Livros Espíritas
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Zelfos explicou, então, que tinha dificuldade para discernir a causa, concluindo: — Pelo que dizes, ele parece -me antes um mentiroso vulgar. — Isso não — exclamou Lisias —, naturalmente possuirá titulos de cidadania do Império e agiu por mo tivos que não estamos habilitados a apreciar. Percebendo que o amigo se irritara íntimamente com as suas primeiras alegações, Zelfos apress ou-se a corrigir: — Teus conceitos são justos. — Tenho de emiti-los em consciência — acrescentou Lísias bem inspirado —, porque esse homem, desconhe cido para nós ambos, falou de problemas muito sérios. Zelfos pensou um instante e ponderou: — Considerando tudo isso, proponho seja apresen tado, amanhã, ao Sinédrio. Julgo que somente assim poderemos encontrar uma fórmula capaz de resolver o assunto. Cláudio Lísias recebeu o alvitre com displicência. No íntimo, sentia -se mais propenso a patronar a defesa do Ap óstolo. Sua palavra, inflamada de fé, impressionara-o vivamente. Em breves, rápidos momentos de meditação, analisou todos os lances pró e contra uma atuação dessa natureza. Subtrair o acusado à perseguição dos mais exaltados era uma ação justa; mas dispu tar com o Sinédrio era uma atitude que reclamava mais prudência. Conhecia os judeus, muito de perto, e, por mais de uma vez, experimentara o grau de suas paixões e caprichos. Compreendendo, igualmente, que não deve ria despertar qualquer suspeita do colega, com relação às suas crenças religiosas, fez um gesto afirmativo e declarou: — Concordo com o alvitre. Amanhã, entregá -lo-emos aos juizes competentes em matéria de fé. Poderás deixar isso a meu cargo, porque o prisioneiro será acompanhado de escolta que o garanta contra qualquer vio lência. E assim foi. Na manhã seguinte, o mais alto Tri bunal dos israelitas foi notificado pelo tribuno Cláudio Lísias de que o pregador do Evangelho compareceria perante os juizes para os inquéritos necessários, às pri meiras horas da tarde. As autoridades do Sinédrio experimentaram enorme regozijo. Iam, enfim, rever o deser tor da Lei, face a face. A notícia foi espalhada com invulgar rapidez. Paulo, por sua vez, na solidão do cárcere, sentiu -se felicitado com uma grande surpresa, naquela manhã de sombrias perspectivas. É que, com permissão do tribuno, uma velha senhora e seu filho, ainda jovem, penetravam na cela a fim de visitá-lo. Era sua irmã Dalila com o sobrinho Estefânio, que conseguiram, depois de muito esforço, permissão para uma entrevista ligeira. O Apóstolo abraçou a nobre senhora, com lágrimas de emoção. Ela estava alquebra da, envelhecida, O jovem Estefânio tomou as mãos do tio e beijou -as com veneração e ternura. Dalila falou das saudades longas, recordou episód ios familiares com a poesia do coração feminino, e o ex -doutor de Jerusalém recebia todas as notícias, boas e más, com imperturbável serenidade, como se procedessem de um mundo muito diferente do seu. Buscou, entretanto, confortar a irmã, que, a uma remin iscência mais dolorosa, se desfazia em prantos. Paulo historiou sucintamente as suas viagens, lutas, obstáculos dos caminhos palmilhados por amor de Jesus. A venerável senhora, embora alheia às verdades do Cristianismo, muito deli cadamente não quis tocar nos assuntos religiosos, de tendo-se nos motivos afetuosos de sua visita fraternal e chorando copiosamente ao despedir -se. Não podia compreender a resignação do Apóstolo, nem apreciava devi damente a sua renúncia. Lastimava-lhe, íntimamente, a sorte e, n o fundo, tal como a maioria dos compatriotas, desdenhava aquele Jesus que não oferecia aos discípulos senão cruzes e sofrimentos. Paulo de Tarso, todavia, experimentara grande con forto com a sua presença; sobretudo, a inteligência e a vivacidade de Estefâ nio, na ligeira palestra mantida, proporcionavam -lhe enormes esperanças no futuro espi ritual do sobrinho. Ainda repassava na mente essa grata impressão quando numerosa escolta se postava junto à cela, para acompanhá -lo ao Sinédrio, no momento oportuno. Logo após o meio-dia, compareceu à barra do Tri bunal e percebeu, de pronto, que o cenáculo dos gran des doutores de Jerusalém vivia um dos seus grandes dias, repleto de compacta massa popular. Sua presença provocava uma aluvião de comentários. Todos queriam ver, conhecer o trânsfuga da Lei, o doutor que repudiara e deprimira os títulos sagrados. Sobremaneira comovido, o Apóstolo lembrou ainda uma vez a figura de Estevão. Competia lhe, agora, dar igualmente o testemunho do Evangelho de verdade e redenção. A agitação do Sinédrio dava-lhe a mesma tonalidade dos tempos ali vividos. Ali, precisamente, infligira as mais duras humilhações ao irmão de Abigail e aos prosélitos de Jesus. Era justo, portanto, esperar, agora, acerbos e remissores sofrimentos. Depois, para cúmulo de amargura, a singular coinci dência: o sumo-sacerdote que presidia o feito chamava -se também Ananias! Acaso? Ironia do destino? Tal como se verificou com Jeziel, lido o libelo acusa tório, deram a palavra ao Apóstolo