Livros Espíritas
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— perguntou melifluamente o filho de Zebedeu. — É verdade — confirmou o ex-rabino com serenidade amarga —, entretanto, é forçoso partir. Caso não mais volte, enviarei um companheiro para colher as devidas anotações. — Contudo, poderias ficar conosco. O tecelão de Tarso fitou o companheiro com tran qüilidade e explicou, em atitude humilde: — Talvez estejas enganado. Nasci para uma luta sem tréguas, que deverá prevalecer até ao fim dos meus dias. Antes de encontrar as luzes do Evangelho, errei criminosamente, embora com o sincer o desejo de servir a Deus. Fracassei, muito cedo, na esperança de um lar. Tornei-me odiado de todos, até que o Senhor se compa decesse de minha situação miserável, chamando -me às portas de Damasco. Então, estabeleceu se um abismo entre minha alma e o passa do. Abandonado pelos amigos da infância, tive de procurar o deserto e recomeçar a vida. Da tribuna do Sinédrio, regressei ao tear pesado e rústico. Quando voltei a Jerusalém, o judaísmo con siderou-me doente e mentiroso. Em Tarso experimentei o abandono do s parentes mais caros. Em seguida, reco mecei em Antioquia a tarefa que me conduzia ao serviço de Deus. Desde então, trabalhei sem descanso, porque muitos séculos de serviço não dariam para pagar quanto devo ao Cristianismo. E sai às pregações. Peregrinei por diversas cidades, visitei centenas de aldeias, mas de nenhum lugar me retirei sem luta áspera. Sempre saí pela porta do cárcere, pelo apedrejamento, pelo golpe dos açoites. Nas viagens por mar, já experimentei o naufrágio mais de uma vez; nem mesmo no bojo estreito de uma embarcação, tenho podido evitar a luta. Mas Jesus me tem ensinado a sabedoria da paz interior, em perfeita comunhão de seu amor. Essas palavras eram ditas em tom de humildade tão sincera que o filho de Zebedeu não conseguia esconder su a admiração. — És feliz, Paulo — disse ele convicto —, porque entendeste o programa de Jesus a teu respeito. Não te doa a recordação dos martírios sofridos, porque o Mestre foi compelido a retirar -se do mundo pelos tormentos da cruz. Regozijemo-nos com as prisões e sofrimentos. Se o Cristo partiu sangrando em feridas tão dolorosas, não temos o direito de acompanhá-lo sem çicatrizes... O Apóstolo dos gentios prestou enorme atenção a essas palavras consoladoras e murmurou: — É verdade!... — Além do mais — acrescentou o companheiro emo cionado —, devemos contar com calvários numerosos. Se o Cordeiro Imaculado padeceu na cruz da ignomínia, de quantas cruzes necessitaremos para atingir a redenção? Jesus veio ao mundo por imensa misericórdia. Acenou -nos brandamente, convocando-nos a uma vida melhor... Agora, meu amigo, como os antepassados de Israel, que saíram do cativeiro do Egito à custa de sacrifícios extremos, precisamos fugir da escravidão dos pecados, vio lentando-nos a nós mesmos, disciplinando o espírito , a fixa de nos juntarmos ao Mestre, correspondendo à sua imensa bondade. Paulo meneou a cabeça, pensativo, e acentuou: — Desde que o Senhor se dignou convocar -me ao serviço do Evangelho, não tenho meditado noutra coisa. Nesse ritmo cordial conversaram mui to tempo, até que o Apóstolo dos gentios concluiu mais confortado: — O que de tudo concluo é que minha tarefa no Oriente está finda. O espírito de serviço exige que me vá além... Tenho a esperança de pregar o Evangelho do Reino, em Roma, na Espanha e entre os povos menos conhecidos... Seu olhar estava cheio de visões gloriosas e João murmurou humildemente: — Deus abençoará os teus caminhos. Demorou-se ainda em Éfeso, movimentando os me lhores empenhos a favor dos prisioneiros. Conseguida a liberdade do s detentos, resolveu deixar a Jônia dentro do menor prazo possível. Estava, porém, profundamente abatido. Dir-se-ia que as últimas lutas haviam cooperado no desmantelo de suas melhores energias. Acompanhado de alguns amigos dirigiu -se para Trôade, onde se demorou alguns dias, edificando os irmãos na fé. A fadiga, entretanto, acentuava-se cada vez mais. As preocupações enervaram -no. Experimentava no íntimo profunda deso lação, que a insônia agravava dia a dia. Paulo, que nunca esquecera a ternura dos irmãos de Filipes, deliberou, então, procurar ali um abrigo, ansioso de repousar alguns momentos. O Apóstolo foi acolhido com inequívocas provas de carinho e consideração. As crianças da instituição desdobraram-se em demonstrações de afetuosa ternura. Outra ag radável surpresa ali o esperava: Lucas encontrava -se acidentalmente na cidade e foi abraçá-lo. Esse encontro reanimou -lhe o ânimo abatido. Avistan do-se com o amigo, o médico alarmou -se. Paulo pareceu-lhe extremamente debilitado, triste, não obstante a fé inabalável que lhe nutria o coração e transbordava dos lábios. Explicou que estivera doente, que muito so frera nas últimas pregações de Éfeso, que estava sozinho em Filipes, depois do regresso de alguns amigos que o haviam acompanhado, que os colaborador es mais fiéis haviam partido para Corinto, onde o aguardavam. Muito surpreendido, Lucas