, mãe digna. Digo-lhe que as mães são seres humanos e, por isso, também erram. Ofereço-lhe a nossa ajuda, que ela agradece, dizendo que tem de voltar para onde está, no momento. Com este caso, desencadeou-se extenso processo, que se desdobrou em aspectos inesperados e de profundas implicações. Nunca pudemos, no entanto, esquecer a ajuda daquela mãe humilde, e ainda mergulhada nas dores do resgate, que nos ajudou, com a sua presença amiga, a despertar o valoroso Espírito que adormecera nas suas paixões, embalado pelo amor ao poder. Em caso semelhante a esse, o Espírito consegue divisar a figura de sua mãe, ajoelhada diante dele, a pedir-lhe perdão. Ele reluta e resiste, porque é este, precisamente, o âmago de sua problemática: foi abandonado, por ela, à roda, e por isso ele repete agora, a si mesmo, que não tem mãe. Oramos, damos-lhe passes, e, por fim, ele não mais resiste: — Tenho mãe! — diz ele. — Não sou um desgraçado! De outra vez, num caso a que já me referi alhures, o Espírito tinha um problema pessoal comigo. Era questão antiga, de mais de oito séculos! Em consequência desse, e de outros desenganos, vagava ainda pelas trilhas da revolta e do rancor. O problema era extremamente difícil, porque se tratava de um caso em que o ódio concentrava-se diretamente sobre um de nós, precisamente aquele que se incumbia de doutriná-lo e esclarecê-lo. Ele se mantinha irredutível, pois minha presença obviamente reanimava nele as antigas paixões e frustrações, das quais não conseguira desembaraçar-se. Foi num desses pontos críticos do diálogo que outro médium me disse que um Espírito presente desejava dizer alguma coisa diretamente a ele. Era sua mãe. Elevei meu pensamento em prece e, com enorme respeito, ouvi o diálogo através do tempo, entre a mãe amorosa, que não esquecera e sofria com a ausência do filho, e o filho que recusava obstinadamente o amor, porque estava achando impossível viver sem o ódio e a vingança. Pede-lhe ela, com infinito carinho e humildade, que abandone aquela vida e venha para junto de seu coração. Todos estão juntos na família; só ele está ausente. Não está convencido de que ele a recuse. Deseja ouvir dele próprio a negativa. E ele diz que não a quer mesmo, pois seu caso ali é outro. Que ela não se meta; continue a fazer seus bordados. Ela lhe lembra as velhas cantigas e aquele tempo em que ele orava no quarto, em silêncio, junto de Deus. Depois lhe diz que vai deixar o médium, pelo qual lhe está falando, para aconchegá-lo junto ao seu coração. Ora, comovidamente, à Mãe Santíssima, em palavras simples, expondo o seu problema e as suas dores. Quando conseguimos, afinal, despertar o amado companheiro, dirijo a ela um pensamento de infinita ternura e gratidão, porque estou certo de que, sem o seu concurso, não o teríamos alcançado. Bem que ela poderia também ter guardado certa mágoa de mim, porque fui um dos agentes de sua angústia, mas não teve para mim uma palavra de censura ou de amargor. Em outro caso, também muito difícil, o Espírito, autoritário e empolgado pelas suas ideias e pelo seu rancor, recebeu, diante de nós, a visita de um menino (teria sido seu filho ou neto?) que o desarmou com seu carinho, seus apelos, sua ternura infantil, saltando, sem-cerimônia, para o seu colo... Basta um momento assim, de ternura, de recordação, de amor, para que a luz penetre o coração angustiado desses queridos companheiros, perdidos num dédalo de sentimentos confusos, cercados de sombras, dominados pela aflição. De outras vezes, amigos e parentes acham-se presentes, mas não se revelam à visão do Espírito manifestado. Respeitemos suas razões, que usualmente são válidas: não teria ainda chegado a hora do reencontro. Numa dessas oportunidades, o Espírito viera dar uma ajuda, no caso de um companheiro de quem estávamos tratando. Em tempos idos, fora um dos principais instrumentos dos terríveis desvarios daquele a quem desejava, agora, ajudar a libertar de suas angústias. Mesmo assim, ainda trazia ressaibos de ironia. Ao manifestar-se, fez uma saudação: — Divino! Divino!
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