Livros Espíritas
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Tivemos o caso de uma jovem que se suicidara por uma paixão desvairada, numa antiga encarnação na Escócia, quando aquele a quem amava abandonou-a, grávida e na vergonha. Localizando-o como encarnado, perseguia-o, tentando — e conseguindo — induzi-lo a erros bastante sérios. Outra — fora irmã de caridade — atormentava uma criatura encarnada, em 23 NO MUNDO MAIOR, FEB, 5ª edição, capitulo 11 — “Sexo”. cumprimento a “ordens superiores”. Vimos, também, aquela pobre companheira, teleguiada por hábeis indutores, que transviava um homem encarnado e era recompensada com festas, vestidos bonitos e prazeres. Em certa oportunidade compareceu uma bem mais difícil. Já há algum tempo vinha tentando induzir um dos componentes do grupo a uma atitude extremamente arriscada. O caso era apresentado de maneira sutil, inteligente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Seria apenas a antecipação do que, segundo o Espírito, estava já programado para mais tarde. Não haveria culpa alguma, portanto. Era “fisicamente” simpática, apresentava-se bem vestida, unhas muito polidas, sorridente, educada, cordial. Várias vezes tentou influenciar o nosso companheiro, apresentando-se ante seus olhos espirituais, ou durante o desdobramento do sono natural. Finalmente, comparece aos nossos trabalhos mediúnicos. Ri-se, muito divertida da situação. Tem a voz suave, envolvente e doce. Diz-se muito bela, elegante, esguia, bem-cuidada. Conta casos, sorri, faz gestos graciosos e parece imensamente segura de si mesma. Trata-me com condescendência e superioridade. Informa que “trabalha” junto a casais e que seu objetivo é libertar a mulher, para que todas sejam como ela, felizes e livres para gozar a vida, sem preconceitos. De vez em quando, pára a exposição para rir, pois deixa entrever que se decepcionou profundamente comigo. Conhecia-me apenas de nome e a realidade não confere com a imagem que formulou a respeito da minha aparência. Acha-me, provavelmente, feio, desengonçado e ridículo. Diz que no mundo em que vive é muito poderosa, porque é a favorita. Ainda muito condescendente, aconselha-me, como amiga, a juntar minhas coisas e partir enquanto é tempo, pois não tenho a menor ideia do que estou fazendo e onde estou me metendo. Esquiva-se habilmente às perguntas, muito segura, inteligente e tranquila. Quando lhe formulo questão mais complexa, desculpa-se, dizendo que é uma mulher e não é dada à Filosofia. Do mundo espiritual, sugerem-me que lhe pergunte por que fugiu de um certo castelo inglês. Ela continua a negacear, mas se mostra visivelmente transtornada. Por fim, perde a calma, abandona a atitude de inconsequente e superior condescendência, e ordena-me autoritariamente que me sente, o que não quero fazer, para permanecer junto do médium que a recebe. É chegado o momento de começar realmente o processo de doutrinação. Até aqui — o trabalho todo durou cerca de uma hora — o tempo foi aplicado em tatear a sua personalidade e os seus problemas, a fim de obter informações. Agora, já dispomos de alguns elementos mais concretos. Digo-lhe, de início, que sua beleza física, de que tanto se orgulha, é mera criação de sua mente, mas ela está bem preparada para o confronto. Pede um espelho, para me provar que não tenho razão. Nesse ponto, não obstante, vê junto dela um Espírito de aparência agressiva e pejado de vibrações desarmonizadas. É um antigo esposo, de quem ela matou todos os filhos recém- nascidos e os enterrou no jardim. Não queria filhos, porque eles “deformam o corpo”. Está igualmente preparada para esse encontro. Na organização em que vive, como favorita de um poderoso líder das trevas, tudo aquilo lhe fora mostrado em retrospecto, por meio de imagens vivas, em filme, para que ela pudesse, numa emergência como esta, suportar a lembrança das suas próprias atrocidades, sem se perturbar e perder o “equilíbrio”. Agora, enquanto revê as cenas, está aparentemente segura e continua a rir-se de tudo, dizendo que não adianta mostrar-lhe nada. A despeito do seu preparo, no entanto, não resiste muito tempo e entra em crise dolorosa, a pobre e querida irmã. Seu ex-marido incorpora-se em outro médium e atira-lhe impropérios, entre dentes, chamando-a de assassina. Diz-lhe que está à sua espera e ri, de prazer insano, ante o desespero em que ela se precipita. Dirijo a ele algumas palavras, tentando acalmá-lo, e me volto para ela, para ajudá-la a enfrentar o seu problema, as suas recordações e, principalmente, o seu futuro. Ela me responde em perfeito inglês: “— I burned all the bridges behind me” . (Queimei todas as pontes por que passei) Respondo-lhe que tentou também queimar as pontes para o futuro e, por isso, se