para defender -se, em atenção às prerrogativas de nascimento. Paulo entrou a justificar-se, sumamente respeitoso. Risos abafados, não raro, quebravam o silêncio ambiente, a indiciarem a termometria sarcasticamente hostil do auditório. Quando a sua altiloqüente oratória começou a im pressionar pela fidelidade do testemunho cristão, o sumo -sacerdote lhe impôs silêncio e vociferou enfático: — Um filho de Israel, ainda que portador de títulos romanos, quando desrespeite as tradições desta casa, com afirmativas injuriosas à memória dos profetas, torna-se passível de severas reprimendas. O acusado parece ignorar o dever de explicar-se convenientemente, para tresvariar em conceitos. sibilinos, próprios da sua desre grada e criminosa obsessão pelo carpinteiro revolucionário de Nazaré! Minha autoridade não permite abusos nos lugares santos. Determino, pois, que Paulo de Tarso seja ferido na boca, em desafronta aos seus termos insultuosos. O Apóstolo endereçou-lhe um olhar de serenidade indizível e replicou. — Sacerdote, vigiai o coração para não incidirdes em repressões injustas. Os homens, como vós, são como as paredes branqueadas dos sepulcros, mas não deveis ignorar que também sereis ferido pela justiça de Deus. Conheço de sobra as leis de que vos tornastes executor. Se aqui permaneceis par a julgar, como e por que mandais ferir? Antes, porém, que pudesse prosseguir, um pequeno grupo de prepostos de Ananias avançou com açoites mi núsculos, ferindo-o nos lábios. — Ousas injuriar o sumo-sacerdote? — exclamavam fulos de cólera. — Pagarás os insultos!... As lambadas riscavam o rosto rugoso e venerando do ex -rabino, sob os aplausos gerais. Vozes irônicas elevavam-se, incessantes, do seio da turba refece. Uns pe diam mais rigor, outros, estentóricos, reclamavam o ape drejamento. A serenidade do Apóstolo dava pleno teste munho e mais acirrava os ânimos impulsivos e criminosos. Destacaram-se certos grupos de israelitas mais soezes e, cooperando com os verdugos, cuspinhamam -lhe o rosto. Generalizou-se o tumulto. Paulo tentou falar, explicar -se mais detalhadamente, mas a confusão era tal que nada se ouvia e ninguém se entendia. O sumo-sacerdote permitira a desordem deliberadamente. Os elementos principais do Sinédrio desejavam exterminar o ex -doutor a qualquer preço. O Tribunal só se prestara ao julgam ento de entremez, porque havia percebido o interesse pessoal de Cláudio Lísias pelo prisioneiro. Não fora isso, Paulo de Tarso teria sido assassinado em Jerusalém, para satisfazer aos sentimentos odiosos dos inimigos gratuitos da sua abençoada tarefa apos tólica. Solicitado pelo tribuno, presente à reunião memorial, Ananias conseguiu restabelecer a calma no ambiente. Depois de apelos desesperados, a assembléia emudeceu, expectante. Paulo tinha o rosto a sangrar, a túnica em fran galhos; mas, com surpresa e pasmo gerais, revelava no olhar, ao contrário de outros tempos, em circunstâncias dessa natureza, grande tranqüilidade fraternal, dando a entender que compreendia e perdoava os agravos da ignorância. Supondo-se em posição vantajosa, o sumo sacerdote acentu ou em tom arrogante: — Devias morrer como teu Mestre, numa cruz des prezível! Desertor das tradições sagradas da pátria e blasfemo criminoso, não te bastam, por justo castigo, os sofrimentos que começas a experimentar entre os legíti mos filhos de Israel!... O Apóstolo, no entanto, longe de acovardar -se, replicou tranqüilamente: — Juízo apressado o vosso... Não mereço a cruz do Redentor, porque a sua auréola é gloriosa demais para mim; entretanto, os martírios todos do mundo seriam justos, aplicados ao pe cador que sou. Temeis os sofrimentos porque não conheceis a vida eterna, considerais as provações como quem nada vê além destes efêmeros dias da existência humana. A política mesquinha vos distanciou o espírito das visões sagradas dos profetas!... Os cristãos, sabei-o, conhecem outra vida espiritual, suas esperanças não repousam em triunfos mendazes que vão apodrecer com o corpo no sepulcro! A vida não é isto que vemos na banalidade de todos os dias terrestres; é antes afirmação de imortalidade glo riosa com Jesus-Cristo! A palavra do orador parecia magnetizar, agora, a assembléia em peso. O próprio Ananias, não obstante a cólera surda, sentia -se incapaz de qualquer reação, como se algo de misterioso o compelisse a ouvir até ao fim. Imperturbável em sua sere nidade, Paulo de Tarso prosseguiu: — Continuai a ferir-me! Escarrai-me na face! Açoitai-me! Esse martirológio me exalta para uma esperança superior, porque já criei no meu íntimo um santuário intangível às vossas mãos e onde Jesus há de reinar para Sempre ... — Que desejais — continuou em voz firme — com as vossas arruaças e perseguições? Afinal, onde o mo tivo para tantas lutas estéreis e destruidoras? Os cristãos trabalham, como o fez Moisés, para a crença em Deus e em nossa gloriosa ressurreição. É inút il dividir, fomentar a discórdia, tentar empanar a verdade com as ilusões do mundo.
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