tudo ouviu silencioso e perguntou: — Quando partirás? — Pretendo aqui ficar duas semanas. E depois de vaguear os olhos na paisagem, concluiu em tom quase amargo: — Aliás, meu caro Lucas, julgo ser esta a última vez que descanso em Filipes... — Mas, por quê? Não há motivos para pressenti mentos tão tristes. Paulo notou a preocupação do amigo e apressou -se a desfazer-lhe as primeiras impressões: — Suponho que terei de par tir para o Ocidente —esclareceu com um sorriso. — Muito bem! — respondeu Lucas reanimado. —Vou ultimar os assuntos que aqui me trouxeram e irei contigo a Corinto. O Apóstolo alegrou-se. Rejubilava-se com a presença de um companheiro dos mais dedicados. Lu cas também estava satisfeito com a possibilidade de assisti-lo na viagem. Com grande esforço procurava dissimular a penosa impressão que a saúde do Apóstolo lhe causara. Magríssimo, rosto pálido, olhos encovados, o ex -rabino dava a impressão de profunda mi séria orgânica. O médico, no entanto, fez o possível por ocultar suas dolo rosas conjeturas. Como de hábito, Paulo de Tarso, durante a viagem até Corinto, falou do projeto de chegar a Roma, para levar à capital do Império a mensagem do amor do Cristo Jesus. A companhia de Lucas, a mudança das paisagens revigoravam-lhe as forças físicas. O próprio médico es tava surpreendido com a reação natural daquele homem de vontade poderosa. Pelo caminho, através das pregações ocasionais de um longo itinerário, juntaram-se-lhes alguns companhei ros mais devotados. Novamente em Corinto, o ex -rabino ratificou as suas epístolas, reorganizou amorosamente os quadros de ser viços da igreja e, no círculo dos mais íntimos, não falava de outra coisa senão do grandioso projeto de visitar Roma, no intuito de auxiliar os cristãos, já existentes na cidade dos Césares, a estabelecerem instituições semelhantes às de Jerusalém, de Antioquia, de Corinto e outros pontos mais importantes do Oriente. Nesse meio tempo, readquiriu as energia s latentes do organismo debi litado. Desdobrava-se no plano, coordenando idéias e mais idéias do programa colimado, na imperial metrópole. Aventou numerosas providências. Pensou em preparar sua chegada, fazendo -a preceder de carta na qual reca pitulasse a doutrina consoladora do Evangelho e nomeasse, com saudações afetuosas, todos os irmãos do seu conhecimento no ambiente romano. Áquila e Prisca tinham voltado de Éfeso para a capital do Império, no intuito de recomeçar a vida. Seriam auxiliares diletos. Pa ra esse fim, Paulo empregou alguns dias na redação do célebre documento, concluindo-o com uma carga de saudações particulares e extensas. Foi aí que se verificou um episódio escassamente conhecido pelos seguidores do Cristianismo. Considerando que todos os irmãos e pregadores eram criaturas excessivamente ocupadas nos mais variados misteres e que Paulo custaria a encontrar portador para a missiva famosa, a irmã de nome Febe, grande cooperadora do Apóstolo dos gentios no porto de Cencréia, comunicou -lhe que teria de ir a Roma, em visita a parentes, e se oferecia, de bom grado, a levar o documento destinado a iluminar a cristandade póstera. Paulo exultou de contentamento, aliás extensivo a toda a confraria. A epístola foi terminada com enorme entusiasmo e jú bilo. Tão logo partiu a emissária heróica, o ex-rabino reuniu a pequena comunidade dos discípulos diletos para assentar as bases definitivas da grande excursão. Começou explicando que o inverno estava a começar, mas, tão depressa voltasse o tempo de navegação, embarcaria para Roma. Depois de justificar a exce lência do plano, visto já estar implantado o Evangelho nas regiões mais importantes do Oriente, pediu aos ami gos íntimos lhe dissessem como e até que ponto lhes seria possível secundá -lo. Timóteo alegou que Eunice não podia, no momento, dispensar seus cuidados, dado o falecimento da veneranda Lóide. Segundo expôs, precisava regressar a Tessalônica e Aristarco o secundou nesse pa recer. Sópatro falou de suas dificuldades em Beréia. Gaio pretendia part ir para Derbe no dia seguinte. Tíquico e Trófimo alegaram a necessidade urgente de irem a Éfeso, de onde pretendiam mudar para Antioquia, berço natal de ambos. Quase todos os demais estavam impossibilitados de participar da excursão. Apenas Silas afirmou q ue poderia fazê-lo, fosse como fosse. Chegada, porém, a vez de Lucas, que se mantivera até então calado, disse ele estar pronto e resolvido a compartilhar dos trabalhos e alegrias da missão de Roma. De toda a assembléia, dois apenas poderiam acompanhá -lo. Paulo, todavia, mostrou-se conformado e satisfeitíssimo. Bastavam -lhe Silas e Lucas, habituados aos seus métodos de propaganda e com os mais belos títulos de trabalho e dedicação à causa de Jesus. Tudo corria às maravilhas, o plano combinado aus piciava grandes esperanças, quando, no dia imediato, um peregrino, pobre e triste, surgia em Corinto, desembarcado de uma das últimas embarcações chegadas ao Pelo poneso para a ancoragem longa do inverno.
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