sente prisioneira numa ilha sinistra. É uma longa e penosa agonia! Sente as mãos sujas de sangue, detesta aquele vestido vermelho, que não consegue trocar, e começa a temer o momento fatal em que terá de deixar o médium para enfrentar a nova realidade que se pastou diante dela subitamente, mas, por certo, não inesperadamente. Ela pressente as dores que a esperam, pois muitas vezes deve ter presenciado esse momento dramático, em outros Espíritos endividados. De repente, começa nela um fulminante processo de envelhecimento, ao mesmo tempo em que suas roupas apresentam-se sujas e em frangalhos. Ela ainda consegue dizer que seu ventre secou e, por fim, desprende-se com enorme sofrimento para o médium, que ficou com os resíduos da sua profunda e dolorosa angústia. Poucas semanas depois deste caso, tivemos outra manifestação de Espírito feminino. Também é das que se dizem atraentes e sedutoras, estando, obviamente, empenhada em fascinar criaturas encarnadas e desencarnadas, a serviço dos seus mandantes. Vai logo dizendo, muito sorridente, que não venha com as minhas conversas macias. Ainda se fossem outras conversas... diz, maliciosamente. Declara-se muito sutil e por isso é destacada para missões delicadas. Teria descoberto que o pobre doutrinador é muito amado e teve o desejo de conhecê-lo pessoalmente; no entanto, mal pode esconder seu desapontamento. Presa aos seus condicionamentos, esperava, por certo, que eu fosse jovem e belo, e não um desenxabido senhor de cabeça a branquear. Digo-lhe que realmente sou um velho sem graça e quando lhe pergunto se ela é jovem, responde corretamente que o Espírito não tem idade. A uma outra pergunta minha, declara que vive no céu, pois o céu é um estado de espírito e ela é muito feliz. A conversa prolonga-se aparentemente sem rumo, mas é a fase em que são colhidas as informações de que necessitamos para o trabalho real de doutrinação. Depois de reunidos os elementos que me parecem suficientes, proponho-me a orar. Ela protesta, alegando que eu oro demais e, mal me levanto, ela se debruça sobre a mesa, em pranto, numa crise emocionante, dolorosa. Sinto por ela uma infinita e paternal ternura e lhe falo com muito carinho. Ela deixa cair todas as guardas e me conta que é uma infeliz: foi explorada pelos homens aqui, na carne, e continua a ser explorada do lado de lá. Vive num verdadeiro campo de concentração, com outras criaturas infelizes. Enquanto “ela” estava lá — refere-se, como depois apuramos, à irmã atendida semanas antes e que descobrimos ter sido uma duquesa — foi protegida; depois, não. Havia sido incumbida de uma tarefa, junto à esposa de alguém que estávamos interessados em ajudar; mas, ao chegar junto a essa pobre senhora, viu-a em pranto, a chorar às escondidas. Teve pena dela e ficou sem coragem de executar friamente o seu mandato. (Estava presente também quando telefonei para essa amiga encarnada, para consolá-la de dores que me havia confiado.) Aproveito para dizer-lhe que foi aquele momento de compaixão, diante da sua vítima em perspectiva, que a salvou, permitindo que fosse, por sua vez, socorrida. Sente-se muito desconcertada e arrependida de ter-me tratado como tratou, de início. Quando lhe digo que tenho idade para ser seu pai, ela me interrompe para afirmar que não teve a intenção de me ofender: Como estou, precisamente naquela noite, comemorando 56 anos de idade, digo-lhe que ela acaba de me dar o mais lindo presente: seu coração. Ela teme seus verdugos e está apavorada ante as perspectivas de ser arrastada por eles, ao deixar o médium. Sente-se muito emocionada ante o carinho e o respeito com que a tratamos, se diz cansada e confessa que até aos meus prejudicou bastante, em suas atividades, Vê, agora, ao seu lado, uma jovem pacificada e tranquila, que veio recebê-la, mas um dos emissários da sua tenebrosa organização está presente, em outro médium, e tenta confundi-la, dizendo que a moça que a espera também é deles, o que não é verdade. Pergunto se ela confia em mim. Diz que sim. Peço-lhe que siga a moça, e ela parte, repetindo uma pequena prece que lhe sugiro: — Jesus, me ajude! Houve, neste caso, um pós-escrito. O companheiro que se incorporou em outro médium, para ameaçá-la, perguntou se eu ainda dispunha de tempo para atendê-lo. Respondi-lhe que, infelizmente, não, porque tínhamos uma disciplina de trabalho, que precisava ser obedecida, mas poderíamos conversar na oportunidade seguinte, com o que ele concordou, dizendo que voltaria. No decorrer da semana, porém, nossos mentores disseram-nos que ele havia sido doutrinado no mundo espiritual mesmo, e que se esclarecera, não sendo, portanto, necessário trazê-lo novamente ao grupo. *
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